Sob nova gestão no DF, UPAs e hospitais registram aumento de atendimentos

Na semana em que a administração do Iges completa 80 dias, pacientes veem melhorias no sistema, mas também apontam problemas

JP Rodrigues/MetrópolesJP Rodrigues/Metrópoles

atualizado 17/08/2019 11:13

Nesta semana, o Instituto de Gestão Estratégia de Saúde (Iges-DF) completou 80 dias à frente da administração de oito unidades públicas de saúde do Distrito Federal. Após assumir oficialmente as seis unidades de pronto atendimento (UPAs) da capital, o Hospital de Base (HBDF) e o Hospital Regional de Santa Maria (HRSM) em 27 de maio deste ano, o Iges viu a procura por atendimentos médicos crescer. Tanto do ponto de vista dos pacientes quanto a partir da perspectiva dos profissionais, houve melhora no sistema como um todo, embora a realidade ainda esteja longe da ideal. Um dos maiores problemas é a quantidade insuficiente de médicos para suprir a demanda.

O Iges-DF promoveu reformas estruturais nas UPAs de Ceilândia, Sobradinho, Samambaia, Recanto das Emas, Núcleo Bandeirante e São Sebastião, além de no HBDF e no HRSM. A revitalização permitiu a ampliação das unidades e a reabertura de 67 leitos.

Ao longo dos últimos dias, o Metrópoles foi a essas instituições e entrevistou usuários de todas as oito unidades de saúde administradas pelo Iges-DF. Do total de locais visitados pela reportagem, apenas as UPAs do Núcleo Bandeirante e de Samambaia apresentaram operação normalizada – ou seja, independentemente da classificação atribuída no centro de triagem, os pacientes eram atendidos rapidamente.

Nos outros seis locais – HBDF, HRSM, São Sebastião, Sobradinho, Ceilândia e Recanto das Emas –, a demanda estava maior, especialmente em razão da quantidade de casos graves que eram recebidos nesses locais.

Na Unidade de Pronto Atendimento de Ceilândia, houve quem elogiasse a eficiência do atendimento aos pacientes classificados como em risco. “O pessoal tem que entender que UPA não é hospital, não tem 15 médicos. É para ser algo emergencial e rápido. Trouxe minha avó, de 83 anos, que estava com muita dor no peito. Ela já está sendo atendida e medicada. Foi mais rápido do que pensei”, elogiou Jordan Peres, 19.

Outra paciente, contudo, reclamou. Na expectativa de descobrir e tratar os sintomas que têm lhe “tirado o sono às noites”, Joana Claudia, 48 anos, buscou ajuda na UPA de Ceilândia. Moradora da cidade e ciente da alta demanda na rede pública, a usuária decidiu acordar cedo para evitar filas e chegou à unidade cedo, às 5h30.

Mas, após esperar por quatro horas, ela recebeu a notícia que não queria ouvir: “Atendimentos laranja e vermelhos serão priorizados”, disse um servidor da UPA que atribuía a culpa da demora à superlotação da unidade. “Sou diabética, estou com problemas de pressão alta e entrando em crise”, desabafou Joana à reportagem.

A usuária não foi a única a ficar sem atendimento. Com dificuldades para se locomover após romper uma veia da perna, o aposentado Antônio Rabelo, 65, voltou para casa de mãos abanando. “Tenho nem previsão de ser atendido. A gente espera três horas na fila para virem dizer uma coisa dessas. Por que não avisam quando a gente chega?”, indaga.

Apesar da reclamação dos usuários quanto à demora, relatório do Iges-DF aponta crescimento no total de pacientes atendidos pela unidade de janeiro a julho de 2019. De acordo com o documento, foram 39.943‬ usuários contemplados nos primeiros sete meses deste ano. O valor corresponde a 16,4 mil atendimentos a mais do que os realizados no mesmo período em 2018, quando cabia à Secretaria de Saúde (SES-DF) gerir a UPA de Ceilândia.

Elogios no HBDF

Já no Hospital de Base, brasilienses elogiaram o atendimento recebido. O mecânico Gilbert Soares Selmo, 38, voltou ao HBDF após ser internado na unidade de saúde com infecção renal – e ficou satisfeito. “No dia em que cheguei aqui, eles me deram toda a atenção. Já tinha vindo antes. Há uns dois anos, aqui era um caos, fila até lá embaixo, sem leito e nem médico. Melhorou bastante”, observou.

