Iracema Barbosa e a cartografia de um continente dividido em dois

A artista participará do III Seminário Latinoamericano: Imagen y representaciones espaciales

Bernardo Scartezini/Metrópoles

atualizado 25/03/2019 12:32

Iracema Barbosa passou os últimos três meses a trabalhar com mapas e linhas, corte e costura. Dando conta de conciliar, num mesmo trabalho, os dois interesses paralelos que alimentam sua vida profissional e acadêmica: arte e geografia.

Ao se tornar bacharel em geografia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, no início da década de 1990, Iracema já frequentava os ateliês da Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Mais tarde, cumpriria longas temporadas de estudos em história da arte em Paris.

Hoje é professora do Instituto de Artes da Universidade de Brasília. E ali mesmo, dentro da UnB, segue transitando entre os colegas do Departamento de Geografia. Num desses encontros, surgiu o convite para que visitasse a Universidade Nacional Autônoma do México agora no início de abril.

Na Cidade do México, Iracema participará do III Seminário Latinoamericano: Imagen y representaciones espaciales, marcado para acontecer entre primeiro e seis de abril. Tomará parte de uma mesa de debates e levará na bagagem sua mais recente produção artística.
Novo Mundo é um trabalho de costura em que Iracema se apropria de imagens mui familiares. Alguns tantos mapa-múndis, comprados no Conic, formam o material principal para esta obra. Feitos naquele tipo de papel meio plastificado, os mapas que Iracema escolheu são os geopolíticos: cada país pintado numa cor diferente, fronteiras salientadas por linhas grossas, nomes destacados de cada nação e suas principais cidades.

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As linguagens e os códigos da cartografia, que aprendemos ainda na escola, são exatamente o que a interessam nesta obra, conta Iracema, recebendo a coluna Plástica em seu apartamento, na 206 Norte, enquanto dá os arremates na peça que seguirá viagem na próxima semana.

“A geografia trabalha com o sensível e com o compreensível. O sensível da paisagem, que atiçar todos os nossos sentidos. A compreensão do mundo, o entendimento do mundo, conforme estudamos na escola. Um mapa e uma estrada não têm nada a ver um com o outro, no entanto aquilo representa o caminho que você tem que seguir, se você souber ler aquele código, aquela linguagem.”

As linguagens, explica Iracema, podem ser compreendidas como grades de conhecimento que buscam explicar a experiência física, sensorial, do mundo real. Mas as linguagens são construções, elaborações. Como tais, carregam também um sentido político.

E qualquer mapa carregará sempre um tanto de deformações visuais pelo simples fato de ser uma superfície bidimensional diante de uma realidade tridimensional. O mapa-múndi como o conhecemos, assim, é literalmente eurocêntrico: a Europa no meio da composição, o meridiano de Greenwich como ponto zero. E a América do Norte, nessa perspectiva, parece ser bem maior que a América do Sul.

“Tudo é política. A perspectiva é também um pensamento político”, define Iracema. As convenções de cartografia, então, foram desconstruídas e reordenadas pela artista neste Novo Mundo.

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Assim visto de longe, Novo Mundo avistado através da ampla sala que Iracema Barbosa transformou em ateliê, tem a aparência de dois mapa-múndi gêmeos. No entanto, quando chegamos mais e mais perto, percebemos sua real formação. Trata-se apenas do mapa das Américas. De um lado, Canadá, Estados Unidos e Groenlândia – repetidos três vezes cada – como num redemoinho de terras, como num globo a girar no espaço. Do outro lado, México, Caribe, América Central, América do Sul – também repetidos três vezes cada.

Nos aproximando ainda mais deste Novo Mundo, percebemos que os pedaços de terra/ pedaços de papel/ pedaços de países que tocam a esta geopolítica latino-americana estão amarfanhados, amassados e costurados uns nos outros. Remendos que, para Iracema, soam como as raças, os povos, as culturas aqui destruídos.

Num dos mapas, predominam as cores frias, a remeter ao gelo do Hemisfério Norte. Esse pedaço de América, também foi todo recoberto pelo tule branco. Enquanto na América Latina, predominam o azul imenso dos oceanos, as cores quentes de cada país, como uma colcha de retalhos tropical.

“Esta é uma carta de amor às Américas em meio a todos esses acontecimentos que estão rolando no mundo, que nem aguentamos mais ouvir no noticiário, com essas atrocidades como o muro na fronteira entre Estados Unidos e México, com as atrocidades nossas aqui no Brasil também. Ao fazer esse trabalho, veio também a ideia de mandala, de algo religioso. Então esta também é uma oração para a América.”

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Um segundo trabalho, ainda em desenvolvimento, acaba de receber o nome de América Sobre Terra. Tratam-se de desenhos feitos por Iracema a partir de diferentes projeções de mapas da América Latina.

Preparando-se para a viagem, Iracema Barbosa voltou a ler algumas cartas do navegador Cristovão Colombo. Percebeu nelas como, desde o primeiro momento, o interesse do viajante europeu por estas terras tinha a ver com os recursos naturais.

O ouro de Novo Mundo simbolicamente está na moldura feita por fios dourados sobre o tule. No mundo atual, diz Iracema, é o Norte a vir atrás do ouro explorando Sul – tanto na mão de obra humana quanto, mais uma vez, nos recursos vegetais, do petróleo à agricultura. “Esta obra é para nós entendermos que, claro, um precisa do outro. Mas não da forma violenta como se quer colocar. Quero apresentar um gesto de amor a este continente partido em dois, mas que é o mesmo continente.”

Iracema Barbosa, afinal, não pode se fechar às contribuições da América do Norte. Ela lê Emily Dickinson e tem Jasper Johns entre seus artistas preferidos. Conta ter trabalhado nestes mapas ao som de Bob Dylan e Janis Joplin.

E sem jamais perder de vista o fato de erguer sua obra na Universidade Nacional Autônoma do México, palco de um dos episódios mais infames da história política latino-americana. Seu campus foi ocupado e seus estudantes foram presos por homens do exército mexicano, cumprindo ordens do presidente Gustavo Díaz Ordaz Bolaños, em setembro de 1968. Dias antes do Massacre de Tlatelolco.

Bernardo Scartezini/Metrópoles
Fios de ouro e alfinete para Novo Mundo (2019)

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