
Mirelle PinheiroColunas

Família de Eliza Samudio sobre goleiro Bruno: “Deboche à Justiça”
Em uma carta aberta enviada à coluna nesta terça-feira (17/3), a família desabafou sobre a liberdade do goleiro Bruno
atualizado
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Familiares de Eliza Samúdio tornaram pública, nesta terça-feira (17/3), uma carta aberta com críticas à liberdade do goleiro Bruno Fernandes das Dores de Souza, considerado foragido. No documento, elas classificam as atitudes recentes do condenado como um “deboche à Justiça”.
O texto, enviado à coluna, foi escrito por Sônia Fátima Moura, mãe de Eliza, e Maria do Carmo dos Santos, madrinha de Bruninho, filho da vítima. Na carta, as duas voltam a cobrar providências das autoridades e o cumprimento rigoroso da pena imposta a Bruno, condenado pelo feminicídio da jovem.
As familiares afirmam que não buscam vingança, mas justiça, e pedem que a Vara de Execução Penal investigue possíveis viagens não autorizadas realizadas por Bruno nos últimos anos. Segundo o texto, também é necessário que o Ministério Público atue com rigor diante de eventuais descumprimentos das regras previstas na Lei de Execução Penal.
Além disso, a família pede que o Poder Judiciário assegure o cumprimento integral da pena, conforme determinado pela Justiça. No documento, defendem ainda que o ex-goleiro seja responsabilizado criminalmente por qualquer violação, incluindo suposta fuga ou desrespeito às condições impostas.
Desabafo
“Escrevemos porque o silêncio não é uma opção, porque o sistema judiciário, que deveria proteger e garantir o cumprimento das leis, tem falhado reiteradamente conosco — e, por extensão, com toda a sociedade.”
Na carta, a família destaca que no dia 15 de fevereiro deste ano, cinco dias após ter a progressão de regime oficializada, Bruno viajou sem autorização judicial para o estado do Acre, onde participou de uma partida de futebol pelo time Vasco-AC, no Campeonato Brasileiro.
“A cena é estarrecedora: enquanto um feminicida condenado desfila impune, a mãe de sua vítima nunca pôde enterrar a filha, e o filho órfão nunca teve acesso aos restos mortais da própria mãe”, diz o documento.
A família de Eliza também ressaltou que, enquanto Bruno desfruta de privilégios incompatíveis com sua condição de apenado, os familiares são sistematicamente atacados. “Somos cobrados, silenciados, invisibilizados. Enquanto ele recebe autógrafos e holofotes, nós seguimos tentando sobreviver ao luto sem corpo, à dor sem reparação, à ausência sem justiça.”
Críticas
Ainda no texto, Sônia e Maria do Carmo lembraram que Bruno se negou, por duas vezes, a realizar exame de DNA, ignorando a paternidade por anos.
“Pagou pensão apenas uma vez, dois anos acumulados, o suficiente para evitar a prisão. Há quase quatro anos, não contribui com um centavo para a criação do próprio filho. E, ainda assim, o Estado não o notificou? Não o localizou? Não agiu? Como um apenado não é encontrado pela justiça se é obrigado a ter seu endereço atualizado?, questionam.
Elas questionam a atuação do sistema de Justiça diante de casos de violência contra a mulher e do cumprimento de penas impostas a condenados por feminicídio.
“Quantas mulheres precisarão morrer ou serem espancadas, mutiladas para que o sistema judiciário leve a sério o cumprimento das penas de criminosos e feminicidas? Quantas famílias precisarão clamar por justiça para que a Vara de Execução Penal cumpra seu papel com eficiência, eficácia e efetividade? Quantos Brunos Fernandes precisarão rir da lei, em praça pública, para que o Judiciário reaja com a devida gravidade?”.
Foragido
Bruno cumpre pena de 22 anos e 3 meses de prisão pelo assassinato de Eliza. Com o rosto estampado em um cartaz do Disque Denúncia do Rio de Janeiro (RJ), ele é considerado foragido pela Justiça do Rio e passou a ser procurado por não se apresentar às autoridades após ter um mandado de prisão expedido por descumprimento das regras da liberdade condicional.
A decisão da Vara de Execuções Penais apresentou como justificativa para revogação do benefício o fato do goleiro ter se ausentado do Rio sem autorização.
No dia 15 de fevereiro deste ano, Bruno viajou para o Acre, onde participou, no dia 19, de uma partida de futebol pelo time Vasco do Acre, pela Copa do Brasil.
“No que concerne ao descumprimento das condições do Livramento Condicional, de fato, as condutas do apenado devem ser encaradas como descaso no cumprimento do benefício que lhe foi concedido”, explicou, na decisão, o juiz Rafael Estrela Nóbrega. Agora, Bruno deve voltar para a prisão, no regime semiaberto.










