Pressão ambientalista não abala o prestígio de Ricardo Salles no governo

Apoio da bancada ruralista, uma das maiores do Congresso, é a base da força do ministro do Meio Ambiente, resistente apesar de queimadas

atualizado 23/09/2020 11:55

Andre Borges/Esp. Metrópoles

As altas históricas nos incêndios florestais são as notícias mais chamativas do momento na agenda ambiental brasileira, mas as políticas governamentais para o setor têm sido alvo de fortes críticas desde o início da gestão Bolsonaro. Essas críticas, no entanto, não chegam a abalar o ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente, que conta com o apoio do presidente e pouca oposição no Executivo e na base aliada, ampliada pelo Centrão.

Avessos ao radicalismo, os parlamentares do Centrão têm sido determinantes para o afastamento da ala olavista do governo mas não se incomodam com a artilharia em cima de Salles. Deputados neogovernistas com os quais o Metrópoles conversou após o discurso de Bolsonaro na abertura da Assembleia Geral da ONU nesta quarta (22/9) concordaram com a tese de que há um exagero nas cobranças ao Brasil e um forte componente comercial no debate.

O único problema que o líder da bancada ruralista, deputado Alceu Moreira (MDB-RS), vê em Salles é a língua ferina demais. “O tom das palavras às vezes gera um ruído desnecessário. Ele não deixa de se contrapor quando é questionado na questão ideológica, mas é isso, não passa de uma guerra de palavras”, avalia o parlamentar, que coordena uma das maiores e mais poderosas frentes do Congresso, responsável pela indicação da titular da Agricultura, Tereza Cristina.

O presidente da frente que reúne 236 dos 513 deputados, incluindo o presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), avalia que o trabalho técnico de Salles é “muito bem-feito. É um dos ministros mais qualificados do governo e todas as decisões que tomou foram pautadas na lei, corretas”.

Questionado sobre as queimadas e o desmatamento, o parlamentar gaúcho não entrou no time negacionista, mas disse que atribuir a culpa ao governo é descabido. “Tem queimada criminosa com certeza, também não negamos isso, mas atribuir ao governo é forçar a barra. É um crime que sempre existiu, de difícil apuração por ocorrer em locais ermos. É algo para se combater, mas não com caça às bruxas”, completou.

Em muitos casos, os militares, ala mais pragmática do governo, também não veem em Salles um problema a ser resolvido, apesar de acharem que o ministro deveria falar menos. O grupo militar enxerga Salles como um importante defensor da soberania nacional e embarca na tese de que as críticas vindas sobretudo da Europa são parte de uma disputa geopolítica.

0

De fora, cobranças
Se Salles mantém o prestígio no governo, fora dele as críticas são cada vez mais intensas. Subindo o tom, o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio (PSDB), pediu a demissão do ministro, na terça (22/9), durante conferência com representantes de governos da Pan-Amazônia.

“Uma medida de boa vontade que ele [Bolsonaro] poderia dar é demitir imediatamente aquela figura nociva, que gastou 1% de seu orçamento em preservação, que é o ministro Ricardo Salles. Ele é um estorvo a qualquer tentativa de se mudar a política nefasta ambiental que hoje é praticada, oficialmente, pelo governo brasileiro”, disse.

A opinião foi ecoada por um ex-funcionário do governo, o físico Ricardo Galvão, demitido da direção do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) no ano passado após defender os dados divulgados pelo instituto das críticas feitas por Bolsonaro.

“Apesar do governo Bolsonaro, tem muitos grupos atuando na defesa do nosso meio ambiente, da Amazônia. Eu acredito que essa pressão nacional e internacional vai ter efeito, não vai ter como o governo resistir a isso. Vai chegar um momento em que ele não vai poder ficar mais só nas palavras. Eu espero que ele mude. E tem uma coisa que eu acho que o governo Bolsonaro não vai fazer, mas deveria, que é exonerar o Ricardo Salles imediatamente”, disse Galvão ao UOL.

Últimas notícias