Bolsonaro: pai do presidente da OAB foi morto pelo próprio grupo

Enquanto cortava o cabelo ao vivo, o presidente sustentou que o pai de Felipe Santa Cruz teria sido executado pela própria Ação Popular

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atualizado 29/07/2019 17:21

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) disse, durante live no Facebook, nesta segunda-feira (29/07/2019), que o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, está “equivocado” quanto à morte de seu pai e alegou que ele não foi morto pelos militares, como defende o advogado. Enquanto cortava o cabelo durante a transmissão ao vivo, o chefe do Executivo federal sustentou que foi o próprio grupo de militantes antiditadura militar do qual Fernando Augusto Santa Cruz de Oliveira fazia parte em Recife, a Ação Popular Marxista-Leninista, que teria executado o pai do hoje presidente nacional da OAB.

Foi a segunda vez que Bolsonaro falou do assunto no dia. Pela manhã, ele já havia provocado o presidente da OAB, com quem vem tendo discussões públicas, afirmando que poderia explicar a Felipe Santa Cruz as circunstâncias da morte do pai dele, desaparecido durante a ditadura militar. O presidente reclamava da postura da OAB  referente à investigação do caso de Adélio Bispo, autor do atentado à faca contra Bolsonaro na campanha eleitoral de 2018.

“Por que a OAB impediu que a Polícia Federal entrasse no telefone de um dos caríssimos advogados [de Adélio]? Qual a intenção da OAB? Quem é essa OAB? Um dia, se o presidente da OAB quiser saber como é que o pai dele desapareceu no período militar, conto para ele. Ele não vai querer ouvir a verdade”, disse o presidente.

Fernando Santa Cruz desapareceu em 23 de fevereiro de 1974 depois de ter sido preso por agentes do DOI-Codi no Rio de Janeiro. Estudante de direito, ele era funcionário do Departamento de Águas e Energia Elétrica de São Paulo.

“Ele falava com muita gente da fronteira, conversava, e o pessoal da AP no Rio de Janeiro ficou estupefato, né. ‘Como que pode esse cara vindo de Recife se encontrar conosco aqui’? O contato seria com a cúpula da Ação Popular de Recife e eles resolveram sumir com o pai do Santa Cruz. Essa foi a informação que eu tinha na época desse episódio. Foi isso que aconteceu, não foram os militares que mataram ele não, está bem?”, disse o presidente da República, capitão reformado do Exército.

Defesa da ditadura

Na live, o presidente disse que é “muito fácil” culpar os militares “por tudo”, ao afirmar que Santa Cruz sabe apenas de uma das versões do ocorrido.

“Não quero quero polemizar com ninguém não, não quero mexer com os sentimentos do senhor Santa Cruz, não tenho nada pessoal contra ele. Mas ele está equivocado com uma versão apenas do fato, mas ele tem todo o direito de me criticar. Mas essa é a versão minha”, disse. “Imagina como estaria o Brasil hoje em dia”, continuou, insinuando que o país estaria muito melhor se o regime militar tivesse continuado.

Bolsonaro insistiu que não há como comprovar as mortes por militares, porque, segundo ele, a “esquerda” costumava “executar os delatores”. “A própria esquerda, quando desconfiava de alguém, simplesmente executava”, continuou. Ainda no vídeo, o chefe do executivo comentou que conviveu parte da infância com os filhos de Rubens Paiva – deputado federal cassado pela ditadura, preso em 1971 por militares que invadiram sua casa e desaparecido desde então.

O destino de Rubens Paiva, pai do escritor Marcelo Rubens Paiva, só foi conhecido 43 anos depois. Em março de 2014, o coronel reformado Paulo Malhães, em depoimento à Comissão Nacional da Verdade, informou que Paiva foi torturado até a morte e teve seu corpo jogado em um rio na região serrana do Rio de Janeiro.

Ustra e a “verdade”

No fim da live, Bolsonaro disse que, após exaltar o ex-militar Carlos Alberto Brilhante Ustra durante pedido de impeachment de Dilma Roussef (PT), em 2015, os brasileiros começaram a se interessar pelo regime militar e pelas “verdades” da época. “Depois daquele meu voto na transação da Dilma, (o povo) começou a se interessar pela verdade. “Será que éramos tão maus  assim?”, indagou o chefe do Executivo federal.

No momento em que fazia a live e cortava o cabelo, estava marcado um encontro com o ministro da Europa e dos Negócios Estrangeiros da República Francesa, Jean-Yves Le Drian, às 15h. Nem o Planalto nem o Ministério das Relações Exteriores informaram a razão do cancelamento do encontro.

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