Jéssika Siqueira de Castro, 23, foi outra a perceber melhorias na estrutura do Hospital de Base. “A gente olha no jornal e já se assusta, né? Às vezes, até evita vir, para não passar raiva. Hoje, não tinha como: saí do serviço mais cedo porque estava muito mal. Mas vim e fiquei pouco tempo na fila. Em cerca de uma hora, já estava lá dentro tomando soro”, relatou a auxiliar de serviços gerais.

A satisfação de pacientes na maior unidade de saúde da capital do país contrasta com o sentimento em outros locais. No Recanto das Emas, usuários ouvidos pelo Metrópoles denunciam que a falta de leitos levou os médicos a promoverem internações adaptadas na UPA.

Segundo um servidor ouvido pela reportagem, o local atualmente possui 28 pacientes internados. Ocorre, no entanto, que o espaço foi projetado para atender e receber até 17 pessoas. A superlotação se agrava com a falta de médicos, conforme flagrada pela reportagem nessa quarta-feira (14/08/2019), quando dois médicos desfalcaram a equipe, deixando apenas três profissionais à disposição da população.

Maria Conceição, 58, procurou a rede pública para se consultar e se frustrou. “É a terceira vez que eu venho aqui e nunca tem médico. Trouxe meu esposo, de 61 anos, que está queimando em febre, tem nódulo no pulmão, e eles dizem que estão apenas atendendo os casos amarelos. O jeito vai ser ir em uma clínica particular.”

Equipes desfalcadas também fazem parte das reclamações de quem corre para a UPA de Sobradinho em busca de tratamento. Mesmo com o Iges-DF tendo reativado a Sala Amarela, o que permitiu a criação de mais 10 leitos, o local ainda não consegue atender o volume de enfermos.

Com suspeita de dengue, Ciro de Araújo Noleto, 54, diz ter ido até o centro de saúde três vezes, sem sucesso. “Estou com suspeita de dengue há três dias e não consegui ser atendido”, disse.

Hospital Regional de Santa Maria

Já o Hospital Regional de Santa Maria (HRSM) não aparenta precisar de reformas estruturais, mas sofre com problemas operacionais, conforme o relato de Ana Paula Páscoa, 29, que denuncia a falta de leitos para internos. “Estou acompanhando minha tia, que é amputada. Do atendimento a ela não posso reclamar, mas quando a gente entra e passa pelos corredores, tem muita gente deitada em maca, algumas até improvisadas, por falta de quarto mesmo.”

 

Outro lado

Em entrevista ao Metrópoles, o presidente-diretor do Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal, Francisco Araújo, atribuiu a superlotação das UPAs e hospitais ao aumento na procura popular, motivado pelas recentes contratações de profissionais e reformas. “É natural que isso ocorra. Nossa realidade é de unidades com capacidade para 200 pessoas recebendo 500. Eram unidades desacreditadas e que, agora, estão com credibilidade. Por isso, têm sido mais procuradas.”

“É preciso ressaltar que o que tem ocorrido muito, também, é que a população não entende a dinâmica das UPAs, por exemplo. A gente sabe que a população vai e quer ser atendida. É um direito deles, mas 70% desses pacientes procuram atendimento apresentando quadros de saúde de pulseira verde, que não correspondem aos atendimentos oferecidos pela UPA, geralmente destinados aos de pulseiras laranja e vermelhas”, explicou Araújo.

Questionado sobre os desfalques no quadro de médicos, o gestor assegurou que “todas as equipes estão completas”. “Desde que assumimos, já contratamos 1.510 novos profissionais de saúde, entre médicos, enfermeiros, bioquímicos e farmacêuticos. O que pode ocorrer e foge do nosso domínio é um profissional faltar por problemas pessoais ou de saúde. Mas asseguro que todas as escalas estão completas, não há desassistência”, reforçou Araújo.

De acordo com o diretor-presidente, a fim de desafogar as demandas, o Iges-DF planeja a construção de outras seis unidades de pronto atendimento: no Gama, Paranoá, Riacho Fundo I, Vicente Pires, em Brazlândia e em Ceilândia.

“É preciso lembrar, ainda, que uma UPA sozinha não dá conta de um sistema. É preciso que haja retaguarda dos hospitais e centros de saúde. Estamos em uma fase de transição, e a realidade tem mudado. Hoje, não tem paciente que fica mais de cinco dias internado na UPA, como costumava ocorrer”, finalizou.

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