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Paul Setúbal já se desdobrava por Brasília e Goiânia. Agora ele se espicha mais um pouco, porque está morando na cidade de São Paulo. Um movimento estratégico diante do bom momento de sua carreira nas artes plásticas nacionais, que não por acaso rendeu a ele uma indicação ao Prêmio Pipa de 2017.

Enquanto vai e vem entre as três cidades, o artista goiano de nascimento e brasiliense por afinidades deixa aqui na capital um rastro, um rastilho de sua poética.

Paul se faz presente numa coletiva de viés político no Museu Nacional Honestino Guimarães (“Não Matarás”) ao mesmo tempo em que apresenta material inédito numa coletiva na Casa da Cultura da América Latina (“Quando as Formas se Tornam Relatos”).

Em conversa telefônica com a coluna Plástica, Paul Setúbal traça uma visita teleguiada às peças que estão montadas tanto na CAL quanto no Museu Nacional. Obras que, aliás, apresentam várias convergências de intenções e gestos.

Como é possível perceber seguindo o caminho particular que levou o artista a cada um destes trabalhos. Um longo caminho que começa com a própria construção de Brasília.

Pois o avô de Paul Setúbal veio de João Pinheiro, Minas Gerais, para participar da construção da capital federal. Trabalhou no serviço de topografia da Novacap. Como tantos e tantos outros, depois de prestada sua contribuição, descobriu que não havia espaço para ele em Brasília. Mudou-se para Goiás.

Paul Setúbal nasceu em Aparecida de Goiânia, em 1987, e nesta década se tornou artista frequente no cenário brasiliense. As obras que estão na mostra da CAL dialogam justamente com essa relação dele com Brasília, remontando à uma residência que o artista teve no Elefante Centro Cultural em meados de 2015.

 

Entender Brasília como parte de Goiás é uma preocupação permanente de Paul Setúbal. Essa questão ganhou especial relevo com as querelas entre índios e empresários da construção civil durante a recente criação do bairro do Noroeste.

A notar que Paul, ele próprio, naquele momento estava não muito distante daquela terra conflagrada. Afinal, o Elefante fica na W3 Norte. Ele se interessou pelo tema de tal forma que buscou contatos e conseguiu a oportunidade de visitar o santuário indígena para participar de uma cerimônia.

Durante dois anos, a memória do que se passou naquela noite ficou reverberando em Paul Setúbal até ser compartilhada. Sua ideia inicial era apresentar um testemunho por escrito. Mas, em conversas com a curadora Ana Avelar para a mostra na CAL, ficou claro que valia mais a forma oral. Assim, a aventura até o santuário, tal como aconteceu, é relatada por Paul em primeira pessoa e fica girando numa gravação em looping nas caixas de som.

“Quisemos resgatar a tradição oral”, explica Paul Setúbal, uma vez que a palavra falada é tão cara aos índios. “Nossa ideia é a pessoa se agachar ali para ouvir essa história, dedicar esse tempo ao trabalho. Funciona tanto como convite à capacidade de imaginação de cada um, para criar suas próprias imagens na cabeça, quanto como exercício de alteridade, para poder se colocar no lugar do outro.”

Assim, o ambiente do trabalho de Paul Setúbal é marcado tanto pelo som de sua fala, que funciona como trilha sonora permanente, quanto pela instalação ali erguida. Uma obra que busca conciliar a terra vermelha com seu oposto: o cimento. No centro dela, uma enxada, instrumento usado para cuidar da terra, mas também para fazer uma massa de concreto.

O cabo da enxada, na verdade um longo pedaço de madeira, se transforma na ponta oposta em porta-estandarte para uma bandeira que se revela um corte de algodão cru, sujo de terra vermelha. Uma bandeira pisada com os pés. Como numa dança de catira. Como num ritual indígena.

 

Perceba que essa mesma cor da terra vermelha tem o sangue vermelho. Terra e sangue, dois materiais orgânicos. Aquela bandeira de algodão pisoteado, erguida na CAL, de certa forma repete visual e poeticamente a pintura do mesmo artista ora em exibição no Museu Nacional.

“Synapsis”, pintura de 2015, surgiu durante a residência de Paul Setúbal no Elefante Centro Cultural. A peça faz parte de “Constelações”, e esse título já dá ideia do gesto de sua criação. Trata-se de, como diz Paul, “inverter a verticalidade”. Em vez de olhar para o alto para ver estrelas, aqui ele olhou para baixo – e deixou pingar um tanto de seu próprio sangue na tela.

“O sangue que pinga no chão traz uma potência simbólica forte, assim como o gesto de levantar os olhos e buscar no céu as estrelas”, compara Paul Setúbal. “Então quero apresentar neste trabalho uma outra possibilidade de constelação.”

Os respingos na tela – suas estrelas – foram então criados num gesto que emula a técnica chamada dripping, um gotejamento de tinta característico de certas pinturas abstratas do último século. Mas Paul Setúbal lembra que usar o sangue como pigmento é algo ainda mais emblemático e bem, bem mais antigo na história da arte. Remonta ao homem das cavernas.

E note que, entre os rústicos respingos de sangue, formam-se imagens mais ou menos nítidas. São figuras extraídas de um manual de instruções que nunca se completa. Percebe-se claramente a engrenagem de um revólver, o desenho do gatilho que maquinalmente movimenta uma roldana e dispara um projétil.

Vale contar que Paul Setúbal convive com desenhos feitos com sangue há um bom tempo. Seu primeiro trabalho artístico foi como tatuador profissional em Goiânia. Resquícios dessa atividade podem ser encontrados ainda hoje, ele acredita, formalmente em algumas de suas pinturas.

 

E também vale contar que Paul Setúbal participa do Grupo EmpreZa, coletivo de performances que se destaca no cenário das artes nacionais graças a seus trabalhos extremos – envolvendo justamente sangue ou até mesmo vísceras, e não raro trazendo também um bocado de autoflagelação.

São exercícios que exploram os limites do corpo como expressão artística e como território para a arte. Paul Setúbal roça essa fronteira com o sangue que pingou em “Synapsis”. Mas a outra de suas duas obras em cartaz no Museu Nacional é ainda mais significativa.

“Zeitgeist” (2014) talvez seja o trabalho mais conhecido do autor. E talvez seja seu momento mais eloquente de ordem política. Trata-se de uma performance registrada em vídeo. Paul está sozinho em cena. De peito nu, balança uma bandeira que arde em fogo. Enquanto o pano é consumido pelas chamas, ele não desvia o olhar, não muda o gestual, não se aflige.

“Depois de junho de 2013, com as passeatas pelo Passe Livre, o ambiente do país rapidamente mudou e as coisas começaram a dar indícios de que ficariam assim do jeito que estão hoje”, lembra Paul Setúbal, apontando aquele momento como a inspiração para seu trabalho. “Havia no ar uma premonição de colapso.”

A bandeira estava encharcada em querosene. A ação aconteceu em oito minutos, no quintal de sua casa, em Águas Claras. Não houve efeitos posteriores no vídeo, a não ser uma edição para que chegasse à sua duração definitiva, de pouco mais de um minuto. E para que tudo desse certo, Paul Setúbal teve que calcular direitinho o movimento do pôr do sol. Queria começar a cena com um restinho de luz e terminar já com o céu escuro. Acertou logo no primeiro take.

“Como todo goiano, eu sou meio roceiro, sabe? Gosto do pôr do sol. Gosto de olhar para o céu noturno. Gosto de ver estrelas.”

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