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Em comum, todas elas nasceram a partir da virada da audaciosa década de 1920 e se enveredaram pela arte de representar. Dez damas brasileiras dos palcos, das telas e dos estúdios de tevê envelheceram, com dignidade, diante de um público boquiaberto com tanto talento. Algumas estão afastadas e enfrentam problemas de saúde típicos da terceira idade. Outras estão esguias e na ativa, espalhando a fome de viver.

 

O Metrópoles fez um panorama na vida e na carreira de Beatriz Segall, Berta Loran, Bibi Ferreira, Eva Todor, Eloísa Mafalda, Fernanda Montenegro, Maria Fernanda, Nathalia Timberg, Ruth de Souza e Tônia Carrero.

 

Berta Loran, 90 anos

Uma das maiores comediantes do país, Berta Loran comemora 90 anos cheia de mimos. Ganhou um livro-homenagem assinado pelo jornalista João Luiz Azevedo. Em forma de perguntas e respostas, a obra “Berta Loran – 90 anos de Humor” é um passeio sobre a história fantástica da menina judia nascida em Varsóvia e vinda ao Brasil, em 1937, fugida do nazismo.

Com vitalidade e memória impressionantes, Berta Loran fez shows no começo do ano e inaugurou uma exposição de fotografias sobre a sua história. Aposentada pela TV Globo, em dezembro de 2015, participou do quadro “O Grande Plano”, ao lado de Elke Maravilha e Vilma Nascimento, no “Fantástico”. Está no ar no Canal Viva nas reprises de “A Escolinha do Professor Raimundo”, como a impagável portuguesa Manuela D´Além-Mar, e de “Viva o Gordo”.

Berta começou menina apresentando-se nas comunidades judias. Tem carreira brilhante no teatro em comédias e musicais, como “Como Vencer na Vida sem Força”, ao lado de Marília Pera, e “As Tias”, de Mauro Rasi. No cinema, a passagem pelas chanchadas é marcante.

Você pode perder apartamento, joia, dinheiro, e até um grande amor. Trinta anos depois, quando você o reencontra, dará graças a Deus que o perdeu. Agora, o humor não pode ser perdido. Humor é tudo na vida"
Berta Loran

Beatriz Segall, 90 anos

Madame Beatriz Segall, uma das grandes damas do teatro brasileiro, acabou de completar 90 anos, com uma festança que movimentou a casa da atriz no Morumbi. Políticos, como José Serra e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, e atores, a exemplo de Herson Capri e Juca de Oliveira, foram celebrar a vitalidade da intérprete da personagem icônica Odete Roitman (da novela “Vale Tudo”).

Mulher forte dentro e fora do palco, Beatriz Segall emenda projetos no teatro. Ano passado, ela comemorou 89 anos, no palco, no badalado “Nine – Um Musical Felliniano”, da dupla Cláudio Botelho e Charles Moeller.

Com passagens pelo Teatro Oficina, onde fez “Andorra”, em 1966, e na companhia Os Artistas Unidos, de Henriette Morineau, Beatriz Segall coleciona um repertório teatral impecável.

Acredito mais em mim do que acreditava antes, testei minha dimensão (como atriz e como pessoa) ao longo desses anos e agora tenho outra percepção do mundo. A idade me trouxe lucros, minha autoestima aumentou"
Beatriz Segall

Bibi Ferreira, 94 anos

William Aguiar/Reprodução

Em maio deste ano, Bibi Ferreira esteve em Brasília interpretando o repertório de Frank Sinatra no Centro de Convenções Ulysses Guimarães. Dona de uma voz potente, Bibi é uma das artistas mais completas em atividade no Brasil. Além de cantar divinamente, interpreta e dirige, atividades que diminuíram de intensidade diante da agenda repleta de shows dentro e fora do país. Em 2017, Bibi planeja dirigir a ópera “O Barbeiro de Servilha”.

Filha do mito Procópio Ferreira, um dos maiores atores brasileiros do século 20. Bibi Ferreira começou nos palcos ainda menina. Ao lado do pai, emendou comédias de sucessos como “O Divórcio”.

