Projeto que separa turmas por nível de aprendizagem divide educadores

Especialistas ouvidos pelo Metrópoles têm opiniões diferentes sobre ideia que separar estudantes em turmas de acordo com defasagem

atualizado

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Imagem colorida mostra estudantes com computadores em sala de aula de escola estadual em São Paulo - Metrópoles
1 de 1 Imagem colorida mostra estudantes com computadores em sala de aula de escola estadual em São Paulo - Metrópoles - Foto: Jessica Bernardo / Metrópoles

O projeto da Secretaria Estadual da Educação que vai separar alunos em turmas diferentes de acordo com o nível de aprendizagem de cada estudante divide opiniões entre especialistas em educação.

A ideia, que ganhou o nome de Projeto Voar, já está sendo colocada em prática em 147 escolas estaduais da região metropolitana, litoral e interior paulista.

O Metrópoles conversou com os educadores Cláudia Costin, ex-diretora global de Educação do Banco Mundial, e Daniel Cara, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), sobre o assunto.

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Estudantes da rede estadual de São Paulo
Alunos do 2° ano do ensino fundamental são destaque na avaliação
Alunos usam computador em escola estadual de São Paulo
Crianças acompanham aula em escola na periferia da zona leste de São Paulo
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Crianças acompanham aula em escola na periferia da zona leste de São Paulo

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Alunos do 2° ano do ensino fundamental são destaque na avaliação

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Alunos usam computador em escola estadual de São Paulo

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Para Costin, o projeto pode ajudar a dar mais atenção aos alunos que tiveram forte prejuízo no desempenho escolar por causa da pandemia.

“No pós-pandemia, nós observamos muitos alunos, inclusive de 6º ano, que não estavam alfabetizados. Não adianta botar esse aluno numa turma comum e achar que ele magicamente vai se realfabetizar”, afirma.

Ex-secretária municipal de educação no Rio de Janeiro, entre os anos de 2009 e 2014, Costin implementou um projeto na capital fluminense em que alunos ainda analfabetos do 3º ao 5º ano foram separados em turmas menores para serem “realfabetidos” e, depois, voltarem às suas turmas originais. Ela diz que a ideia deu certo à época.

Daniel, por outro lado, discorda do modelo proposto pela gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos).

“Os alunos não aprendem só com o professor, eles aprendem também entre si. Então, o que é ideal nesse sentido? É você ter uma turma heterogênea e investir mais para fazer reforço no contraturno. Esse reforço é decisivo para a melhoria do aprendizado”, afirma o especialista.

O educador diz que projetos como o de tutoria, em que um professor auxilia esse aluno com dificuldades, funcionam melhor para combater gargalos de aprendizagem. “O melhor seria fazer a tutoria, investir em outras tecnologias e técnicas de aprendizagem, e, ao mesmo tempo, manter as salas de aulas heterogêneas”.

Segregação

Ambos os especialistas concordam que a maior preocupação com o modelo é a estigmatização que os alunos da chamada “turma adaptada”, onde ficarão os estudantes com maior defasagem, podem sofrer.

“As turmas dos melhores continuam operando, mas aqueles que têm mais dificuldade, eles vão ter um desempenho mais baixo porque eles vão começar a ser segregados”, afirma Daniel, que diz que isso pode provocar desinteresse nos estudantes.

Ele afirma que nem mesmo o projeto indiano que inspirou a iniciativa paulista é um consenso entre especialistas.

Cláudia lembra também que há riscos de que o próprio professor não queria se aprofundar nos conteúdos por estar com uma turma considerada “mais fraca”. Apesar disso, ela afirma que pesquisas recentes mostram que alunos com defasagem já são vítimas de preconceito dentro da sala de aula convencional.

“As pesquisas internacionais mostram que o aluno que não acompanha, ele já é estigmatizado dentro da turma normal. […] E ele entra dentro desse papel de que não quer nada com nada, porque ele não está entendendo o que está lá [na lousa]”, diz a professora.

Para ela, se a secretaria apostar em medidas complementares para evitar a estigmatização do aluno, “vale a pena separar por nível de aprendizagem”.

A gestão Tarcísio diz que as escolas estarão focadas em combater o estigma durante o projeto piloto e vê a iniciativa como forma de acelerar a aprendizagem dos estudantes.

“Existe um risco de estigma? Existe. Não vou te dizer que não existe nenhum risco. A gente visitou escolas que tinham estratificação, e a gente percebe que, às vezes, os estudantes falam que essa ‘é a classe dos bagunceiros’. Mas eles [os outros alunos] também dizem que, naquela classe, conseguem aprender mais do que antes porque, antes, o ritmo estava muito rápido e eles não conseguiam acompanhar”, diz Daniel Barros, subsecretário pedagógico da pasta.


Como funciona projeto na prática?

  • Projeto terá como alvo estudantes do 6º ao 9º ano.
  • Para separar as turmas no início deste ano, cada escola se baseou no desempenho dos estudantes em Língua Portuguesa e Matemática na edição do Saresp de 2025.
  • Os alunos foram divididos entre aqueles que pontuaram de acordo com o esperado, a “turma nível padrão”, e aqueles que apresentaram defasagens consideradas altas ou médias, a “turma nível adaptado”.
  • A secretaria afirma que a evolução dos alunos será monitorada ao longo do ano, e eles poderão mudar de sala ao atingirem o nível esperado.
  • Subsecretário pedagógico da Educação, Daniel Barros diz que o conteúdo dado para as diferentes turmas será o mesmo, mas em “ritmos diferentes”.
  • “É o mesmo currículo, só que ele é mais devagar [para uma turma]. Então, vai demorar mais tempo para cobrir o mesmo conteúdo. E, em alguns casos, vai se aprofundar menos em determinadas áreas, porque não dá tempo de cobrir tudo. Os alunos não vão aprender coisas diferentes. Vão aprender o mesmo conteúdo, só que em um outro ritmo.”

 

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