Iniciativas mitigam escassez hídrica no sertão do Brasil

O Nordeste possui apenas 3% da água doce superficial do país. Projeto tenta garantir segurança hídrica para a população da região

atualizado 19/10/2021 21:15

Isadora Teixeira/Metrópoles

Enviada especial à Bahia e a Pernambuco – A água é um recurso escasso no sertão do Brasil. O Nordeste é a região do país que mais sofre com a falta do recurso hídrico. Lá, há apenas 3% da água doce superficial do território nacional. Para se ter uma ideia da discrepância dessa realidade em comparação com outras áreas, o Norte reúne 68% de toda a água doce do país, segundo o Ministério do Desenvolvimento Regional.

Ainda existem 35 milhões de pessoas sem acesso a água tratada no Brasil. Mas iniciativas mitigam, pouco a pouco, a escassez hídrica na região mais seca. É o caso do Pontal Sul, que garante um espaço com irrigação para que famílias sobrevivam e tenham uma fonte de renda por meio do cultivo de alimentos na caatinga.

O empreendimento foi inaugurado nesta terça-feira (19/10) pelo ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho. “O nosso compromisso é com a segurança hídrica do Nordeste brasileiro. Tudo tem a ver com a água, que rima com saúde, desenvolvimento, vida e melhoria de condições sociais”, disse o ministro.

O técnico em agropecuária Josias de Souza, 51 anos, chegou em Petrolina na década de 1980. Ele descreve que o cenário à época era bem diferente de sua realidade de hoje: “Passei muita necessidade morando em uma região árida. Agora, tenho o prazer de começar na agricultura irrigada. Me sinto muito realizado”.

Feliz com a produtividade da região, Souza faz uma analogia com a Califórnia, estado norte-americano com grande cultivo mesmo sendo um local muito seco: “É uma satisfação imensa Petrolina ser revelada ao mundo como a Califórnia brasileira”.

Nesta terça-feira, o pequeno agricultor beneficiado pelo Pontal Sul assinou contrato de financiamento com o Banco do Brasil para que possa instalar infraestrutura e ampliar sua plantação de frutas no terreno. Souza cultiva, principalmente, manga, mamão e goiaba.

Os terrenos irrigáveis do Pontal Sul são divididos em setores para colonos e em lotes empresariais. Atualmente, o empreendimento tem 16 localidades para agricultura familiar. No total, são 300 lotes, cada um com média de seis hectares.

Na parte agroindustrial, há 37 terrenos destinados para empresas, com média de 46 hectares cada. Do total, 19 já foram licitados e os 18 restantes passarão pelo mesmo processo. A Área Sul do Pontal custou R$ 700 milhões.

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Após a inauguração do Pontal Sul, o ministro Rogério Marinho assinou a ordem de serviço para o início da construção da Área Norte. O contrato, com valor total de R$ 117 milhões, foi assinado em julho deste ano. O Pontal Norte reunirá 60 lotes empresariais, com aproximadamente 40 hectares cada. Outros 280 terrenos serão destinados para famílias agricultoras – cada uma terá um espaço de seis hectares.

Além de distribuir água para os terrenos familiares e industriais, o Pontal também atende oito sistemas de abastecimento para comunidades circunvizinhas ao perímetro.

A entrega do Pontal Sul e o pontapé para as obras do Pontal Norte integram a programação da Jornada das Águas, iniciativa do Ministério do Desenvolvimento Regional que percorrerá 10 estados do país com entrega de empreendimentos e anúncios de novos investimentos relacionados à melhoria do abastecimento hídrico.

Necessidade

Em contraste com a vida dos grandes centros urbanos, a rotina de Manoel Inácio da Silva sempre foi em um cenário semiárido. Ele conta que passou seus 63 anos na área rural de Petrolina. Em uma roça de oito hectares, planta manga, goiaba, banana e macaxeira. Foi por meio de seu pedaço de terra que tirou o sustento para criar seus cinco filhos, e é por meio dele que ainda sobrevive.

“Nós precisamos de água para viver”, reforçou o pequeno agricultor, dando destaque para o recurso essencial à vida.

Manoel mora nas proximidades da região Pontal Sul. Ele espera ser contemplado pelo programa federal em breve, de forma que seu acesso à água, que tem sido cada vez mais difícil, seja garantido.

Do Sul ao Nordeste

Foi no interior de Pernambuco que Izanete Bianchetti Tedesco, 55, fez o próprio negócio. Ela saiu de Bento Gonçalves (RS) quando tinha 19 anos rumo ao sertão brasileiro. Demorou dois anos para se adaptar ao novo clima e a uma sociedade com linguagem e costumes diferentes do Sul.

Izanete levou a experiência com produção de vinho para o cenário de seca. Graças ao Rio São Francisco e com a ajuda da infraestrutura local, consegue colher duas safras por ano. “Se não tivesse o Rio São Francisco, não existiria nada disso. Não tem nada que produza se não irrigar. Então, dependemos do rio. Plantação de fruticultura é melhor”, assinalou.

A Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e da Parnaíba (Codevasf) é a responsável por gerir boa parte dos empreendimentos do governo federal no Nordeste. Presidente da Codevasf, Marcelo Moreira disse ao Metrópoles que o órgão também operacionaliza programas federais direcionados ao pequeno agricultor.

“Nós encontramos a demanda do pequeno produtor, fazemos a intermediação com o consumidor final e todo o recurso do ciclo fica com o agricultor”, afirmou.

Jornada das Águas

No primeiro dia da Jornada das Águas, na segunda-feira (18/10), o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) assinou o decreto que regulamenta a destinação de R$ 5,8 bilhões da capitalização da Eletrobras às bacias do Rio São Francisco e do Rio Parnaíba.

O presidente criticou a demora para conclusão da transposição do Rio São Francisco, que terá a última etapa do Eixo Norte inaugurada nesta quinta-feira (21/10), durante a programação da Jornada das Águas. O empreendimento começou há 13 anos, em 2008.

“O projeto de transposição durou muito tempo. Alguns governos fizeram uma parte, outros um pouquinho mais. Mas estava parado. A transposição estava com término previsto para 2012”, afirmou.

Nesta terça-feira, o Ministério do Desenvolvimento Regional abriu a licitação para contratação de estudos ambientais e do projeto básico do Canal do Sertão Baiano. O empreendimento deve beneficiar 1,2 milhão de pessoas, em 44 cidades do estado.

Segundo o MDR, o canal vai distribuir água do Rio São Francisco ao longo de 300 quilômetros do semiárido baiano. O recurso natural será captado no Reservatório de Sobradinho.

* Por questões de logística, a repórter viajou em aeronave da FAB. O Metrópoles arcou com todas as despesas de alimentação e hospedagem.

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