Câmeras corporais mostram relato de coronel logo após tiro na esposa.
O tenente-coronel foi preso um mês depois, acusado de matar a esposa PM com um tiro na cabeça. Ele alega que a mulher cometeu suicídio

A câmera corporal de um dos policiais militares envolvidos no atendimento à ocorrência em que a soldado Gisele Santana foi baleada na cabeça mostra o relato do tenente-coronel Geraldo Neto, logo após o episódio, no dia 18 de fevereiro, em um apartamento no Brás, centro de São Paulo. Gisele morreu no Hospital das Clínicas.
Nas imagens, o coronel aparece sem camisa, sentado no chão e começa a narrar o que aconteceu seis meses antes — quando, segundo ele, os dois começaram a ter brigas e dormir em quartos separados.
No relato, Geraldo Neto contou que gastava R$ 7 mil por mês “para viver com dois estranhos”, se referindo a Gisele Santana e a filha de 7 anos dela.
O coronel narrou que, no dia anterior ao crime, os dois tiveram uma longa conversa sobre uma possível separação. Na manhã do ocorrido, Neto contou que tinha decidido se separar — a notícia, segundo Geraldo Neto, não foi bem recebida pela companheira. No relato, o homem contou que a esposa o empurrou para fora do quarto, momento em que ele foi tomar banho e ouviu o barulho do disparo.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles SP“Fazia um minuto que eu estava embaixo do chuveiro e escutei o barulho. Eu pensei até que fosse ela batendo a porta com uma batida forte. Achei estranho aquela batida, abri o box e olhei na sala. Ela estava caída no chão, com sangue. Ela deu um tiro na cabeça”, contou o coronel.
De acordo com o inquérito policial, as câmeras corporais dos agentes também teriam mostrado os policiais presentes no local do crime recomendando que Geraldo Neto não tomasse banho durante a ocorrência para preservar a integridade dos procedimentos investigativos. A orientação, contudo, foi ignorada pelo coronel.
Polícia aponta outra conclusão
Segundo o inquérito policial obtido pelo Metrópoles, embora tenha alegado isso em sua versão, o coronel não teria como ver o corpo da esposa caído no chão ao sair do banho — isso porque havia uma árvore de Natal na frente do corpo.
O tenente-coronel afirmou que o objeto teria sido removido do local onde estava antes de ele entrar no banheiro, chegando a sugerir que Gisele o teria deslocado.
No entanto, fotos feitas pelos primeiros socorristas mostram a árvore exatamente no mesmo lugar descrito inicialmente, ao lado do sofá. O laudo pericial conclui que o objeto só foi retirado depois, durante o atendimento, para abrir espaço.
Para os peritos, essa divergência não é apenas um detalhe. O tenente-coronel Geraldo afirmou que estava tomando banho no momento do disparo e que teria aberto a porta para ver o que havia acontecido. No entanto, a posição da árvore dificultaria a visão da cena a partir do banheiro, o que coloca em dúvida a versão apresentada por ele.
Moradores do prédio também relataram à polícia que ouviram o barulho de disparo cerca de 30 minutos antes do acionamento do socorro por parte do tenente-coronel.
Geraldo Leite Rosa Neto foi preso no dia 18 de março, acusado de matar a esposa com um tiro na cabeça.
Morte de PM levou à prisão de tenente-coronel
- A policial militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, foi encontrada gravemente ferida na manhã de 18 de fevereiro, dentro do apartamento onde vivia com o marido no Brás, região central de São Paulo.
- Ela foi socorrida por equipes do Corpo de Bombeiros e levada pelo helicóptero Águia da PM ao Hospital das Clínicas, onde morreu horas depois, em decorrência de traumatismo cranioencefálico provocado por disparo de arma de fogo, conforme o atestado de óbito.
- Inicialmente, o caso foi tratado como suicídio consumado, mas depois foi alterado para morte suspeita, com “dúvida razoável” de tratar-se de suicídio.
- Com o avanço das análises periciais e a reconstituição da sequência de acontecimentos dentro do imóvel, a Polícia Civil concluiu que a dinâmica do disparo não corresponde à hipótese de suicídio inicialmente apresentada.
- Com base nesse conjunto de elementos, a Justiça autorizou a prisão do tenente-coronel, que passou a responder pela morte da policial militar.
- A Polícia Civil solicitou à Justiça, em 17 de março, a prisão preventiva do tenente-coronel. O pedido sucedeu a conclusão, com base em perícia técnica, de que ele seria o principal suspeito pela morte da esposa.
- A Justiça Militar do Estado de São Paulo decretou a prisão preventiva do tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto nesta quarta-feira (18/3). Ele foi preso no mesmo dia em um condomínio residencial de São José dos Campos, no Vale do Paraíba.
- No dia seguinte, 19 de março, também o Tribunal de Justiça (TJSP) confirmou a prisão preventiva.
Uso da posição hierárquica
A decisão da Justiça Militar que prendeu Geraldo Neto aponta que o tenente-coronel teria usado sua posição hierárquica — superior à dos policiais presentes no local do crime, além do fato de ser o oficial mais antigo — para ignorar a recomendação de não tomar banho durante a ocorrência. Segundo a decisão do TJM que determinou a prisão do coronel, ele atuou para “impor sua vontade e efetivamente tomar banho novamente, mesmo diante da resistência manifestada pelos policiais responsáveis pela ocorrência”.
O exposto na decisão judicial desmente a versão apresentada pelo coronel anteriormente, quando ele alegou que não havia recebido nenhuma orientação quanto ao segundo banho.

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Ver todasEle não se valeu de sua posição hierárquica na corporação apenas no dia do crime, mas também como instrumento de dominação e violência contra a esposa Gisele Alves Santana no dia a dia do relacionamento.
Testemunhas ouvidas pela investigação contaram que o oficial ia frequentemente ao local de trabalho da vítima e usava de sua autoridade para entrar e permanecer por longos períodos observando as atividades dela, causando até constrangimento à equipe. Além disso, o tenente-coronel teria proibido a mulher de trabalhar com colegas homens e menosprezava a posição da esposa, dizendo que ela deveria “arrumar um soldado” [em vez de ter se casado com um coronel].
Ele já havia sido condenado por abuso de autoridade contra uma subordinada por um episódio de 2022, quando ainda era major e comandante do 29º Batalhão da Polícia Militar (29º BPM/M).






















