A lei da bala (por Pedro Costa)

Em escala nacional e decisões abstratas, os resultados dependem de propaganda e de uma luta de comunicação — e agora, dos algoritmos

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Nosso mundo acredita em Papai Noel, pensa que orçamento do Estado é igual a orçamento doméstico e imagina que referendo e plebiscito são provas de democracia. Se é verdade que nos condados suíços e em municípios mundo afora isso é verdade, é que nestes casos se trata de decisões concretas, a rua vai passar aqui ou ali, o parque vai ter o nome de Beltrano ou Sicrano.

Em escala nacional e decisões abstratas, os resultados dependem de propaganda e de uma luta de comunicação — e agora, no nosso tempo, de “algoritmos”, isto é, a opinião é dos musk, zuckerberg etc. É preciso coragem para tomar a posição de François Mitterrand, que já lembrei — contrariar o comum sentimento de vingança e ser contra a pena de morte, largamente majoritária entre os eleitores, e encarregar Badinter de acabar com a guilhotina.

Nós temos exemplos de desastres nos poucos que fizemos: preferimos duas vezes em plebiscito um regime presidencial fajuto ao parlamentarismo; e submetemos a boa lei do Estatuto do Desarmamento a um referendo que acabou com sua eficácia, permitindo a venda de armas. Logo se começou a espalhar armas e balas a torto e a direito. Com a fé escatológica do genocida, ela chegou ao delírio. Depois Lula tentou reagir, mas cedeu ante a pressão de possíveis votos de parlamentares, sabendo que esses votos sempre seriam contra ele.

O resultado, revelado em reportagem de Aline Ribeiro, em O Globo, com dados do Instituto Sou da Paz, é aterrador: nos seis primeiros meses deste ano foram vendidas 1,4 milhões de balas de fuzil, dois terços a CACs, um terço a “lojas de material bélico”, que não fornecem às forças armadas, mas a CACs e bandidos de diverso coturno. Essas são parte das 104 milhões de balas vendidas na mesma época, ou das centenas de milhões vendidas desde 2019. Umas e outras só servem para estropiar ou matar, ressalvadas as raras exceções que confirmam a regra.

Pausa estatística: embora com um quarto da média mundial — a ONU diz que se produz balas suficientes para matar cada pessoa duas vezes —, nossa competência no uso das balas é supersuper: temos 2,5% da população mundial e matamos cerca de 10% dos matados, pelas estatísticas oficiais, de fato talvez uns 20% (aqui, mas também no resto do mundo, muita morte não é contada).

Quem são os compradores das balas de fuzil? Os operadores das organizações criminosas, do tráfego ou milicianas, são caçadores num país em que é proibido caçar — e, aliás, não se caça de fuzil; atiradores esportivos com armas que não são esportivas — e, aliás, tiro esportivo de fuzil não é muito esportivo; e colecionadores, que em toda parte, não aqui ou nos EUA, têm armas neutralizadas, alteradas para não disparar — e, aliás, não têm por que usar bala de fuzil.

Esses “CAC” são uma excrescência, um deboche que serve para facilitar a morte. Você conhece alguém que use fuzil e gaste bala de fuzil? — se afaste, que não há nada decente que ele possa fazer com um e outra. Mesmo que seja um policial: que suas organizações tenham caveiras e ossos cruzados (a totenkopf, usada pelos nazistas, especialmente pela SS, e pelos neonazistas) para lembrar a morte diz tudo. Bandidos civis e bandidos policiais ou matam diretamente ou instrumentalizam o assassino, o que vem a dar na mesma.

Mas há outras formas de matar, além da bala. Facilitar o crime com leis que, sob o pretexto de salvar, protegem o criminoso, é um deles. Huguinho, vigarista de carteirinha, chamou um assassino profissional para avacalhar com o projeto de lei elaborado pelos juristas do Ministério da Justiça. Na mesma esteira, segue os conselhos de outro velho bandido, Arthurzinho, o vigarista que o antecedeu. A presidência da Câmara vai se tornando competição de má escolha capaz de ameaçar os executivos/executores de Rio e São Paulo; e o Senado corre atrás do prejuízo, com o Davizão.

É claro que, em termos de vigarice, estão longe de rivalizar com os donos de partido, que têm em seu rol profissionais de falcatrua como o ex da Micheque, como o sócio do Vorcaro e do PCC — opa, são muitos, quando prenderem todos precisarão de um presídio especial, dentro da PF, pois esses tipos têm saúde muito frágil.

Enquanto isso, 300 mil pessoas estão em presídio sem condenação e mais 600 mil condenadas, às vezes por — valha-me Deus — ter roubado um pão como Jean Valjean ou por ter roubado comida na lata de lixo de um supermercado.

Assassinos são muitos, pois, como já calculei nessa coluna, são 40 mil matados por ano, mais uma parte maior dos 80 mil desaparecidos, mais os muitos inclassificados: uns cem mil. Excluamos os assassinos policiais, que matam um em cada sete, pois sempre agem em legítima defesa da honra, mesmo quando metem bala na nuca ou gastam 90 tiros para um músico. Dos outros, dois terços não são processados, por culpa dos caveiras, e ainda tem quem queira complicar as coisas com preservar a cena do crime — afinal as câmeras que esquecem de desligar têm suas imagens editadas. Eles já ouviram falar em DNA e impressão digital, mas não sabem para que servem.

Tanta bala sobrando. Ainda puseram o exército, muito ocupado em se queixar e coçar, para tomar conta delas — agora a PF tem essa tarefa, mas teve que começar do zero, que os dados que lhes passaram são inconfiáveis. Imagine que, há tempos, houve mesmo a ideia de identificar as balas, felizmente, para os bangbang, resolvida com a marcação de séries ilimitadas.

Morte, morte — valorizam demais essa coisa. Muito melhor ser vivo, muito vivo, e contar o dinheiro ganho com cada entalhe no cabo (sargento, tenente, capitão, major, coronel, general) do fuzil.

 

Pedro Costa. Arquiteto e escritor. Publicado também em substack

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