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Exclusivo: comitê de Jair Bolsonaro em Brasília vira “QG do golpe”

Endereço tem servido para encontros do general Braga Netto com políticos aliados e militantes bolsonaristas que defendem intervenção militar

atualizado 18/11/2022 19:46

O antigo comitê eleitoral de Jair Bolsonaro, no Lago Sul de Brasília Rafaela Felicciano/Metrópoles

A casa no Lago Sul de Brasília que foi alugada para sediar o comitê da campanha de Jair Bolsonaro à reeleição continua movimentada – e a todo vapor. Só que, agora, virou uma espécie de central do golpe, onde apoiadores do presidente, liderados pelo ex-ministro e ex-candidato a vice Walter Braga Netto se reúnem para discutir estratégias destinadas a questionar o resultado das eleições.

O general Braga Netto tem dado expediente no local regularmente, na companhia de seu entourage, que inclui oficiais das Forças Armadas.

Nesta semana, a coluna acompanhou o movimento no endereço. Na quinta-feira, por exemplo, Braga Netto recebeu o ex-ministro e deputado federal Osmar Terra, conhecido propagador do discurso radical bolsonarista.

Abordado na saída, Terra admitiu que foi ao local tratar da auditoria contratada pelo PL, o partido de Bolsonaro, para questionar as urnas eletrônicas.

“(A reunião) foi para buscar informações, (saber) se tinha alguma novidade sobre o processo do PL”, disse ele, referindo-se à auditoria. “Queria ter a informação mais adequada”, emendou, acrescentando que segue no aguardo de “novidades”.

Braga Netto e outros integrantes do estado-maior da campanha derrotada de Bolsonaro têm recebido na casa visitas de parlamentares que apoiam o presidente.

Entre os que foram à casa nesta quinta está o deputado federal Marcel Van Hattem, do Partido Novo, também apoiador de Bolsonaro. O gabinete do parlamentar informou que ele foi ao encontro de Braga Netto a convite do senador Eduardo Girão, do Podemos.

Girão, por sua vez, disse à coluna que o assunto da reunião foi também a auditoria das urnas – em mais uma evidência de que a casa tem servido para tramar novos ataques ao sistema eleitoral. Havia pelo menos mais um senador na reunião: Guaracy Silveira, do PP, partido da base aliada do atual governo.

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Outras pessoas que estiveram na equipe de campanha de Bolsonaro também frequentam o local. É o caso do coronel da reserva do Exército Marcelo Azevedo, que foi tesoureiro do comitê bolsonarista.

Há um fluxo intenso na casa. O entra-e-sai é permanente. O endereço tem servido ainda para reuniões com manifestantes que engrossam os protestos antidemocráticos. É uma evidência importante sobre a cadeia de comando das manifestações nas portas de quartéis e nas estradas questionando o resultado das eleições.

Na tarde desta sexta-feira, por exemplo, chegou à casa uma camionete decorada com a bandeira do Brasil. Dela saiu um homem com uma camisa com inscrições pedindo intervenção militar. Indagado, ele limitou-se a responder que seria recebido por uma pessoa no QG. Não disse por quem. Braga Netto estava lá.

A camionete, uma Amarok de quase R$ 300 mil, tem placa registrada na cidade baiana de Luis Eduardo Magalhães, um dos principais polos do agronegócio do país. Também nesta tarde, uma outra Amarok, cujo proprietário é um empresário do Mato Grosso, chegou à casa. Saiu pouco antes de o general deixar o local.

Um dos veículos que esteve no antigo comitê no início da tarde foi localizado pela reportagem, horas depois, na manifestação bolsonarista no quartel-general do Exército, no Setor Militar Urbano de Brasília (veja abaixo os registros) — eis aí uma prova cabal da conexão entre a chapa derrotada nas eleições e as manifestações de caráter golpista.

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Lá e cá

O general tem se dividido entre o expediente no “QG do golpe” e visitas frequentes a Bolsonaro no Palácio da Alvorada. Nesta quinta, ele deixou a casa e foi direto para a residência presidencial, onde declarou a jornalistas que Bolsonaro, recluso há semanas, está recuperado de uma infecção na perna e “deve voltar logo”.

Entre uma reunião e outra no antigo comitê de Bolsonaro no Lago Sul, Braga Netto tem se ocupado ainda em manter acesa, entre os militantes bolsonaristas que protestam contra as eleições, a expectativa de que uma “surpresa” pode acontecer.

Dias atrás, a um prefeito do interior de Mato Grosso que viajou a Brasília para participar dos protestos na frente do quartel-general do Exército, o general disse, sem mais detalhes, que “algo muito bom” vai acontecer até o fim desta semana.

O encontro se deu em um mercado, onde o prefeito Carlos Capeletti, do município de Tapurah, havia ido para comprar mantimentos para o acampamento. Logo depois, Capeletti fez um vídeo relatando o que ouviu e publicou nas redes sociais.

“Eu falei que eu iria embora, que não acreditava em mais nada, e ele (Braga Netto) falou assim: ‘Fica tranquilo que vai acontecer’”, disse o prefeito à coluna.

O relato mostra que o general tem insuflado os manifestantes com a expectativa de uma virada de mesa antidemocrática.

Em outro vídeo, que circulou nesta sexta, ele cumprimenta militantes bolsonaristas na frente do Alvorada. Ao ouvir apelos do grupo, que diz estar firme nos protestos, ele afirma: “Não percam a fé. É só o que eu posso falar para vocês agora”.

A coluna vem tentando insistentemente falar com Braga Netto nos últimos dias, sem sucesso. Tanto nesta quinta quanto nesta sexta, ao sair da casa, ele não aceitou conversar.

A casa e o PL

Sobre a casa no Lago, o PL disse que, como a campanha acabou, o comitê de campanha já não funciona mais no endereço. Respondeu ainda que “não sabe” das atividades no local atualmente.

A coluna perguntou também se o partido segue bancando o funcionamento da casa, como fez durante o período eleitoral, mas não houve resposta.

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