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Você conseguiria se imaginar tendo ligação com uma pessoa que matou um de seus familiares? Pois a canadense Margot von Sluytman não só perdoou o assassino de seu pai como se tornou amiga dele.

O crime aconteceu em 1978, quando ela ainda era apenas uma adolescente. Glen Flett, que naquela época já tinha antecedentes criminais, planejou um assalto com um comparsa que ele conheceu na prisão. A ideia inicial era roubar um entregador, pegar o dinheiro e fugir, mas as coisas não saíram como a dupla esperava, e os bandidos mataram Theodore Sluytman.

“Chegamos ao piso principal, corremos pelos corredores e uma pessoa vinha correndo atrás de nós, gritando: ‘Parem esses caras’. Entramos em uma loja cheia de araras com roupas. Naquele primeiro momento, não vi Sluytman. Meu parceiro e eu… Acho que nós dois, espontaneamente, atiramos nele”, recordou Glen em um depoimento emocionante para o programa Outlook, do Serviço Mundial da BBC.

Apesar de ter atirado, Glen afirma que só teve consciência de que havia matado o pai de Margot quando viu os noticiários no apartamento onde ele e o amigo moravam.

No mesmo programa, a filha da vítima deu um relato comovente. “Sinto a dor. E também sinto uma dor intensa por Glen. Porque acho que deve ser muito difícil viver com essa dor”, disse Margot enquanto começava a chorar ao lado de Glen.

Arquivo Pessoal

Margot e o pai, Theodore

Ela conta que recebeu a notícia enquanto estava em casa brincando de professora com outras crianças. Dois policiais relataram o ocorrido para a mãe de Margot, que chorou compulsivamente enquanto tentava explicar para a filha que o pai havia sido assassinado.

“Metade de mim morreu quando meu pai perdeu a vida. Éramos muito próximos em nossa família. Duas semanas antes de ele morrer, tivemos uma grande discussão. Nós nunca brigávamos. E tínhamos acabado de fazer as pazes. Eu tinha 16 anos”, relembrou Margot.

Enquanto Margot vivia o luto pela morte do pai, Glen foi preso e condenado por assassinato. Na prisão, ele aprendeu mais sobre as palavras de Cristo e entrou em um processo de autorreflexão. Quando saiu da cadeia, tentou encontrar a família de Sluytman para pedir perdão, mas um dos policiais o aconselhou a não fazer isso.

Arquivo Pessoal

Anos se passaram e Glen leu um artigo sobre Margot. Descobriu que ela era poeta, tinha acabado de ganhar um prêmio e, junto com sua esposa, decidiu fazer uma doação pela internet em apoio a seu trabalho.

“Três horas mais tarde, recebemos um e-mail que dizia: ‘Você é casada com Glen Flett, o homem que matou meu pai na segunda-feira de Páscoa, dia 27 de março de 1978?’, Fiquei apavorado. Não sabia o que pensar”, contou Glen (foto).

“Na manhã seguinte, encontrei uma carta curta, respeitosa e simples me pedindo desculpas. A partir daí, começamos a conversar. O que eu queria saber era: por quê? E também quais tinham sido as últimas palavras do meu pai”, comentou Margot, que não pensou duas vezes e viajou para British Columbia, onde Glen vive, para conhecê-lo.

“Ela saiu do carro e perguntou ‘Glen Flett?’ Nos abraçamos e começamos a chorar. Conversamos e caminhamos durante uma hora e depois fomos para a minha casa, onde ele conheceu minha filha, Victoria, que tem 9 anos. Ela disse: ‘Pai, é tão estranho, ela tem um jeito tão parecido com o seu…”.

Arquivo Pessoal

 

A reconciliação se transformou em uma forte amizade, e hoje os dois chegam a dizer “eu te amo” um para o outro. “Sei que para algumas pessoas é muito complicado ouvir isso, mas é muito bonito porque é um paradoxo. É a coisa certa para mim. É a coisa certa para Glen. Sinto que meu pai está sendo celebrado. Minha mãe está sendo celebrada, os pais de Glen estão sendo celebrados. Toda a dor deles não é em vão. Sinto gratidão”, comentou Margot (foto acima).