A Carangueja e o Útero do Mundo (por Mariana Caminha)
Lembrei-me do mangue ao saber da nova peça da atriz Tereza Seiblitz, Carangueja, em cartaz até o fim do mês no Rio de Janeiro
atualizado
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Passei parte da minha infância no Piauí, onde ainda tenho família. Entre as obrigações de estudante no Colégio das Irmãs, em Teresina, e as férias passadas em Buriti dos Lopes e em Parnaíba, vivi muitos encontros com a natureza: sol, praia, fazenda, mangue.
Lembrei-me do mangue ao saber da nova peça da atriz Tereza Seiblitz, Carangueja, em cartaz até o fim do mês no Teatro Poeirinha, no Rio de Janeiro.
A montagem fala sobre a relação entre o homem e a natureza, sobre a força viva do nosso planeta. Partindo do manguezal, revela como tudo está em permanente transformação.
Fiquei curiosa e resolvi pesquisar mais sobre essa formação tão singular. Fora o medo que eu tinha dos caranguejos, sabia pouco sobre o mangue. Descobri algo fascinante: essas florestas existem onde a terra encontra o mar. São compostas por plantas incrivelmente resistentes, capazes de sobreviver em ambiente salino – verdadeiros filtros naturais. Algumas árvores de mangue chegam a filtrar até 90% da água do mar por meio de suas raízes.
Com as mudanças climáticas, as cerca de 80 espécies de árvores de mangue estão sob grave ameaça. Assim como os recifes de corais, os mangues têm enorme importância para as comunidades vizinhas – seja para garantir alimento, seja para oferecer proteção contra tempestades e tsunamis.
Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP), os manguezais são fontes de bens e serviços ecossistêmicos para cerca de 2,4 bilhões de pessoas que vivem a menos de 100 km da costa. Quase 80% da pesca global depende, direta ou indiretamente, dessas florestas.
A ciência mostra que cerca de um terço dos manguezais do planeta desapareceu desde 1980 – uma tragédia ambiental. Hoje sabemos que eles são soluções baseadas na natureza fundamentais no combate às mudanças climáticas, capazes de armazenar até quatro vezes mais carbono do que outras florestas tropicais.
Li que a experiência de Tereza Seiblitz com o manguezal aconteceu em 1993, durante as gravações da novela Renascer, da TV Globo. Ela descreveu a floresta de mangue como “o útero do mundo”, um lugar onde “a vida está em vertiginoso movimento de criação”. É uma imagem poderosa.Cuidemos para que as próximas gerações também possam sentir a mesma vertigem diante dessa vida que pulsa.


