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Conheça ativistas que denunciaram o médico brasileiro preso no Egito

Fábio Iorio e Antonio Isuperio foram dois, da rede criada com mais de 2 mil pessoas, que cobraram respostas ao assédio de Victor Sorrentino

atualizado 04/06/2021 10:39

Material cedido ao Metrópoles

Pelo menos dois personagens foram fundamentais na rede internacional de ativistas de direitos humanos para denunciar o caso do médico brasileiro Victor Sorrentino, preso no Egito desde 30 de maio após fazer perguntas com conotações sexuais a uma vendedora e publicar o vídeo na internet. O Metrópoles conversou com os responsáveis pela repercussão do episódio – ao lado de uma rede de mulheres –, que ficou conhecido mundialmente e impediu o acusado de retornar ao Brasil depois da viagem a trabalho.

No vídeo que viralizou nas redes sociais e motivou a prisão, o médico fala a uma vendedora: “Elas gostam é do bem duro. Comprido também fica legal, né?”. A atendente sorri durante a fala do turista, aparentemente sem entender o duplo sentido das frases. Ao acessar o material, o empresário e artista plástico Fabio Iorio, radicado em Londres, questionou o conteúdo divulgado por Sorrentino com a exposição da egípcia que tentava vender um papiro ao turista.

“Quando eu entrei no perfil dele, eu não tinha pretensão nenhuma, porque nem o conhecia. Acessei porque uma amiga queria comprar um curso dele sobre saúde e perguntou a minha opinião. Quando entrei, aquela mulher já dando uma aula sobre papiro e, de repente, acontece aquela agressão, fazendo piadas de cunho sexual. Fiquei muito chocado com aquilo”, explica Iorio.

A partir de então, ele passou a questionar a postura do médico bolsonarista por meio de mensagens privadas na conta do Instagram do influencer. “Geralmente, não faço isso, mas neste caso a indignação me fez dizer que aquilo não era o correto, meio que uma forma de alerta, mas não esperava que ele fosse me responder. Só que ele leu, deu prints, postou nas redes dele me expondo, dizendo que eu era um ‘mimizento'”, detalha.

A exposição fez com que Iorio procurasse o ativista Antonio Isuperio, morador de Nova York, e o jornalista Victor Drummond, que também vive no Reino Unido, para denunciar o assédio sofrido pela vendedora de papiros. Uma grande rede de conexões internacionais foi formada até que o caso chegasse às autoridades egípcias e se tornasse um dos assuntos mais comentados no Twitter naqueles dias.

“O trabalho de ativismo, em geral, é muito solitário, porque ele é contra a cultura [a construção social predominante], e o tempo todo você tem que ficar nessa disputa de narrativa, o que é muito exaustivo. E nesse caso eu acho que foi muito importante para mim, porque mais de 2 mil mulheres tiveram contato, se manifestaram de alguma forma, isso de acordo com um levantamento feito por alto”, continua Isuperio sobre o engajamento das pessoas nas redes sociais.

O movimento também teve a participação de inúmeras mulheres, grande parte militantes brasileiras, para engrossar o coro e pedir respostas à atitude do médico influenciador. As historiadoras Jovinha Rocha e Siá Milagres, assim como a advogada Janaína Silva e a professora Fabíola Oliveira participaram da marcha. A empresária Michelle Bastos, além de Luciana Cris ao lado de Bianca Sarah, que são mulçumanas, foram as responsáveis por acionar a rede feminina egípcia.

O conteúdo foi traduzido para o árabe por Patrícia Oliveira, influenciadora brasileira responsável pela página Vida no Egito, e compartilhado também por formadoras de opinião, como a atriz Suzana Pires, a jornalista Alexandra Loras, a apresentadora Fabiana Saba e a influenciadora Priscilla Rezende, do Instagram desin.fluencer.

Rede feminista engajada no caso do médico preso no Egito
Engajamento

Isuperio foi o responsável por compartilhar o vídeo com o momento exato do assédio e por viralizar o conteúdo para o mundo todo, alcançando mais de 750 mil visualizações. Com quase 25 mil seguidores na rede social, ele também procurou jornalistas e influenciadores para que o caso fosse registrado e o debate fosse tratado com a devida seriedade. Na visão do ativista, a construção social favorece a postura do médico, que, por estar numa posição de privilégio na sociedade, acaba sendo perdoado.

