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Mãe de quatro. Uma escadinha iniciada com o caçula, de 5 anos, e finalizada com a mais velha, de 13. Essa é a produtora de audiovisual Juliana Matos, 33 anos, que partiu há três semanas para uma viagem de 57 dias à Índia. CIN-QUEN-TA E SE-TE dias.

Muito mais do que delegar os cuidados com as crianças enquanto estiver fora, Juliana precisou aprender a abrir mão do controle e a lidar com a autorrecriminação e os julgamentos alheios. Na entrevista abaixo, ela conta como foi o processo:

Fale um pouco sobre a sua relação com a Índia. Por que decidiu fazer essa viagem?

Fiz um intercâmbio para o Canadá e conheci indianos. Ficamos amigos, trocamos informações sobre nossos países e, desde então, a Índia ficou no top 5 dos lugares que eu gostaria de conhecer antes de morrer. Com a minha busca pessoal por autoconhecimento cheguei ao Prem Baba, em 2012, e a conexão com esse país se intensificou. Em 2017, surgiu a oportunidade de acompanhar a temporada dele na Índia. Neste ano, vim totalmente a serviço.

Então, esta não é a primeira vez que você fica longe das crianças, certo? Como foi no ano passado?
Antes de ir, ainda durante os preparativos da viagem, me senti desafiando a mim mesma. Abrir mão do controle não é uma tarefa fácil, mas, para viver a experiência e poder estar onde estou hoje, eu precisava deixar a crença de que só eu sei cuidar dos meninos. Pensei em desistir várias vezes. Bateu uma ansiedade, um medo. Tudo fruto da minha imaginação controladora.

Arquivo Pessoal

Juliana abriu mão do controle da rotina dos filhos e foi passar 57 dias na Índia

 

E como foi essa mudança?
Durante a viagem (26 dias no total), eu fui me dando conta de que todo aquele medo, ansiedade e desconfiança só existiam na minha cabeça. Eles sentiram saudade. Eu também. Mas fomos lidando dia a dia. Sentir falta não é algo ruim, tem amor envolvido. Eu pude notar o quão a nossa conexão é forte, fazemos um lindo trabalho em equipe.

Muitos dos seus seguidores (Juliana conta as peripécias da família no Facebook, YouTube e Instagram) te criticaram por você estar deixando seus filhos tanto tempo. O que esse tipo de comentário revela sobre o papel da mulher/mãe na nossa sociedade?
Quando eu uso a palavra “sociedade”, me refiro a um grupo de pessoas que carrega uma energia venenosa do passado, incapazes de questionar modelos. Para elas, os filhos são responsabilidade apenas da mãe. Isso gera uma perpetuação desse padrão. Vamos acreditando nisso, de geração em geração, e vendo mulheres aprisionadas em um aspecto único de tudo que significa ser mulher. Isso aprisiona e não promove o equilíbrio, atingindo a vida dos filhos também.

Mas você também já se sentiu culpada, certo? Como aprendeu a lidar com isso?
Eu costumo dizer que pari quádruplos. Um processo de renascimento deles como indivíduos, com necessidades que vão além das minhas e dos meus mecanismos de controle. Tudo começou com a separação e a guarda compartilhada, uma decisão minha e do meu ex-companheiro. Achamos que seria o melhor para os meninos – igualmente conectados a nós dois. Com isso, me vi uma semana com eles, outra sem. O começo foi muito doloroso. Eu não tinha controle do que comiam, dos horários, da rotina. É difícil largar o chicote, porque só recebemos um modelo. Questioná-lo traz julgamentos externos capazes de fragilizar e colocar o amor e o cuidado maternal à prova. Algumas desistem, outras resistem, outras sucumbem.

Qual a importância da rede de apoio para isso?
É fundamental – não só pra você sair sozinha ou como casal, mas também para te fazer companhia, te ouvir, te acolher. Criar a minha foi desafiador, pois significava pedir ajuda. Muito mais difícil, porém, foi delegar, entregar a situação e não ficar dando pitaco em tudo.

Como está a rotina das crianças nesse período?
Desta vez, os meninos estão com o pai, na minha casa. Embora ele incentive bastante essa minha busca por equilíbrio, acho importante deixar claro que ele não é minha rede de apoio. Ele é pai. Eu sou mãe. Temos a nossa rede de apoio. A minha melhor amiga e o marido dela, padrinhos de coração dos meninos, moram no prédio do outro lado da rua e apoiam sempre: mercado, trabalho em horários extracurriculares, almoço coletivo no final de semana, uma tarde de videogame, uma descida até a área de lazer. Durante minha viagem, tenho outras duas amigas nessa missão de visitar os meninos. Minha mãe assumiu a logística dos uniformes escolares e de outras demandas. Minha madrasta e meu pai estão em stand-by, para casos de emergências médicas ou recebê-los no final de semana.

Arquivo Pessoal

Tecnologia facilitou o contato entre mãe e filhos

 

E como você lida com a saudade?
Nos falamos por vídeo de duas a três vezes por semana. Na maioria das vezes, eles param o que estão fazendo por um ou dois minutos, conversam comigo e logo se despedem para voltar às atividades. Com a internet ficou fácil, né? Trocamos áudios quando sentimos necessidade. Respeitamos a saudade e lidamos com ela cada dia de uma forma, lembrando do caráter passageiro da distância.

Que conselho você daria para as mães que querem fazer uma viagem como a sua (ou de menos dias até), a trabalho ou lazer, e se sentem horríveis por isso?
Primeiro, observar quem se sente repreendida em não fazer o que o coração aponta como oportunidade. É você mesma ou são os outros e você tem medo disso? Depois, é preciso notar também a necessidade de controle. É saudável para a criança experimentar e conviver com diferentes formas de cuidado amoroso. Eles diferem bem e isso colabora para uma maturidade emocional. Depois, é preciso confiar no amor porque isso fica na memória



viagemíndiaJuliana Matos
 


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