Eu e a bola (por José Sarney)

Dos presidentes da República, o que mais gostava de futebol era o Médici

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1 de 1 futebol-bola-840×577 - Foto: PIXABAY

Não tenho nenhuma autoridade para falar de futebol. Sou um dos poucos brasileiros que não é fanático pelo esporte jogado, especialmente pelo futebol. Ao longo de minha vida só quando menino, bem menino, aos dez anos joguei com bola de meia, porque em Pinheiro e São Bento não havia bolas de plástico — coloridas ou não, sempre despertam a fascinação das crianças —, e essas bolas de meia satisfaziam o nosso desejo com a possibilidade de praticar o esporte que é, e já era, uma paixão nacional.

Em outra fase, quando vim para São Luís fazer o exame de admissão para o Colégio Marista, aos doze anos — aí morando num pensionato que tinha como proprietária uma bondosa senhora, Dona Rosilda Penha, que até hoje guardo na memória como um Anjo Bom na minha vida —, comecei a entrar na grande conversa da rapaziada da casa (eu era o mais novo): o futebol, participando das discussões entre os times do Maranhão e os do Rio de Janeiro, capital do país e Cidade Maravilhosa.

O Rio era hegemônico. Brasília ainda não existia.
Ouvíamos pelo rádio a narração dos jogos com a mesma paixão com que hoje ficam pregados os viciados na televisão. Agora, Fernando, meu filho, vice-presidente da CBF, assiste a vídeos de velhos jogos e vibra com os gols passados com a mesma paixão com que se emociona em jogos ao vivo. Diz que é o único e duvidoso cartola que joga bola duas vezes por semana, religiosamente, num campo que se chama Narigão.
Pregados aos rádios, acompanhávamos os jogos. Eu logo me liguei ao Flamengo, torcendo e pregando no meu quarto, na parede, as fotografias dos jogadores e do time completo. Houve a disputa do título de um tricampeonato, e lembro-me até hoje dos nomes dos jogadores, que naquele tempo eram identificados de acordo com as posições, com termos em inglês. Eles eram: Jurandy (goalkeeper, goleiro); Domingos da Guia (center back, linha média), que deu beque em português; Biguá (right fullback); Bria (halfback), Jaime (inside left); e os atacantes Peraqui e Vevé (inside right e inside left). Esqueci de dois nomes. O Flamengo foi o Tricampeão do ano? Não me recordo.
Depois comecei a estudar pra valer e não tive mais tempo para outra coisa senão dedicar-me a ser um autodidata. Agora, na boa velhice, que na expressão de Bobbio é muito boa com o único defeito de durar pouco, eis que meus netos e bisnetos me convidam para assistir à Copa dos Times em nível mundial. A FIFA só fazia copa de países, com seleção de países. Agora está fazendo o Mundial de Clubes, oficialmente a Copa do Mundo de Clubes da FIFA 2025, o que é muito democrático. Reúne times de países grandes e pequenos, em mesmo nível, alguns com a revelação de serem da altura dos grandes. E eu já começo a conhecer Real Madrid, Chelsea, Manchester City e outros times menores…
O Brasil está fazendo bonito, e o meu antigo Flamengo começa esse Mundial ganhando de 2 x 0 do Espérance de Tunis, despertando em mim o velho torcedor de 14 anos, já com os netos na minha antiga idade pedindo-me para calar quando opino, dizendo: “Vovô, você nada entende de futebol”, e minha mulher se recusando a torcer por “time de fora”, argumentando “Só torço pelo Sampaio Correa, meu time do coração. É daqui do Maranhão.” E eu observo “Marly, eu e você, na casa dos 90, não temos mais tempo de ver o Sampaio na Copa Universal de Times” — agora disputada nos Estados Unidos, país que nunca gostou muito de futebol, apenas do futebol americano, como é chamado esse agarra-agarra de que até hoje não entendo as regras.

Dos presidentes da República, o que mais gostava de futebol era o Médici. Opinava sobre a Seleção do Brasil e não perdia um domingo: de rádio no ouvido, ia aos estádios assistir aos jogos. Igual a ele só o Lula, na devoção pelo Corinthians, construindo estádios, vestindo a camisa e sentindo dor de cabeça quando seu time perde.

Em Madrid, passei uma grande vergonha. Entrevistado na Espanha, no tempo em que fazíamos aqui o plebiscito e incluíram a hipótese inalcançável do monarquismo, eles me perguntaram se este sistema poderia vencer. Eu respondi: “O Brasil já tem muitos reis, o maior de todos, Rei Pelé. E temos o Rei das Baterias, o Rei do Café…” Aí despertei que estávamos na Espanha, país monárquico. E paguei o mico. Encerrei a entrevista, e o entrevistador saiu de cara feia.

Mas a verdade é que eu fui despertado para o gosto das partidas do Mundial de Clubes e já pergunto aos meus netos: “Quando é o próximo jogo do Flamengo?” Eles respondem: “É, velho, você não dizia que não tinha tempo para assistir a jogo de futebol?” Eu respondo: “Se tu não responderes, vou te puxar a orelha!”

 

José Sarney, ex-presidente 

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