Peças de brechó viram arte com as estampas coloridas de Isabela Bueno

Mineira radicada no Rio de Janeiro, a jovem ilustradora garimpa peças de segunda mão e as pinta de forma personalizada

atualizado 12/01/2021 12:23

Isabela Bueno usa calça e blusa brancas com estampas coloridas Lucas Rocha/@isabelabuenop/Instagram/Reprodução

Cores e formas dão vida a peças de brechó, sob o olhar e as mãos talentosas de Isabela Bueno. Mineira radicada no Rio de Janeiro, a jovem de 21 anos garimpa itens de segunda mão e os transforma em arte. Atualmente, ela vende os produtos customizados por meio do Instagram e também aceita encomendas específicas.

Vem conhecer!

Giphy/@isabelabuenop/Instagram/Reprodução

Isabela Bueno nasceu no município de Cataguases (MG), mas está na capital carioca há quatro anos. A artista é formada em fashion design pelo Istituto Europeo di Design do Rio de Janeiro (IED Rio). Ela também cursa comunicação social na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Simultaneamente, estuda direito na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (Puc-Rio).

A jovem se envolveu com a pintura de roupas em 2018, quando começou a frequentar brechós. “Surgiu a vontade de customizar as peças garimpadas para vender para alguns amigos e, com o passar do tempo, esse processo ganhou profundidade e se potencializou em outras facetas de criação”, relembra, em entrevista à coluna.

Com interesse na sustentabilidade e muita pesquisa, Isabela Bueno começou a se dedicar a cursos, exposições e demais projetos com foco no slow fashion, no upcycling e na pintura. “As camisas de segunda mão acompanharam toda essa trajetória, já que elas sempre foram a minha principal superfície e material de criação. Foi a partir delas que as pinturas e customizações se potencializaram e se expandiram para o universo das estampas”, conta.

Atualmente, a designer também trabalha com a estamparia digital. Com o método, transforma pinturas e desenhos em estampas que podem ser impressas em outras superfícies, como papéis de parede, painéis e até nos próprios tecidos.

Isabela Bueno com macacão pendurado na parede
Isabela Bueno tem 21 anos

 

Isabela Bueno
Formada em fashion design, ela customiza roupas artisticamente

 

Isabela Bueno
A jovem é mineira e mora no Rio de Janeiro

 

Ilustração de Isabela Bueno
Atualmente, ela também trabalha com arte digital

 

Confira detalhes:

Qual é a sua relação com a moda?
A minha relação com a moda foi, na verdade, uma surpresa. Veio de uma forma muito despretensiosa. O que eu reconhecia antes, desde criança, é que eu tinha vontade de criar, só que a vontade estava muito voltada, por exemplo, para o desenho, para a ilustração; e eu não tinha dimensão de que a minha criação um dia estaria tão conectada e tangenciando tanto o universo da moda.

Acho que o que aconteceu foi que, quando eu comecei a pintar as camisas de brechó, acabei me envolvendo com esse mercado de segunda mão e com uma moda mais sustentável, mais consciente, esse processo de ressignificação, de upcycling, de slow fashion. E isso tudo me abriu portas para querer entender mais e pesquisar. Também comecei a me interessar por produções de editoriais e campanhas, além de conhecer marcas e estilistas; estar inserida no mercado da moda, em geral. E estar com vontade de criar nesse mercado, mas também de uma forma diferente. 

Não é uma vontade de criar de forma massiva, com alta produtividade e alto consumo. Eu acredito muito mais na potência da moda que está surgindo agora de pessoas criativas que estão tocando seus projetos de uma forma mais autêntica e menos focada no mercado de moda tradicional. Eu tenho muita vontade de explorar mais o que vem surgindo: essa moda do futuro, com novas tecnologias, novos materiais, novas fontes de matéria-prima. O meu interesse vai muito para a criação, mas, ao mesmo tempo, eu tenho vontade de alinhar esse processo criativo com um novo mercado, uma nova visão, enfim, novos valores.

Isabela Bueno usa calça e blusa brancas com estampas coloridas
Isabela resgata peças em brechós desde 2018

 

Isabela Bueno usa calça e blusa brancas com estampas coloridas
A relação com a moda nasceu despretensiosamente

 

Camisa estampada pendurada em janela
Sustentabilidade, upclycing e slow fashion são pilares do trabalho de Isabela Bueno

 

Uma estampa é sempre diferente da outra? Como você definiria o seu DNA criativo?
As estampas são únicas porque são todas feitas à mão. Cada uma vai ter um traço. No momento de pintar, elas vão ter as suas diferenças. Não tem nenhum processo mecânico quando eu estou pintando, cada uma vai sair de um jeitinho. Mas ao mesmo tempo eu sinto que eu tenho um padrão, uma unidade entre elas. É possível perceber uma certa repetição de elementos. Uma questão forte também, que acho que é uma das coisas que mais me guiam, são as cores. Elas são, para mim, um caminho de criação. Eu sempre escolho a cor antes e depois vou escolhendo as formas. Na estamparia digital, acaba tendo uma repetição, uma produção em série, então, os produtos não têm a exclusividade de uma camisa, por exemplo.

Em relação ao meu DNA criativo, acho que o que me guia muito é estar sempre aberta. Não gosto de me prender muito a um estilo. Tenho um padrão e, paralelamente, sinto estar aberta a outros. Sempre estou pesquisando, gosto muito de consumir coisas visualmente. Pesquiso artistas, movimentos, fotografia, arquitetura. Tudo isso me influencia demais. 

