Ceratocone: saiba mais sobre doença ocular que deforma a córnea

O problema tem causas genéticas e pode provocar perdas significativas da visão. Diagnóstico precoce consegue conter avanço da doença

atualizado 23/06/2021 17:06

olhosv2osk/Unsplash

Uma das maiores causas de transplante de córnea no mundo é o ceratocone, um problema que pode ter seu agravamento evitado por meio de tratamento adequado, que se inicia a partir do entendimento sobre o que é a doença.

De acordo com o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), a cada 100 mil pessoas no mundo, de 4 a 600 desenvolvem o ceratocone. E, embora a doença tenha componente genético, na maioria dos casos, a alergia ocular é um importante fator de risco, pois faz com que a pessoa coce o olho com frequência, o que leva ao agravamento do ceratocone, ou mesmo ao desenvolvimento da ectasia (alteração na curvatura) da córnea.

O médico Renato Ambrósio, professor adjunto da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UFRJ) e consultor da fabricante de lentes Zeiss, explica o que é a doença e o que é possível fazer para evitar seu agravamento.

O que é o ceratocone?
É uma doença que ocorre na córnea, que funciona como a primeira e mais importante lente do olho humano. A córnea cobre a parte da frente do globo ocular. O ceratocone é a doença ectásica (relativa à dilatação do órgão) mais comum e ocorre por uma falência biomecânica na córnea, que afina e aumenta de curvatura.

Trata-se de uma doença progressiva, de modo que a irregularidade vai se acentuando até que, em fases avançadas, a córnea pode assumir o formato de cone. Esta alteração causa astigmatismo com irregularidade, o que leva à distorção da visão, pois limita a eficiência das lentes tradicionais esfero-cilíndricas de óculos.

A ceratocone tem início, geralmente, na adolescência e evolui até cerca de 40 anos, quando, em geral, ocorre uma estabilização natural. Entretanto, jovens podem ter a doença estabilizada e pacientes com mais de 40 anos podem ter progressão da doença.

Quais os sintomas da doença?
O principal sintoma é o embaçamento e distorção da visão, com mudanças frequentes do grau. Em geral, ocorre miopia e astigmatismo, que aumentam levando a uma necessidade de troca frequente de óculos, que, com a evolução da doença, deixam de fornecer uma visão adequada devido à irregularidade.

O ceratocone é tipicamente indolor e sem inflamação aguda (não deixa o olho vermelho). Coceira nos olhos é frequente, pois há grande associação com alergia ocular. O ato de coçar ou dormir fazendo pressão contra os olhos é o fator mais relevante no agravamento do grau do ceratocone. Por isso, a educação sobre o tema deve alcançar todas as pessoas.

Como o ceratocone age?
A doença é bilateral, mas geralmente atinge os dois olhos de maneira assimétrica – afetando mais um olho do que o outro. Pode levar à baixa de visão acentuada (cegueira), mas é geralmente reversível com o tratamento.

Se diagnosticada e tratada corretamente em fases iniciais, o impacto na visão e consequentemente na qualidade de vida das pessoas é minimizado. Por isso, identificar corretamente o ceratocone em sua fase inicial, bem como avaliar a sua progressão são aspectos fundamentais do nosso trabalho como médicos oftalmologistas.

Como é o tratamento?
Observam-se grandes avanços tanto no diagnóstico quanto no tratamento do ceratocone. O tratamento clínico se inicia pela orientação do paciente e inclui orientar para não coçar os olhos e o controle da alergia. Os óculos são a primeira forma de tratamento.

Exames específicos permitem fazer uma prescrição de óculos mais eficientes. O exame possibilita realizar medições de forma automatizada dos dois olhos em aproximadamente 60 segundos, de forma muito precisa para avaliar o grau refracional. Estes dados servem de base para a confecção de lentes que podem melhorar a visão de cores e o contraste visual, além de proporcionar melhor visão noturna.

As lentes de contato especiais são indicadas para a reabilitação visual quando os óculos não são mais eficazes. Entretanto, as lentes de contato precisam ser bem adaptadas por oftalmologista especializado. Se não forem corretamente adaptadas, podem ser fator de irritação ocular que aumenta o risco de progressão da doença. Além disso, infelizmente não existe comprovação científica que as lentes ajudem a prevenir a progressão do ceratocone.

As cirurgias são indicadas em duas situações clínicas: para estabilizar a progressão da doença ou para reabilitação visual, quando os óculos ou as lentes de contato não têm resultado satisfatório.

É possível prevenir o ceratocone?
Acredito que uma campanha eficaz para educar as pessoas para não coçarem os olhos pode reduzir o impacto e severidade desta doença na população. Mas, infelizmente, não há maneiras de prevenir o surgimento do ceratocone.

Existe associação com fatores hereditários e genéticos, alguns testes genéticos surgem de forma promissora, como o AvaGen, o que requer mais estudos clínicos para entendermos como utilizar na prática clínica para o diagnóstico da doença.

Entretanto, sabemos que a progressão da doença está relacionada ao trauma contínuo e com a inflamação crônica. Com isso, o controle da alergia e evitar o hábito de coçar os olhos ganha protagonismo para evitar o aparecimento bem como o agravamento da doença.

Para um diagnóstico precoce, é fundamental realizar consulta periódica com o oftalmologista, com exames complementares de acordo com a disponibilidade. Consultas periódicas são importantes para a avaliação completa da saúde ocular, indicando os tratamentos adequados eventualmente necessários.

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