
Rodrigo FrançaColunas

Miss Santa Catarina: quem tem medo da beleza negra?
Ataques racistas falam menos de Pietra Travassos e mais de quem teme o espelho desencontrado da própria cultura
atualizado
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A escolha por Pietra Travassos como Miss Santa Catarina é muito mais do que a consagração de um rosto e de uma coroa. É a materialização de uma história que insiste em ser invisibilizada. Santa Catarina, estado de olhar panorâmico ao mar, de montanhas abruptas e matas densas, também é de brasileiros — todos os brasileiros — e esse “todos” precisa pulsar nas veias coletivas da região. Não basta enxergarmos somente as comunidades de colônias, como se cada colono trouxesse consigo a exclusividade do pertencimento. O pertencimento é plural, e Santa Catarina tem, em sua multiplicidade, a força dos que foram e são negros.
Para além da ilustração bucólica dos chalés e da imigração europeia, as costas e os vales desse estado guardam a presença negra, não como nota de rodapé, mas como eixo ativo. Das aldeias dos quilombos, como Comunidade Remanescente de Quilombo Invernada dos Negros, às oficinas, aos ranchos, às feiras e ao comércio informal e formal, pessoas negras moldaram e moldam o solo, a palavra, o sonho. Eram mãos que batiam a farinha, que construíam a casa, que entoavam cantigas para acalmar o mar. Quem nega isso se engana e nos engana. Porque Santa Catarina não foi feita apenas de “colônias”. Foi feita de gente.
E eis Pietra, quase 18 anos, chegando ao palco e dizendo, com a elegância de quem conhece o próprio valor, que beleza não é propriedade da branquitude. Ela carrega a cor, a ancestralidade, o diálogo vivo entre passado e futuro. Quando surgem os ataques racistas, como infelizmente surgiram, eles falam menos da moça que brilha e mais de quem teme o espelho desencontrado da própria cultura. Esses ataques expõem o desconforto de quem acredita que a beleza se liga a um padrão fechado, inamovível, e por isso se assusta ao vê-la romper muros simbólicos.
Porque a beleza é universal; ela engloba o sorriso, a postura, a história, o olhar e ao mesmo tempo é subjetiva: cada pessoa a sente, a reconhece, a projeta. Ela não cabe em catálogos de tom de pele ou em rankings de pertencimento. No instante em que Pietra ergue a faixa, Santa Catarina ergue com ela outra narrativa: a de um estado que é, sim, brasileiro, negro, múltiplo, plural.
É preciso que aquele que olha para o litoral de Florianópolis, para as serras, para os vilarejos, diga: “aqui há negros, há negras, e essas vidas importam”. Que compreenda que a história de Santa Catarina, e do Brasil, não se constrói apenas do lado visível da vitrine turística nem do padrão hegemônico da beleza. Construir é lembrar, reconhecer, dar vez. E quando uma jovem negra é coroada Miss Santa Catarina, não é apenas o título que muda de mãos, é o sentido de quem somos.
Que este momento sirva como farol: a beleza que liberta, que rompe, que transforma. E a pergunta que deve ecoar no trabalho cultural, social e artístico é esta: como olhamos para os nossos espaços e dizemos “este é meu lugar”? Porque, afinal, Santa Catarina é de brasileiros, todos eles, com todas as cores, todas as histórias, toda a força.