Em sua carreira, estão os grandes musicais “My Fair Lady” e “Gota D´Água”.

A força vem da saúde física e mental, da boa memória e das pernas. Vem de gostar de estar no palco e de levar ao público o produto do autor"
Bibi Ferreira

Eva Todor, 95 anos

Eva Todor enfrenta a doença de mal de Parkinson e está afastada temporariamente das novelas. A última foi “Salve Jorge”, de 2012. Viúva e sem filhos, vive cercada de cuidados de três enfermeiras e do seu motorista, Marcos Otaviano, que a acompanha há 25 anos. A TV Globo mantém contrato vitalício para a primeira-dama da comédia ligeira.

Recentemente, a atriz Alcione Mazzeo postou fotos do aniversário do colecionador Marcelo Del Cima ao lado de Eva Todor e Nathalia Timberg. Eva aparece bem na imagem. Nos planos, planeja uma festa de 100 anos e a volta ao trabalho.

Eva Todor é uma lenda vida do teatro brasileiro. Nascida em Budapeste (Hungria), chegou ao Brasil aos 9 anos de idade. Ao lado do marido e empresário Luís Iglesias, formou uma das principais companhias teatrais da primeira metade do século 20, consagrando-se como intérprete de papéis femininos leves em comédias de costumes. Fundou também a companhia Eva e seus Artistas, atuando ao lado de grandes nomes como André Villon, Jardel Jércolis, Elza Gomes e Henriette Morineau.

Com a modernização do teatro brasileiro, na segunda metade do século 20, Eva amadureceu como atriz em espetáculos ousados. “De Olho na Amélia”, de Georges Feydeau, de 1969, por exemplo, valeu o Prêmio Molière de melhor atriz.

Dentro do meu gênero, eu sou a primeira-dama"
Eva Todor

Eloísa Mafalda, 91 anos

Sob os cuidados da filha Mirian, enfermeira, Eloisa Mafalda recupera-se da perda de memória provocada por uma esclerose. A atriz mora em Petrópolis numa casa em frente à Mata Atlântica e mantém um ritmo de recuperação significativo. Em 2009, a filha chegou a declarar que ela só se lembrava de amenidades. Ano passado, Eloísa já dava entrevistas em que dialogava com algumas personagens importantes da marcante carreira, sobretudo, na tevê.

Eloísa foi cria do radioteatro e, logo, migrou para as telenovelas. Fez a primeira Nenê de “A Grande Família”, e acumulou papéis inesquecíveis, como Maria Machadão, de “Gabriela”, e Dona Pombinha, de “Roque Santeiro”. O último trabalho foi em 2002, na novela “O Beijo Do Vampiro”. Atualmente, pode ser vista na reprise de “Mulheres de Areia”, no Canal Viva.

Quem a visita sempre é o amigo e parceiro de cena Ary Fontoura, que sempre posta imagens nas redes sociais.

Maria Machadão foi uma das poucas coisas que gostei de fazer na TV. A postura, o olhar, as sobrancelhas raspadas. Uma personagem de composição. As outras quase sempre tinham algo de mim. A Machadão, não. Era maravilhosa"
Eloísa Mafalda

Maria Fernanda, 88 anos

Filha da poetisa Cecília Meireles, Maria Fernanda anda reclusa dos palcos, mas respira teatro. Diminuiu a produtividade teatral intensa nos anos 1990. Recentemente, foi jurada da versão carioca do Prêmio Shell. Discreta, teve seu nome à revelia associado aos noticiários por conta da disputa familiar pelo espólio da obra da mãe.

Maria Fernanda tem uma carreira teatral singular, trabalhando com grandes diretores brasileiros. Começou como Ofélia em “Hamlet” no Teatro do Estudante, de Paschoal Carlos Magno, em 1948. Ganhou todos os prêmios, em 1962, pela atuação em “Um Bonde Chamado Desejo”, com direção de Augusto Boal. Na tevê, teve trabalhos memoráveis em “Gabriela” e “Dona Beija”.