Camisa branca estampada com pintura
As estampas são únicas

 

Camisa estampada
Todas são feitas à mão

 

Camisa branca estampada pendurada
“Gosto muito do tipo de criação em que você se sente livre e não se prende a algumas técnicas. Gosto de criar um estilo próprio e ter um traçado muito leve. Eu me distancio um pouco da técnica e talvez do realismo, não sou tanto dessa vertente”, explica Isabela Bueno

 

Arte colorida
As intervenções digitais também chamam a atenção

 

Como funciona o seu processo de produção? De onde vêm as suas referências e inspirações?
O processo de produção das camisas começa no próprio brechó, quando eu escolho as peças que vão virar a superfície de pintura. Normalmente, eu escolho camisas que são amplas, lisas e com tonalidades mais claras. Minha vontade é que o momento de pintar seja sempre muito espontâneo e livre. Eu acredito muito que esse sentimento despretensioso de criar é muito potente. Criar sem seguir muitos padrões, técnicas e planejamentos. Eu gosto de usar a roupa como uma superfície de experimentação e de materialização dessas ideias visuais. As camisas de brechó são as minhas telas favoritas.

Eu não tenho o costume de esboçar, de prototipar ou de criar um croqui de uma peça, porque eu acho que isso pode limitar a potencialidade de experimentação das cores e formas na pintura do tecido. É um processo muito interessante porque muitas vezes eu crio alguma coisa na camisa que depois vai se tornar uma estampa digital, ou uma ilustração digital, ou um desenho e uma pintura no papel. A camisa acaba sendo uma fonte de criação para outras superfícies e outros materiais. Mas nesse processo também acontece de eu transpor alguns desenhos ou algumas pinturas que são feitas, por exemplo, no papel ou digitalmente transponho para as peças.

E em relação às minhas referências e inspirações eu procuro estar sempre pesquisando e observando acontecimentos culturais, artísticos e do cotidiano que sirvam como uma fonte desse anseio de criar e recriar.

Atualmente, meu principal foco de pesquisa visual, em busca de referências e inspirações, é a produção artística e cultural de Cataguases, cidade em que eu nasci e que foi um expoente do Movimento Modernista Brasileiro na década de 1920. A arquitetura, os murais de azulejos, as esculturas e as artes visuais e a produção cinematográfica da cidade são inspirações para recriar a estética em pinturas e estampas. Pintar Cataguases é um exercício de redesenhar o visível e o imaginário dessa cidade que carrega simultaneamente a atmosfera interiorana e moderna.

Ambiente de arte
As cores são o ponto inicial do processo criativo

 

Quadro sobre cadeira
As referências vêm de muita observação e pesquisa

 

Modelo usando look branco com estampa
Camisas amplas, lisas e de tonalidades claras também são tela para a Isabela Bueno

 


Quais materiais você costuma usar?
Os materiais mais usados são as peças de brechó, normalmente camisas lisas, amplas e feitas de fibra natural, como algodão e linho. Mas também estou aberta e gosto de pintar acessórios garimpados, como bolsas e chapéus.

Para pintar as camisas, eu uso tinta acrílica específica para tecido. Para criação em papel ou tela, costumo usar tinta aquarela, acrílica, giz pastel seco e oleoso. Em alguns outros tipos de criação, eu procuro também reaproveitar materiais que seriam descartados, como os plásticos.


Como tem sido a recepção do público com os seus trabalhos?
Uma das coisas que mais gosto de todo o processo é ver e conhecer as pessoas que usam as camisas. Acho muito interessante que tem uma faixa etária muito ampla e uma diversidade muito grande de pessoas que se interessam, conhecem e consomem as minhas produções. E tem sido muito incrível perceber que tem crescido essa rede de pessoas para outros estados do Brasil.

Bolsa de brechó pintada à mão
Acessórios incrementam o repertório. Esta bolsa, por exemplo, foi garimpada em brechó antes de ser estilizada

 

Máscara colorida
Isabela também desenvolve obras com materiais que seriam descartados. Na foto, máscara confeccionada com plástico reciclado

 

Isabela Bueno segurando máscara
A produção responsável e o consumo consciente atraem a designer

 

Isabela Bueno usa a conta pessoal no Instagram para vender as peças customizadas. “Acredito que isso deixa todo o processo de comunicação mais humano, mais livre e espontâneo, e menos burocrático”, opina a artista. Por lá, também podem ser feitas propostas e orçamentos.

No caso de encomendas, o cliente entrega uma roupa própria. “Isso também estimula o prolongamento da vida útil dessas roupas, evitando o desperdício, o descarte e o aumento do consumo de peças novas”, destaca.

Ela também administra um perfil específico voltado para ilustrações em geral. Apesar do sucesso e da demanda significativa, a jovem não pretende investir em uma marca tradicional de moda.

“O meu desejo maior é criar coleções-cápsulas e projetos que englobem o universo da criação com menos rigor de prazos, alta produtividade e consumo, que normalmente vemos no mercado tradicional. Acredito e vejo mais potencialidade em uma produção que respeita o tempo do processo de criação, da inspiração, da pesquisa, e que está em mais harmonia com o consumo consciente”, finaliza.

 

Colaborou Rebeca Ligabue

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