Transplantados e doentes autoimunes ficam no vácuo da vacina no DF

Colocados na terceira fase da imunização, esses pacientes se preocupam com o ritmo lento da aplicação de doses contra a Covid-19 na capital

atualizado 21/02/2021 23:10

vacina de oxford/astrazenecaDanny Lawson/PA Images/GettyImages

O ritmo lento da chegada de novas doses da vacina contra a Covid-19 no Distrito Federal preocupa quem está bastante vulnerável à doença, mas ainda longe de avançar na fila. Pessoas com doenças autoimunes, que possuem um sistema de defesa extremamente debilitado, estão no grupo 3 de prioridade e, a exemplo de transplantados ou portadores de HIV, sabem que ainda devem viver mais alguns meses com medo de sair de casa antes de serem imunizadas.

Leanna Magalhães, 28 anos, por exemplo, é portadora de Lúpus há 13 anos. O sistema imunológico de quem tem a doença ataca os próprios tecidos. “Antes era algo mais na pele, até em casa tenho que usar protetor solar, pois [a pele] é muito sensível. Mas depois piorou, começou a me atacar mais e precisar fazer quimioterapia”, explica.

O tratamento funcionou por um breve período até que, em 2018, o Lúpus voltou a se agravar, atacando o sistema nervoso de Leanna. “Passei a ter convulsões e precisei usar imunossupressores pesados. Aposentei, tomo os remédios, mas mesmo assim as dores articulares são intensas”, revela.

Em decorrência do Lúpus, a jovem desenvolveu hipertensão pulmonar, que deixa o paciente extremamente cansado. Como a Covid-19 ataca o sistema respiratório, ela decidiu sair da casa da mãe, onde morava com mais oito pessoas. Alugou uma casa para ficar só com o filho, que está sem aulas presenciais, e o marido, que até o fim do ano passado trabalhava em home office.

“Ninguém saía de casa. Minha mãe fazia as compras e levava para a gente já com tudo higienizado. Não atendo a porta, não pego nada que vem da rua, pois sei o que pode acontecer comigo”, lamenta.

Com o sistema imunológico tão vulnerável à doença, Leanna espera que a vacinação chegue logo para ela. “Eu estava com uma expectativa de ser imunizada logo, mas parece que a gente ficou esquecido. Acho que deveria ter sido algo tanto para os idosos como para que tem a imunidade baixa”, opina.

0
Isolamento involuntário

Quem também mal pode esperar pela vacinação é Ana Paula Morais, 36, que sofre com esclerose múltipla, uma doença que causa lesão nos nervos e distúrbios na comunicação entre o cérebro e o corpo. Portadora da forma progressiva da doença, ela já não tem sensibilidade em algumas partes do corpo e anda com auxílio de uma bengala.

Ana Paula chegou a ter Covid-19 bem no começo da pandemia, em março de 2020. Assustada com a possibilidade de ir para o hospital e acabar precisando ser internada, expondo-se a outras infecções, ela preferiu ficar em casa durante a recuperação do novo coronavírus. “Só fiz o teste bem depois, e ele mostrou o que realmente tive. Foi sorte, pois conheço alguns colegas que precisaram ir para a UTI [Unidade de Terapia Intensiva] e tudo o mais”, comenta.

Para Ana, o problema não é apenas o coronavírus, mas a maneira como ele interfere em suas outras necessidades. “Tenho que fazer ressonância de seis em seis meses para ver se tive alguma lesão nova. Por causa da pandemia, precisei cancelar o tratamento. Agora, imagina se algo tivesse acontecido comigo, como eu ia descobrir? Poderia ter virado algo irreversível”, destaca.

Ela, que já morava sozinha, diz que não sentiu tanta diferença no isolamento imposto pela Covid-19, uma vez que ter a esclerose múltipla já resulta em um isolamento involuntário. “Quem tem essas doenças, ficar sozinho, acaba não sendo uma opção. As pessoas já não te tratam da mesma forma, não te chamam para as coisas… Acham que você é incapaz”, desabafa.

0

Para Lauda Santos, presidente da Associação Maria Vitoria de Doenças Raras (Amavi), ainda é uma incógnita como será a vacinação dessa população que reúne transplantados, pessoas com doenças autoimunes, raras, ou mesmo com HIV. “Será que o governo nosso tem preparação para realizar a vacinação de todos eles, com todas as especificidades de cada um?”, questiona.

Falta de doses força a seleção

A intensivista do Hospital Santa Marta, Adele Vasconcelos, no entanto, diz que ainda não é possível tirar o foco da vacinação dos idosos contra o novo coronavírus. “O que vemos nas pesquisas é que a letalidade em idosos é muito grande. Tem que existir uma prioridade sim para pessoas com essas doenças, mas se for ampliado agora, entramos no problema da quantidade de doses disponíveis”, comenta.

Ela diz entender que “cada caso é um caso”, mas argumenta que uma campanha de vacinação é baseada na massificação de certos grupos. “Tem que ver, no geral, quem corre mais risco. No momento, com as doses que temos, infelizmente só dá para vacinar idosos e profissionais de saúde da linha de frente”, explica.

Victor Bertollo, infectologista do Hospital Anchieta de Brasília, compartilha da opinião e lembra que outros países seguem o mesmo padrão adotado no Brasil. “O que temos é uma variação na linha de corte dos idosos. Alguns países, por exemplo, colocam como prioridade até 65 anos, mas não muda muito além disso”, comenta.

Outro problema para abarcar pessoas com doenças autoimunes, raras ou transplantados é o atraso na entrega de vacinas. “O Butantan não vai conseguir entregar todas as doses que tinha prometido e temos também apenas duas empresas enviando o imunizante ao Brasil. Isso tudo faz com que as coisas demorem mais”, afirma.

O que diz a Saúde

Procurada, a Secretaria de Saúde do Distrito Federal informou que “vem adotando cautela na ampliação do grupo prioritário de vacinação contra a Covid-19”. Segundo a pasta, esse cuidado se dá pela “dificuldade da obtenção de doses de vacina neste momento, e também da prioridade estratégica em garantir a segunda dose da imunização contra a doença”.

Dessa maneira, a secretaria afirma seguir na “expectativa da chegada de um novo carregamento de doses para ampliar a vacinação no DF“. No momento, isso acontece “com base na disponibilidade de doses que o DF recebe”.

Últimas notícias