Ruth de Souza, 95 anos

Divulgação
A atriz está sendo homenageada no CCBB Brasília na retrospectiva cinematográfica “Pérola Negra”. Considera-se aposentada e está lúcida e bem de saúde. Ruth coleciona também trabalhos memoráveis na tevê e no teatro. Historicamente, ela está na fundação do Teatro Experimental do Negro (TEN), idealizado pelo mestre Abdias do Nascimento. Foi a primeira atriz negra a pisar no elitizado palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, com “O Imperador Jones”, em 1945. Foi ainda pioneira, como intérprete negra, na telenovela, “A Cabana do Pai Tomás”.
A dedicação ao teatro a fez trabalhar em diversas companhias e com diretores renomados em personagens cobiçados. Um dos destaques foi “Oração para uma negra”, de William Faulkner, de 1959, pela companhia Nydia Lícia – Sérgio Cardoso, A obra lhe rendeu os principais prêmios da temporada teatral.

Coloco-me no patamar de Teresa Rachel, Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg"
Ruth de Souza

Tônia Carrero, 93 anos

Cercada de carinho pela família, sobretudo o filho Cecil Thiré, Tônia Carrero enfrenta uma hidrocefalia genética, que compromete a habilidade da fala e a ação motora. A atriz, no entanto, está lúcida e volta e meia aparece nas redes sociais dos netos e amigos em celebrações íntimas. A família a mantém reclusa, com saídas para banhos de sol e a intérprete segue com saúde estável.

Em julho, a atriz Maria Zilda publicou uma foto ao lado de Tônia no Instagram.

A carreira de Tônia Carrero é deslumbrante e passou por transformações de maturidade no palco. Apontada como uma das mulheres mais belas dos palcos e das telas brasileiras, Tônia se desconstruiu em cena. Pela primeira vez, encenou “Navalha na Carne’, de Plínio Marcos, em 1968, desafiando a censura e mostrando que era capaz de viver uma prostituta decadente. Fez uma Neusa Sueli que arrancou elogios da crítica e lhe rendeu prêmios, situando num outro patamar de atriz.

Tônia Carrero tem uma carreira teatral de repertório ao lado de parceiros como o ator e diretor Paulo Autran e o diretor Adolph Celi, com que foi casada. Sempre optou pelo teatro em detrimento ao cinema e à teve. Um dos marcantes trabalhos nos palcos foi o delicado “O Jardim das Cerejeiras”, ao lado de Renato Borghi, em 2000. Manteve-se produtiva até 2007, quando fez “Um Barco para o Sonho”

Vivemos num país sem memória, sem história e a gente tem que provar diariamente que está viva"
Tônia Carrero

Nathalia Timberg, 87 anos

Nathalia Timberg não para de trabalhar. Emenda filmes, novelas e peças teatrais. Esteve em “Babilônia” num papel histórico formando par romântico com a amiga Fernanda Montenegro. Juntas, deram um beijo lésbico que abalou os conversadores e selou uma parceria teatral iniciada nos anos 1950. O lugar de criação de Nathalia é o teatro. Neste ano, ganhou um espaço com seu nome no Rio de Janeiro e estreou a peça “33 Variações”. Em julho, foi a grande homenageada do Prêmio Aplauso Brasil de Teatro.

A mulher de 80 anos hoje representa a de 60 anos do passado. Eu mesma dirijo meu carro para cima e para baixo"
Nathalia TImberg

Fernanda Montenegro, 86 anos

A atriz brasileira de maior renome internacional (do Oscar ao Emmy) é um vulcão que não para de jorrar energia. Em setembro, volta a estrear “Viver sem Tempos Mortos”, monólogo sobre a troca de correspondências entre Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre, que já correu o país. Desta vez, vai montar sem recursos públicos. Só com a bilheteria. Nesta semana, Fernanda ganhou os holofotes na abertura das Olímpiadas do Rio. Ao lado da atriz Judi Dench, ela recitou o poema “A Flor e a Náusea”, de Carlos Drummond de Andrade. As vozes das duas ecoaram no Maracanã num momento de reflexão ao meio ambiente.

Tudo que me cerca é fruto de muito trabalho. Pago o preço justo"
Fernanda Montenegro


 


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