A corrupção venceu (por Mary Zaidan) 

Decisão individual de Toffoli anima corruptos e promove a narrativa de perseguição a Lula

atualizado

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Yanka Romão/Metrópoles
Ilustração de uma pessoa com toga e terno e gravata apertando a mão de outra pessoa
1 de 1 Ilustração de uma pessoa com toga e terno e gravata apertando a mão de outra pessoa - Foto: Yanka Romão/Metrópoles

Reescrever a história é algo desejado por todos os que aparecem mal na fita. E não é invenção nacional o fato de instituições de estado reforçarem a guerra para emplacar qual versão vai prevalecer na memória da maioria, especialmente em um país desmiolado. Mas nestes tempos furiosos de redes sociais e de “verdade alternativa” – terminologia inventada na era Donald Trump -, as alterações das “narrativas” endossadas por políticos de todo porte e supremos ministros são tantas e tão rápidas que daqui a pouco vai se dizer que nunca existiu corrupção no Brasil, que o mensalão e o petrolão foram invencionices, que Jair Bolsonaro jamais mentiu ou foi negacionista e que Lula é santo.

Chacotas à parte, no que tange a Lula esse parece ser o intuito de ministros do STF, em especial de Dias Toffoli, ao suspender na semana passada o pagamento do acordo de leniência da Odebrecht (atual Novonor) e a delação de quase 80 ex-integrantes da empresa que conheciam ou trabalhavam no “departamento da propina”, anulada por ele em setembro. Antes, a empreiteira já tinha contado com a boa vontade de Ricardo Lewandowski, ex-STF e hoje ministro da Justiça de Lula, que abriu divergência na Primeira Turma da Corte para autorizar Emílio Odebrecht a não devolver R$ 71 milhões mantidos no exterior até o julgamento de todos os recursos impetrados pela construtora. Dinheiro esse que, agora, o país jamais verá.

A cabulosa história da empreiteira, descrita no livro A Organização – A Odebrecht e o esquema de corrupção que chocou o mundo, da jornalista Malu Gaspar, não está limitada aos achados da Lava Jato, colocada sob suspeição pelos arquivos da Operação Spoofing, mais conhecida como Vaza Jato. Além do Brasil, outros 11 países – Angola, Argentina, Colômbia, Equador, Guatemala, México, Moçambique, Panamá, Peru, República Dominicana e Venezuela – estão envolvidos com valores de propinas que superariam US$ 440 milhões.

Boa parte do que se sabe saiu da confissão de Marcelo Odebrecht, filho de Emílio, que detalhou as peripécias da empresa no Brasil e nas outras paragens. Especificou as obras, os montantes milionários, os governos e os operadores. Mas por aqui, Toffoli, monocraticamente, achou por bem anular essas provas, tendo como base o vazamento de mensagens do Telegram entre o ex-juiz Sérgio Moro e promotores, incluindo o deputado cassado Deltan Dallagnol.

O vazamento começou a ser investigado em 2019 pela Polícia Federal e corre no STF em sigilo. Ainda que apontem abusos da Lava Jato, os dados obtidos de forma ilegal têm sido utilizados para nulidades pelo Supremo, sem que a Corte tenha avançado na análise da matéria.

No ano passado, veio à tona que o mesmo Walter Delgatti, conhecido como o “hacker da Vaza Jato”, já condenado a 20 anos em primeira instância pela a invasão do celular de Moro, prestou serviços a Bolsonaro para tentar provar que as urnas eletrônicas são violáveis. Em seus depoimentos, complicou a vida da deputada Carla Zambelli, que o teria contratado, e do próprio ex, com quem teria se reunido no Alvorada para receber a missão. Tirando daqui, puxando dali, Delgatti, o homem do vazamento, não é nada confiável, para se dizer o mínimo.

A absolvição, ainda que parcial, da Odebrecht e de outras empreiteiras que ainda virão após a generosidade suprema, engrossa e dá ares de legalidade à narrativa de armação, de que Lula foi perseguido – que não houve corrupção etc. e tal.

Ainda candidato, Lula admitiu ao Jornal Nacional que tinha havido corrupção na Petrobras. Agora, animado pelo STF, inverteu o discurso. Na festa de retomada das obras da Abreu e Lima, refinaria mais cara do mundo segundo os economistas Adriano Pires, Luana Furtado e Samuel Pessoa, do Instituto Brasileiro de Economia da FGV, Lula acelerou na tese petista sem pé nem cabeça de que “tudo o que aconteceu nesse país (sic) foi uma mancomunação entre alguns juízes e alguns procuradores subordinados ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos que nunca aceitaram que o Brasil tivesse uma empresa como a Petrobras”.

A Abreu e Lima custou até aqui US$ 18,5 bilhões para processar 115 mil barris de petróleo ao dia, enquanto a Coreia do Sul construiu, na mesma época, uma refinaria para 800 mil barris diários por US$ 4,5 bilhões. Se não foi corrupção braba, onde foi parar essa dinheirama?

Perseguição política, conluios e até conspirações internacionais são recorrentes em versões de políticos que querem mudar a história a seu favor. Bolsonaro se diz perseguido. Não cansa de negar frases e atos que estão aí gravados para todo mundo ver e rever. Lula vai na mesma toada.

Enquanto isso, o país assiste à festa de aniversário do ex-governador Sérgio Cabral, condenado a 425 anos, liberado pelo ministro do STF Gilmar Mendes para voltar a viver em uma cobertura triplex, no Rio, onde apagou as velinhas. E, em breve, deve retirar a tornozeleira eletrônica, ficando livre, leve e solto como se nada tivesse acontecido.

Com 36 pontos em 100, o 104º lugar no ranking de 180 países na percepção de corrupção apurado pelo Transparência Internacional é quase um luxo para este Brasil.

Mary Zaidan é jornalista 

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