Empresários e políticos tomam vacina às escondidas, revela revista

Imunizantes beneficiaram cerca de cinquenta pessoas e as doses foram aplicadas após uma compra por iniciativa própria, sem o repasse ao SUS

atualizado 25/03/2021 14:01

Clesio AndradePEDRO FRANÇA/AGÊNCIA SENADO

Em meio à corrida para a vacinação no Brasil, a revista Piauí divulgou, nesta quarta-feira (24/3), que um grupo de políticos e empresários, a maioria ligada ao setor de transporte de Minas Gerais, e seus familiares tomaram, nessa terça-feira (23/3), a primeira das duas doses da vacina da Pfizer contra a Covid-19, em Belo Horizonte.

As vacinas beneficiaram cerca de cinquenta pessoas e as doses foram aplicadas após uma compra por iniciativa própria, sem repassar ao Sistema Único de Saúde (SUS). Já a segunda dose está prevista para daqui a trinta dias. As duas doses custaram a cada pessoa R$ 600.

De acordo com a revista, os organizadores da vacinação foram os irmãos Rômulo e Robson Lessa, donos da viação Saritur. As doses teriam sido aplicadas dentro da garagem de uma das empresas do grupo.

Outro agraciado pela vacinação foi o ex-senador Clésio Andrade (foto em destaque), ex-presidente da Confederação Nacional do Transporte (CNT). “Estou com 69 anos, minha vacinação [pelo SUS] seria na semana que vem, eu nem precisava, mas tomei. Fui convidado, foi gratuito para mim”, informou o político.

Outro parlamentar também também teria sido vacinado, segundo a Piauí: o deputado estadual por Minas Alencar da Silveira (PDT). Ele informou que já tinha sido infectado pelo novo coronavírus e negou que tivesse participado da imunização paralela. “Não estou sabendo, não. Até gostaria, mas estou com coronavírus, nem posso”, disse.

A responsável pela aplicação da vacina foi uma enfermeira que atrasou porque estava imunizando outro grupo na Belgo Mineira, mineradora que pertencente à ArcellorMittal Aços.

Em nota, a siderúrgica afirmou que nunca comprou nenhuma vacina para o combate da Covid-19. “A Abertta Saúde, empresa de gestão de saúde da ArcelorMittal, atua como posto avançado de vacinação do SUS junto às Secretarias de Saúde de Belo Horizonte e de Contagem. No entanto, a companhia desconhece qualquer atuação de seus profissionais em atos correlacionados à vacinação fora dos protocolos do Ministérios da Saúde e do Programa Nacional de Imunização (PNI).”

Lei que autoriza a compra de vacinas

Há cerca de 20 dias, o Congresso Nacional aprovou uma lei que autoriza a compra de vacinas pela iniciativa privada, mas a obriga a doar ao SUS todas as doses até que os grupos de risco, 77,2 milhões de pessoas, de acordo com o Ministério da Saúde, tenham sido plenamente imunizados em todo o país.

As vacinas compradas pela iniciativa privada também devem ser divididas meio a meio com o SUS, numa operação fiscalizada pelo ministério. A pasta foi procurada, mas ainda não respondeu ao questionamento da reportagem.

O projeto teve tramitação a jato no Congresso e, em uma semana, foi aprovado nas duas Casas. Dias depois, o presidente Jair Bolsonaro o sancionou. Até o momento, o Brasil vacinou menos de 15 milhões de pessoas.

O projeto aprovado pelo Congresso é de autoria do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), cuja família é do ramo dos transportes em Minas Gerais.

Procurado pela reportagem, ele respondeu: “Desconheço completamente esse assunto”.

Após a publicação da reportagem, o presidente do Senado afirmou que “a matéria não foi feliz quando me insere num fato do qual nem de longe participei e que, se existiu, não concordo. E a lei referida não admite vacinação privada, mas aquisição de vacina para doação ao SUS”.

A família de Pacheco administra duas companhias do ramo, a Viação Real e a Santa Rita, e tanto na Câmara, quando era deputado, quanto no Senado, ele atuou para defender o setor de transportes. O senador é autor da indicação do presidente da ANTT, agência reguladora do setor de transportes, mas o nome ainda não foi aprovado.

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