Brasil vs coronavírus: o que pensam os ex-ministros da Saúde?

Gestores que ocuparam a cadeira de Luiz Henrique Mandetta entre 2000 e 2019 falam ao Metrópoles das dificuldades de se vencer o novo vírus

atualizado 22/03/2020 9:49

Ministro da Saúde durante coletiva sobre o coronavírusIgo Estrela/ Metrópoles

A pandemia de coronavírus, transmissor da Covid-19, não é a primeira emergência de saúde pública que o país enfrenta. A zika, por exemplo, mobilizou um sem-número de esforços em 2015.

Agora, o coronavírus desafia mais uma vez as autoridades brasileiras. A principal preocupação é construir uma estratégia que se mantenha sustentável mesmo com um aumento exponencial de casos e mortes.

A convite do Metrópoles, quatro ex-ministros da Saúde de diferentes governos avaliaram as medidas adotadas, o comportamento da sociedade e o que pode ocorrer durante a epidemia que, segundo o atual ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, ainda não atingiu o pico. Segundo ele, em abril os hospitais devem entrar em colapso.

Veja a seguir os principais pontos das entrevistas:

– Alexandre Padilha (2011-2014)

O ex-ministro da gestão Dilma Rousseff (PT) e criador do Programa Mais Médicos é categórico ao afirmar que, para qualquer política do governo funcionar contra o coronavírus, a população deve atender aos pedidos de isolamento social.

“Tem que se reforçar a orientação de que só procure o serviço de saúde se desenvolver sintomas agudos da Covid-19, como febre alta e dificuldade para respirar”, recomenda o ex-ministro e médico sanitarista.

O atual deputado federal por São Paulo ressalta a importância de doentes crônicos manterem os tratamentos, por exemplo, da diabetes e da hipertensão.

“Com doença crônica, há mais chances de ter a forma grave da Covid-19. O paciente precisa estar mais controlado ainda. Use os seus medicamentos, siga as receitas do seu médico e seja mais disciplinado. Quanto mais bem controlado, menor o risco”, frisa.

Ricardo Barros (2016-2018)

Coube ao ex-ministro do então presidente Michel Temer (MDB) o enfrentamento ao zika vírus, causador da microcefalia em recém-nascidos. A preocupação dele é a falta de recursos contra o coronavírus, como medicamentos e vacinas.

“Estamos tratando de um vírus novo que não tem medicamentos e que precisamos da imunidade de cada pessoa. A epidemia só acaba quando pelo menos 40% das pessoas tiverem tido contato com o vírus”, explica.

Atualmente, Barros, que é engenheiro civil, também ocupa uma cadeira na Câmara pelo estado do Paraná. Ele elogia Mandetta pela condução da crise.

“Esse tipo de situação sempre gera uma tensão no governo, contudo, o ministro Mandetta está conduzindo bem e de forma transparente todo o processo”, salienta.

– Barjas Negri (2002-2003)

O ex-ministro de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) teve de lutar contra um problema crônico para o brasileiro: a dengue. O atual prefeito de Piracicaba, no interior paulista, está preocupado com a inserção das políticas sanitárias por conta do tamanho do país.

“No Brasil, por ser um país continental e com grande disparidades regionais e sociais, exige-se mais cuidados e vigilância geral”, pondera.

Negri defende que o governo amplie os recursos para fortalecer o sistema de saúde. “Vamos precisar de novos investimentos para a retaguarda hospitalar e de emergência, que virá acompanhada de aumento de despesas com internação. Agilizar a liberação desses recursos é fundamental para o êxito dessas ações”, conclui.

– Gilberto Occhi (2018-2019)

O antecessor de Luiz Henrique Mandetta, último ministro da Saúde de Temer, defende que a reação do governo poderia ter sido antecipada. “Os assuntos já vinham sendo divulgados no mundo inteiro”, afirma.

Occhi defende que haja um alinhamento entre os governos federal, estaduais e municipais com todas as ações preventivas. “As medidas adotadas estão dentro daquelas possíveis, contudo, o controle da entrada de passageiros em todos os aeroportos e rodoviárias bem como o transporte coletivo são desafios a serem enfrentados”, destaca.

Ele finaliza com um apelo aos brasileiros. “O Brasil tem uma cultura cujo pensamento é: isto não vai me atingir. Isso acontece claramente com as campanhas de vacinação. Assim, se houver uma mudança cultural da nossa população, ajudará muito na prevenção desta pandemia. Temos exemplos no mundo inteiro onde a população atende as determinações do governo e dos órgãos de saúde. Não queremos mortes que possam ser evitadas”, ressalta.

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