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“Crisis in Six Scenes”, série de Woody Allen para os estúdios da Amazon, mal chegou ao mercado de TV por streaming, no fim de setembro, e já se sabe que não terá uma segunda temporada. Coestrelado por ele, Elaine May e a cantora pop Miley Cyrus, o programa marca o retorno do experiente diretor à mídia que o revelou. Mas, em 2016, o cineasta já não demonstra o frescor criativo de outros tempos.

Allen começou sua longa e frutífera carreira na telinha escrevendo roteiros para shows de comédia. Nos anos 1960, conquistou aos poucos a independência e o total controle de seus projetos. Desde então, vem lançando quase um longa-metragem original por ano, sempre como diretor e roteirista.

Ele não atuava desde “Amante a Domicílio” (2013), dirigido por John Turturro, e vem de outra produção com a Amazon, o recém-lançado filme “Café Society” (leia crítica). Em “Crisis”, ele volta à persona padrão do judeu neurótico e inseguro.

Sidney J. Munsinger se diz escritor, mas vive da renda que acumulou durante anos na publicidade. Tal qual na vida real, ele também prefere ouvir jazz, ver esportes na TV e se enfurnar no quarto em vez de sair de casa. Outro fato curioso: na série, ele tenta emplacar roteiros para a telinha.


Woody Allen na fase mais morna da carreira

A grande atriz Elaine May, que trabalhou com Allen em “Trapaceiros” (2000), vive Kay, a esposa de Munsinger. Há um debate doméstico em torno do que acontece lá fora. A Guerra do Vietnã polariza opiniões e protestos, os jovens ocupam as universidades em manifestações e os hippies revelam uma vida que segue na contramão do consumo e da caretice do subúrbio.

A dinâmica cômica do casal funciona como em vários filmes de Allen. Kay parece preocupada em se posicionar politicamente, enquanto Sidney anda mais interessado na rotina de sempre. As coisas se complicam quando Lennie, a ativista interpretada por Miley Cyrus, pede abrigo na casa. É como se a movimentação das ruas finalmente rompesse o véu social e mexesse com o conforto da classe média.

“Crisis in Six Scenes” exala o carisma já esperado de uma produção assinada por Allen. O fato de ele se filiar à televisão mostra como Hollywood parece cada vez menos disposta a se “arriscar” em produtos originais – mesmo com nomes consagrados no comando dos projetos.

O seriado representa um novo produto da fase “cartão postal” (geográfico ou temporal) do autor, que vem investindo em filmes de época e em variadas locações desde “Match Point” (2005). “Crisis in Six Scenes” não chega a ser um desastre, mas entra numa já longa fila de trabalhos menores do diretor.

Avaliação: Regular

“Crisis in Six Scenes” é um lançamento da Amazon Prime, serviço ainda não disponível no Brasil

 

 

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