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Há algumas semanas, sentei no consultório para o pré-natal meio chorosa. Minha obstetra, uma médica profundamente humana, quis logo saber o porquê.

— Sabe, é que eu já começo a ver os stories dos meus amigos em vários rolés para os quais não fui convidada…

— Nana, isso que você está experimentando é, infelizmente, muito comum e se chama solidão da mulher grávida.

Não sabia que alguém havia dado nome àquilo. Aparentemente, é normal, no curso da gestação, a mulher ser gradualmente excluída de seus círculos sociais. Isso não acontece com os homens esperando bebês. Para as mulheres, o fenômeno se intensifica depois de a criança nascer.

Esse isolamento da grávida já começa a preparar um terreno perigoso, podendo resultar em uma depressão pós-parto. Por isso, não seria legal que todos nós que amamos uma gestante trabalhássemos para ela não se sentir assim?

O mais curioso: tenho bons amigos. Eles são pessoas legais e não me excluem de propósito. Na verdade, depois de ter dado um “enquadro” nas minhas amizades mais íntimas, percebi que, às vezes, elas o fazem na tentativa de me proteger.

Por exemplo: já deixei de ser convidada para festas que iam começar muito tarde, não teriam hora para acabar, estariam lotadas e nas quais as pessoas iriam fumar e beber demais.

Minhas amigas, na cabeça delas, estavam me poupando. Mas, na verdade, ao não me chamarem, estavam tirando de mim um direito importante: o de escolher, por conta própria, qual lugar é ou não “de grávida”. E estavam me fazendo sentir pouco amada, meio “envelhecida”, como se eu tivesse me tornado um estorvo por estar gerando um bebê.

Se você tem uma amiga grávida, comporte-se como se ela não estivesse e deixe ela decidir e te dizer quais os limites. Principalmente porque cada gestação é uma, e cada corpo se porta de maneira diferente – eu, por exemplo, ainda consigo dançar até o chão em festivais de música, mas conheço mulheres que mal conseguiam ficar de pé por muito tempo aos sete meses.

Outra questão é quando pessoas dizem estar vivendo um momento muito diferente do meu e, por isso, não sabem como conectar a própria vivência à minha. Eu me senti bem “descartável” ao ouvir aquilo, como se meu valor como amiga acabasse por causa da minha “incapacidade” de compartilhar experiências comuns.

Esse, porém, é um problema bem fácil de ser desconstruído: muitas situações aparentemente opostas, à primeira vista, conectam-se de forma profunda ao campo emocional.

Tenho uma grande amiga que está se divorciando neste momento. Decidimos passar uma de minhas semanas de férias juntas e nos conectar profundamente enquanto ainda tenho esses tempos “livres”. Tanto eu quanto ela estávamos passando por uma crise existencial radical, sem saber como nos redescobriríamos em novos papéis: ela, no de mulher solteira, e eu, no de mãe. Vocês ficariam surpresos com quantas reflexões comuns e bonitas saíram dali! Até fizemos juntas uma aula de ioga meio pré-natal, meio antiansiolítica.

Finalmente, existe também a crença equivocada de que, porque a chegada de um filho é, na maioria dos casos, algo feliz, ela não é uma experiência difícil. Pois é a transformação mais radical e emocionalmente instável já vivida por mim. Por isso, sua amiga grávida não está em um céu particular no qual você não é necessária. Pelo contrário: ela precisa que sua amizade e seu amor a lembrem de que, não importa como a vida mudar, ela continuará, de alguma forma, a mesma pessoa.



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