">
*
 
 

Há uma expressão popular que usamos para nos referirmos a algo que, depois de aprender, não esquecemos jamais: “é como andar de bicicleta”. O veículo é o objeto do desejo de várias crianças, mas, depois de adultos, não são muitos os que seguem pedalando, apesar de não se esquecerem jamais.

Alguns, entretanto, não apenas seguem pedalando, como se apaixonam pelas magrelas. O colunista aqui é um deles. Somos fascinados e um pouco loucos, a ponto de dar a volta ao mundo sobre duas rodas. Boa parte desses malucos são também escritores. A maior parte, estrangeiros, mas há os brasileiros.

Sorte nossa. Eles nos trazem os relatos em português e com o nosso olhar dessas peripécias mundo afora. Assim, nos permitem viver com eles histórias que dificilmente algum de nós irá repetir. Fui apresentado por meu irmão — também ciclista — a alguns relatos espetaculares.

Os números impressionam: são sempre projetos que duram pelo menos três anos, milhares de quilômetros e dezenas de países. A riqueza da experiência é tamanha, que o livro é quase uma consequência natural da façanha. A hospitalidade com o cicloturista pelo mundo aparece em todos os relatos, mas há também riscos e perigos.

Começo com “Homem Livre”, lançado em 2015, de Danilo Perrotti Machado, um administrador de empresas mineiro que largou tudo e visitou 59 países, durante 3 anos, 3 meses e 3 dias, em cima de uma bicicleta. Em sua jornada, iniciada em 2008, Machado pedalou 50 mil km, visitou os cinco continentes e dezenas de locais considerados turísticos.

A riqueza, entretanto, está nos relatos das pequenas regiões, das experiências cotidianas. Perrotti passou por desertos, florestas, gelo e aprendeu a se comunicar em diversas línguas. Exposto, o ciclista acaba se integrando à paisagem. O ex-nadador do Minas Tênis Clube agora era um homem do mundo. Livre.

Na mesma linha de “Homem Livre”, aparece “No Guidão da Liberdade”, de Antonio Olinto Ferreira, lançado em 1998. Ainda jovem, o advogado decidiu largar tudo em 1993 para passar três anos e meio pedalando. Não é à toa que liberdade aparece no título de ambas as obras. Significam, cada uma a seu modo, a troca de um cotidiano burocrático por uma experiência profunda de autoconhecimento e, por isso, libertação.

Na apresentação do livro, ficamos sabendo que Ferreira nunca havia viajado de avião antes de iniciar a empreitada. O plano inicial era apenas visitar a Europa, mas acabou pedalando 40 mil quilômetros, passando por 33 países em três continentes. Atualmente, Ferreira produz guias de cicloturismo no Brasil, com vários trechos mapeados e explicados para os viajantes.

Outro projeto de mais três anos é “O Mundo ao Lado”, de Arthur Simões, lançado em 2011, com o relato da viagem a 37 países, totalizando 46 mil km pedalados. Tomei conhecimento desse livro na Etiópia, local em que trabalhei por dois anos e meio, e por onde Simões passou alguns anos antes. Pude presenciar, naquele país, uma triste experiência relatada na obra: o das pedras voadoras enquanto pedalamos. Um risco.

Para quem se interessa por fotografia, há o excelente “Caminhos — Volta ao Mundo de Bicicleta”, lançado em 2015, pelo mineiro Argus Saturnino. A obra narra sua viagem entre 2001 e 2005, por 28 países, nos cinco continentes, ao longo de 35 mil km. Diferentemente dos anteriores, apresenta uma coleção extensa de fotos da viagem e uma seção em que trata dos projetos e aprendizados no período de dez anos após sua realização.

Também temos dois representantes de Brasília entre os aventureiros. Há um ano, falamos de “O Mundo sem Anéis – 100 dias em bicicleta”, em que Mariana Carpanezzi narra sua aventura por três países e 5 mil kms, durante três meses, em 2013. Já Cristóvão Naud lançou, em 2016, na Bienal do Livro de Brasília, seu “Um Balão na Europa”, no qual narra viagem por sete países, ao longo de 2,5 mil kms e seis semanas.

Como estamos falando de liberdade, fecho com o trecho final de “Armário”, um belo poema do livro “Cantiga de Ninar Dragões”, de Rogério Bernardes.

“Aquele armário
a cada ano mais apertado
já não continha o rapaz crescido
ainda sozinho, mas fortalecido
em um golpe de machado e coragem
foi esfacelado até vir ao chão
não será mais eclipse de uma vida
que só o pobre pai não viu.

Aquele armário
nunca mais guardará na escuridão
os medos do assustado menino
sua madeira agora servirá
para alimentar em noites frias
a fogueira das alegrias
que só a liberdade acende.

Aquele armário
mentiu ao pai quem era o filho
um dia lhe apagou o brilho
agora não mais o prende.”

trecho de Armário (Cantigas de Ninar Dragões)

BicicletaO Mundo ao LadoNo Guidão da LiberdadeCantiga de ninar dragões
 


COMENTE

Ler mais do blog