Por negligência, jovens são as principais vítimas de sífilis no Brasil

Relações sexuais desprotegidas e falta de tratamento contribuem para a infecção crescer

Stella Woo/MetrópolesStella Woo/Metrópoles

atualizado 15/01/2019 9:55

Muitos jovens dos anos 1980 e 1990 cresceram assustados com a Aids e outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Ídolos como Cazuza e Freddie Mercury ficaram drasticamente mais magros, pálidos e cansados na frente dos fãs e as campanhas de conscientização ganharam robustez. Os dados relativos ao uso de camisinha apresentavam uma linha crescente, mas essa taxa caiu bruscamente.

Isso tem consequências gravíssimas. O número atual de jovens infectados com a sífilis, por exemplo, chocam. Segundo dados do Boletim Epidemiológico de 2016, pessoas entre 20 e 29 anos foram as que mais adquiriram sífilis, compondo 34% dos casos no país. A faixa etária em segundo lugar é a de 30 a 39 anos, representando 22%.

Para o Ministério da Saúde, não se trata de uma epidemia, mas de mais registros. “Em 2014, a sífilis adquirida em adultos passou a ser de notificação compulsória para fins de vigilância na rede de saúde. Portanto, a melhoria da vigilância resultou em um maior número de casos notificados”, declara o órgão. O crescimento de 2014 para 2015 foi de 32,7%.

A sífilis é uma condição causada pela bactéria Treponema pallidum. A contaminação pode ocorrer de três formas: através de relações sexuais desprotegidas; congênita ou vertical (passada de mãe para filho); e por transfusão de sangue, a última sendo a menos frequente. O tratamento indicado pelo Ministério da Saúde é a administração de penicilina benzatina tanto para quem está infectado quanto para os parceiros sexuais.

A doença se manifesta nas fases recente, secundária, latente, tardia ou terciária. “Na primeira, pode aparecer uma ferida indolor em qualquer região do corpo, frequentemente na área genital. Ela pode durar de uma a seis semanas, geralmente desaparece sozinha e a pessoa acha que está curada”, informa a infectologista Joana Gonçalves.

Durante a secundária, o paciente talvez tenha manchas vermelhas nas mãos e nos pés. Na latente, nenhum sintoma é sentido. “Alterações neurológicas e cardiovasculares podem ocorrer na tardia. É uma doença de relevância”, ressalta.

“A forma de prevenção mais básica é usar camisinha, seja ela masculina ou feminina. No caso da transmissão congênita, a mãe previne ao fazer o tratamento com penicilina”, fala a ginecologista da Aliança Instituto de Oncologia Juliana Dytz. “Entre os jovens, o maior medo é a gravidez e quem toma pílula anticoncepcional se sente protegida, mas o remédio não impede o contato com doenças”.

Epidemia ou não, a realidade é que essa IST está em alta entre os jovens e não só no país. Nos Estados Unidos, quem mais contrai a infecção são as mulheres mais novas, geralmente universitárias. No Brasil, os homens são maioria e representam 60% dos contaminados com sífilis. O Ministério da Saúde aponta, desde 2010, tendência no crescimento da notificação de doença em pessoas de 13 a 29 anos.

O motivo, em ambos os países, parece ter a ver com negligência. “Por ser uma doença muitas vezes sem sintomas, ela aparentemente some sozinha e volta anos depois. Às vezes, a pessoa nem sabe que tem e não procura diagnóstico. Faltam informações nos postos de saúde e o uso da camisinha”, comenta a ginecologista Karen Claussen.

A observação das especialistas é comprovada. De acordo com a Pesquisa de Conhecimentos, Atitudes e Práticas na População Brasileira, 45% da população sexualmente ativa não utilizou preservativo nas relações sexuais casuais que tiveram no último ano.

“Os adolescentes acabam se expondo mais. Tem também a questão do acesso ao sistema de saúde, que pode ser uma dificuldade para os jovens pela vergonha de falar de sexo”, fala a infectologista. Devido ao tabu em torno da sexualidade, Joana vê os funcionários e os serviços despreparados para atender essa faixa etária.

A sífilis tem cura, mas você não fica imune a ela. Se o paciente se expor de novo, a infecção vem pior e esse é um dos grandes problemas associados à doença”, afirma a infectologista.

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