“As pessoas ficam me perguntando o que eu acho de ele ficar preso, mas acho que a gente não pode deixar esse debate ser usurpado, focar na figura de quem produz a violência. A gente não pode perder essa oportunidade simbólica de ter esse momento da repressão, desse símbolo de poder, que existe no homem branco, cis, hétero e que simboliza esse lugar das pessoas sobre poder ter um comportamento livre para fazer o que quiser”, argumenta.

“E, claro, também trazer pra nós, homens, a discussão dessa masculinidade, como ela é formada, dessas intencionalidades de raça, também, que esse caso abrange, né? Porque se ela fosse uma inglesa, branca, CEO, dona de uma de multinacional, será que ele faria essa piada desse jeito?”, provoca.

O ativista lembra que, durante o processo, o médico teve inúmeras oportunidades de se retratar, fato que dificilmente ocorreria se alguém nascido em algum outro contexto, menos favorecido, fosse o personagem principal do incidente.

“Ele teve a primeira oportunidade com o Fabio, mas respondeu pessimamente. Ele teve umas cinco chances e a questão foi escalonando, porque a primeira resposta foi péssima, por texto; depois ele gravou um vídeo e foi péssimo; depois ele botou a irmã pra defender e também foi péssimo; depois botou a mãe, da mesma forma. Depois, ele foi lá com a menina, constranger ela de novo, e encostou nela. Olha a quantidade de oportunidade de acerto que essa pessoa tem!”, reforça.

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Ataques

Fabio Iorio conta que, após a exposição nas redes digitais, passou a sofrer ataques, principalmente de defensores do médico, que reúne cerca de 1 milhão de seguidores nos canais de comunicação, mas também foi apoiado por uma rede ainda maior.

“Comecei a receber uma enxurrada de mensagens, de pessoas que gostam muito dele, dizendo que eu estava destruindo uma família, dizendo que era invejoso, que iria para o inferno, que tenho coração ruim e que sou uma pessoa maldosa. Só que essas agressões não são nem 10% das outras milhares de mensagens que recebi agradecendo por ter denunciado”, lembra.

Segundo ele, grupos feministas também passaram a apoiar a iniciativa de expor o caso sobre outra ótica. “Mulheres incríveis entraram em contato comigo, uma atrás da outra… Foi muito bom isso. Não é por mim, mas por elas, né? Porque aí elas passam a ganhar um protagonismo, a partir do momento em que isso foi levado para outros grupos. Já valeu trazer isso para a pauta, para a discussão, tanto no Brasil quanto fora dele”, avalia.

Para Isuperio, a lição que fica é sobre respeito e mudança de pensamentos machistas. “O debate da questão da roupa da mulher, para ela ser violentada, cai por terra, né? Porque a mulher está toda vestida ali. Acredito que seja uma ótima oportunidade para a gente trazer esse debate, por isso que quando fiz o post também estou falando de nós, homens, não estou falando ‘esse cara é escroto’: estou falando na primeira pessoa, porque esse é um sistema no qual a gente está todo mundo enfiado. E, se a gente não mudar, não rola”, finaliza.

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Entenda

Victor foi preso no último domingo (30/5), no país africano. No vídeo que viralizou nas redes sociais e motivou a prisão, o médico fala a uma vendedora: “Elas gostam é do bem duro. Comprido também fica legal, né?”. A atendente sorri durante a fala do turista, aparentemente sem entender o duplo sentido das frases.

O caso aconteceu em 24 de maio. No dia seguinte, após repercussão negativa, o médico retornou ao estabelecimento para pedir desculpas à mulher egípcia.

“Entre as brincadeiras, houve uma brincadeira de mau gosto com mulheres, e que eu faço com minhas amigas, meus familiares, no Brasil. Mas com quem a gente não conhece as pessoas ficam assim: ‘Poxa, ele foi ruim, foi uma pessoa má com ela. Foi uma brincadeira deselegante’”, disse, ao lado da mulher.

Sorrentino tem quase 1 milhão de seguidores. Embora seja médico, é negacionista da ciência e defensor do tratamento precoce contra a Covid-19.

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