Rodrigo França

Miss Santa Catarina: quem tem medo da beleza negra?

Ataques racistas falam menos de Pietra Travassos e mais de quem teme o espelho desencontrado da própria cultura

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

Foto: Reprodução/Instagram
foto colorida de jovem negra de vestido verde e coroa - metrópoles
1 de 1 foto colorida de jovem negra de vestido verde e coroa - metrópoles - Foto: Foto: Reprodução/Instagram

A escolha por Pietra Travassos como Miss Santa Catarina é muito mais do que a consagração de um rosto e de uma coroa. É a materialização de uma história que insiste em ser invisibilizada. Santa Catarina, estado de olhar panorâmico ao mar, de montanhas abruptas e matas densas, também é de brasileiros — todos os brasileiros — e esse “todos” precisa pulsar nas veias coletivas da região. Não basta enxergarmos somente as comunidades de colônias, como se cada colono trouxesse consigo a exclusividade do pertencimento. O pertencimento é plural, e Santa Catarina tem, em sua multiplicidade, a força dos que foram e são negros.

Para além da ilustração bucólica dos chalés e da imigração europeia, as costas e os vales desse estado guardam a presença negra, não como nota de rodapé, mas como eixo ativo. Das aldeias dos quilombos, como Comunidade Remanescente de Quilombo Invernada dos Negros, às oficinas, aos ranchos, às feiras e ao comércio informal e formal, pessoas negras moldaram e moldam o solo, a palavra, o sonho. Eram mãos que batiam a farinha, que construíam a casa, que entoavam cantigas para acalmar o mar. Quem nega isso se engana e nos engana. Porque Santa Catarina não foi feita apenas de “colônias”. Foi feita de gente.

E eis Pietra, quase 18 anos, chegando ao palco e dizendo, com a elegância de quem conhece o próprio valor, que beleza não é propriedade da branquitude. Ela carrega a cor, a ancestralidade, o diálogo vivo entre passado e futuro. Quando surgem os ataques racistas, como infelizmente surgiram, eles falam menos da moça que brilha e mais de quem teme o espelho desencontrado da própria cultura. Esses ataques expõem o desconforto de quem acredita que a beleza se liga a um padrão fechado, inamovível, e por isso se assusta ao vê-la romper muros simbólicos.

Porque a beleza é universal; ela engloba o sorriso, a postura, a história, o olhar e ao mesmo tempo é subjetiva: cada pessoa a sente, a reconhece, a projeta. Ela não cabe em catálogos de tom de pele ou em rankings de pertencimento. No instante em que Pietra ergue a faixa, Santa Catarina ergue com ela outra narrativa: a de um estado que é, sim, brasileiro, negro, múltiplo, plural.

É preciso que aquele que olha para o litoral de Florianópolis, para as serras, para os vilarejos, diga: “aqui há negros, há negras, e essas vidas importam”. Que compreenda que a história de Santa Catarina, e do Brasil, não se constrói apenas do lado visível da vitrine turística nem do padrão hegemônico da beleza. Construir é lembrar, reconhecer, dar vez. E quando uma jovem negra é coroada Miss Santa Catarina, não é apenas o título que muda de mãos, é o sentido de quem somos.

Que este momento sirva como farol: a beleza que liberta, que rompe, que transforma. E a pergunta que deve ecoar no trabalho cultural, social e artístico é esta: como olhamos para os nossos espaços e dizemos “este é meu lugar”? Porque, afinal, Santa Catarina é de brasileiros, todos eles, com todas as cores, todas as histórias, toda a força.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comNotícias Gerais

Você quer ficar por dentro das notícias mais importantes e receber notificações em tempo real?