Distrito da Confusão (Crônicas de Odylo Costa, filho)
Publico crônicas de meu pai. Nem todas datam de tempos de censura, mas todas ganham em ser lidas também nas entrelinhas
atualizado
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Dondon (Jornal do Brasil, 26 de maio de 1964)
Chamava-se Dondon. Mais exatamente, o nome era Antônio Santana Castelo Branco, mas ele próprio acrescentava: — “vulgo Dondon”; e com o tempo, já morto, não se tornou de todo alheio a mim pela misteriosa rede dos afetos que o sangue confirma, pois era parente longe da menina moça que um dia me deu um lar e, mais perto, do meu professor de francês no Liceu Piauiense, que há quarenta anos quero e admiro, Cristino Castelo Branco, e de seu filho, Carlos, que amo como irmão. Pensando melhor, emendo a tempo. Esse clã dos Castelo Branco, no ramo piauiense, sempre foi muito da minha gente. Havia os amigos de meu pai, Fenelon, Heitor e houve os meus, Huguinho, que morreu em meus braços, de cabelos brancos e com quem se perderam os segredos mais típicos do vale do Parnaíba, exceto a altura exata de armador de rede, pois esse ainda teve ocasião de me confiar, e Sansão, menino de cachos vestido de veludo que vi adulto morrer dispersando o gênio, gênio mesmo de verdade, em noites boêmias, cujo amanhecer por vezes refluía para minha casa de Santa Teresa, onde iam parar suas compras de madrugada em mercado de peixe, siris vivos, ou algum pato que preparava ao tucupi com a mesma arte dos seus quadros.
Ora, isto posto, como ia dizendo, chamava-se Dondon e (com perdão da má palavra) era meio doido, senão doido inteiro. Ele próprio dizia que morava no Campo de Marte, no mesmo largo em que estavam a Santa Casa, o Asilo de Loucos, a Cadeia Pública e o Cemitério, que era para não dar trabalho em caso de necessidade…
Dizia, só? Não. Escrevia. Porque esse piauiense atarracado e falante, por cujo desvario nunca faltou caridade em casa de meus pais, era jornalista. Foi, mesmo, um dos primeiros jornalistas que conheci, e ainda hoje o vejo (ou revejo) com os olhos da infância, que viu outros, e no exemplo de outros se banhou, mas com Antônio Santana Castelo Branco, vulgo Dondon, aprendeu cedo como não se deve fazer jornal.
Desde logo, porém, direi uma coisa em seu louvor. Era tudo, em sua folha; e gabava-se disso. Diretor, redator, revisor, tipógrafo, distribuidor a domicílio, vendedor de número avulso no Bar Carvalho, não dependia de ninguém para fazer O Denunciante. Era esse o nome daquelas quatro páginas impressas; e nelas se derramava toda a maledicência da pequena cidade provinciana, a Teresina da era de Vinte. Do fundo da memória emerge o cabeçalho, e se o tempo não me trai nele se acrescentava aos apelidos e qualificações de Dondon no desempenho profissional de suas tarefas outra condição mais alta, a de “Defensor do Bem, da Humanidade, da Justiça, da Liberdade e da Paz”.
Não propriamente a paz entre as famílias, nem dentro delas; porque algumas das hipóteses que os filhos da Candinha e a imaginação alucinada de Dondon transformavam em verdades incontestáveis e matéria impressa eram de molde a separar marido e mulher, filhos e pais, irmãos e cunhados, e assim por diante, sem falar em patrões e caixeiros, governados e governantes. Um destes últimos, cujo nome ainda hoje no Piauí é coberto de bênçãos pela excelência do seu governo, cometeu com Dondon a única arbitrariedade consciente de que sua mocidade severa e ativa o acusa. Estava-se em plena Revolução de 1930, o Tenente Landri Sales era interventor, cansou-se daquela maluquice exaltada que fazia da calúnia e da injúria um sistema jornalístico; mandou jogar a tipografia de Dondon no Parnaíba. E Antônio Santana Castelo Branco passou a viver de carregar banana em lombo de burro.
Falei em sistema. Era um sistema. O Denunciante não tinha preço fixo para a venda. Cada família, suscetível de vir a ter o nome impresso em tinta de jornal, era taxada, segundo as suas posses, que não segundo seus pecados. Pois a lembrança da espórtula arrecadada, cinco, vinte ou cinquenta mil réis que fossem, mesmo cem — o preço de dois bois —, se apagava totalmente da memória de Antônio Santana Castelo Branco, o defensor do Bem, da Humanidade, da Justiça, da Liberdade e da Paz, quando se sentava para escrever. Não assumia compromissos com ninguém — a não ser com a maledicência pública e com seu próprio desvario denunciatório. Nem adiantava pagar-lhe para que se calasse, pois, ao contrário de tantos cosmopolitas, não escrevia que lhe pagassem — e se calasse. Faltava-lhe o siso, não a honestidade.
Cheguei ao Rio em março de 1930. A 6 de janeiro de 1931 Félix Pacheco iluminava de alegria os meus dezesseis ‘anos com um emprego no Jornal do Comércio. Fui ser repórter no Ministério do Trabalho e conheci Lindolfo Collor, com quem a Revolução de 30 dizia ao que vinha, coisa que as Revoluções faziam depressa naquele tempo. Lá se vão mais de 33 anos que vivo em jornal. Nunca mais vi O Denunciante. Dondon já morreu há muito. Eis senão quando esta surpresa brutal: seu espírito ressuscita e invade a imprensa brasileira com uma fúria a que poucos restam imunes. Mistério insondável da natureza, os tipos do O Denunciante, que o então Tenente Landri Sales Gonçalves mandou jogar no Parnaíba, germinaram monstruosamente. Sua tinta pesteou as águas; e com elas desceu rio abaixo, salgou o mar oceano e onde houve terra brasileira banhada pelo Atlântico e mais chão adentro esse vírus maníaco foi contaminar jornais e jornalistas. E no caminho em que vão as coisas, será em breve necessário acrescentar ao currículo das escolas de jornalismo a cadeira em que se ensine a técnica da delação e a arte da denúncia.


