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Escrever sobre Brasília, em Brasília, é quase uma obrigação para o autor que vive no quadradinho. Mas, como diz o poeta Nicolas Behr, também é o mais fácil, porque a cidade oferece, constantemente, maneiras de dar novos significados às experiências e às narrativas a partir do material bruto dos eixos e superquadras.

Por isso, talvez seja tão difícil escapar desses convites e escrever histórias que não tenham a capital como protagonista. É essa, porém, a proposta de uma nova safra de livros de escritores de Brasília, com temáticas variadas, fora dos temas clássicos brasilienses. Dentre os que mais estão se destacando no mercado editorial nacional, começo com Maurício Gomyde (foto no alto).

Gomyde lançou, em 2015, pela Editora Intrínseca, o surpreendente “Surpreendente!”, e está entre os novos autores mais exitosos do mercado editorial de ficção. Mas Gomyde, um paulista que vive em Brasília, roqueiro-funcionário público como um bom candango, nem é tão novo assim. Esse já é o seu sexto livro e, desde 2011, tem a notável marca de um livro lançado por ano.

O livro anterior, “A máquina de contar histórias”, já tinha chamado a atenção da crítica, o que lhe abriu a possibilidade de, na Intrínseca, participar de um projeto grandioso com o novo livro, que conta com um eficiente aparato de publicidade e distribuição e deve ser lançado em breve em espanhol e italiano.

FOTO: Divulgação / Editora Intrínseca

Mauricio Gomyde, autor de Surpreendente!

Não é apenas a publicidade que está alavancando as vendas, mas também a narrativa, bem construída e segura. Trata-se de uma retomada tupiniquim beatnik, não no formato, mas na temática. Um grupo de amigos se aventura na estrada em busca do filme perfeito para ganhar um festival de cinema.

A redenção utópica assemelha-se muito à escrita da turma de Jack Kerouak, o pai dos beats. Destaque para a primeira vez que vejo alusão ao WhatsApp em um livro – deve haver mais – e a constante alusão a filmes e músicas durante a narrativa, que estabelecem uma conexão imediata com o repertório do leitor contemporâneo – recurso já utilizado por Gomyde no livro anterior. Tudo isso num “Opalão Diplomata Seis Canecos”, ano 1992… aro dezoito, pneu 235″. Embarque nessa.

Já que falamos de carro, vale a pena dar uma olhada no “A Liberdade é Amarela e Conversível”, do carioca-candango André Giusti. Lançado em 2009, pela Editora 7 Letras, trata-se do quarto livro dos sete já lançados pelo autor – há mais dois no prelo, sendo um de poesia. O título faz referência ao conto sobre o Puma GTS amarelo, 1978, objeto de desejo – porque objeto de memória platônica afetiva – de um carioca de meia idade tentando recriar a célebre experiência de Marty Mcfly no filme “De volta para o futuro”. São 12 contos, divididos em 106 páginas de esmerado tratamento literário de temáticas aparentemente prosaicas, mas que guardam muitos significados latentes.

Voltando à literatura de estrada, mas desta vez de bicicleta, o selo Longe lançou, em 2015, o livro “O mundo sem anéis – 100 dias em bicicleta“, da estreante Mariana Carpanezzi. Uma viagem pelo interior da França e da Espanha, sem destino certo. Aliás, trata-se de uma viagem para dentro de si, a fim de visitar seus pequenos demônios e os anjos que aparecem de vez em quando. O livro ainda traz ilustrações da própria autora. Se for voar pela Avianca ainda neste mês, poderá conferir algumas ilustrações e trechos do livro na revista de bordo.

O selo Longe é especializado em livros sobre viagens e descobertas de brasilienses pelo mundo. Além do livro de Mariana, há, por exemplo, um sobre Paris, “Chéri à Paris”, de Daniel Cariello – que teve a edição impressa esgotada e agora só está disponível em formato digital; um sobre a temporada na Índia, “Depois das Monções”, de Gabriela Goulart Moura, e outro sobre viagens e fugas, chamado, naturalmente “Sobre viagens e fugas”, de Yuri Hermuche, autor brasiliense que hoje vive em São Paulo.

Temos ainda duas obras brasilienses que têm muito em comum: “Porque até a morte terei fome”, de Patrícia Colmenero, lançado de forma independente, em 2012, e “Veracidade”, lançado pela Patuá, de Isabella de Andrade, em 2015. Narrativas em prosa com linguagem poética, ambas são exemplos de escrita reflexiva, em busca de significados e respostas internas para questões como a solidão, a ausência, as despedidas. Cada capítulo guarda uma angústia ou uma descoberta numa narrativa que se insere no fluxo de consciência, ao estilo de Virginia Woolf.

Vale a pena, ainda, dar uma olhada no livro “Na escuridão não existe cor-de- rosa”, da carioca-candanga Cinthia Kriemler, lançado em 2015, também pela Patuá. São 32 contos curtos ou curtíssimos, sobre temas variados, com a profundidade que se ajusta à lente do leitor. A cada nova leitura, um novo detalhe, um novo ângulo. Com frases curtas e cortantes, os olhos às vezes pulam uma frase e, na volta, o significado já é outro. O efeito é interessantíssimo. Trata-se do quarto livro da autora, que também é poeta e cronista.

Ainda dá tempo de ir à Feira do Livro de Brasília, no Centro de Convenções, que começou no sábado e vai até domingo (24/7). Há muitos lançamentos, alguns que serão objeto de colunas nas próximas semanas. Não tivemos espaço para tratar da poesia brasiliense aqui. Fica para a outra semana, sem falta. Por isso, fecho com Noélia Ribeiro, a eterna namorada do outro lado do eixão.

Não dá

Rimar paixão e razão

é meu ofício,

minha inclinação

singular

Tornar-se- ia, porém,

sacrifício

tal proeza

ao te abraçar

Escalafobética, 2015

literaturadedo de prosa
 


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