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“Você e os Seus”, de Hong Sang-soo, é um novo capítulo de uma das filmografias mais potentes do cinema contemporâneo atual. Atração da mostra “Panorama do Cinema Mundial”, no Festival do Rio, o longa revela os movimentos de um diretor obcecado pelas miudezas dos relacionamentos. Desta vez, o sul-coreano explora as identidades metamorfoseantes de uma personagem boêmia e amigável. Para ela, cada encontro é como se fosse a primeira vez.

Os personagens do cineasta estão sempre entre conversas alegres regadas a soju (bebida tradicional do país), DRs intensas e encontros curiosos, ora românticos, ora surreais. Aqui, o diretor brinca com as diferentes versões de uma personagem. Se elas são reais, imaginárias ou lapsos de memória à la “Procurando Dory”, pouco importa.

Minjung (Lee You-young) adora sair e se divertir bebendo. Mas seu namorado, Young-soo (Kim Joo-hyuck), parece desconfiado. Ouviu de um amigo que Minjung anda exagerando na dose e arranjando conversa e confusão com outros homens. Eles dão um tempo depois que Young-soo a interroga com xingamentos. Depois, ele sofre. A mãe está doente, a namorada se afastou.

As incertezas do amor
A partir daí, Hong Sang-soo explora um divertido prisma de possibilidades a partir do comportamento de Minjung. É como se ela decidisse, de uma hora para outra, ser uma nova pessoa. Em diferentes momentos, é abordada por dois homens que alegam conhecê-la. Ela despista. Diz aos dois que eles devem estar enganados. Ainda assim, aceita conversar e tomar uns drinques. Os sujeitos, mesmo confusos, topam.

As incertezas de um primeiro encontro também são impostas a Young-soo, que acusou Minjung de uma porção de coisas confiando no testemunho (não ocular) de um amigo. Sang-soo nunca deixa claro se as múltiplas Minjungs são fabricadas pela cabeça carente de Young-soo ou inventadas pela própria personagem.

E reside aí o charme de “Você e os Seus”, mesmo para quem nunca viu um filme do diretor. A cada novo longa, Sang-soo parece lidar com um desafio: fugir da repetição dentro de uma mesma unidade dramática.

Divulgação

O diretor sul-coreano Hong Sang-soo: filmes inventivos sobre relacionamentos

 

Assim, ele consegue ir além de um simples rearranjo de assuntos. “Você e os Seus” lembra “Certo Agora, Errado Antes” na maneira como retrabalha a relação dos personagens com a sua própria imagem diante de outra pessoa. Mas o filme também leva adiante a questão da memória afetiva e suas ilusões, tão presente em “Montanha da Liberdade” e “Nossa Sunhi”.

Por um problema de distribuição, os trabalhos de Hong Sang-soo quase nunca estreiam em Brasília. “Certo Agora, Errado Antes” teve boa repercussão lá fora, foi comprado no Brasil pelo selo Zeta Filmes, mas não chegou à capital.

Mesmo assim, é um diretor que vale o esforço e o garimpo. Seus filmes saem dos festivais diretamente para as listinhas de “mais desejados” de muitos cinéfilos. E é bom correr atrás. Porque ele faz quase um por ano.

Avaliação: Ótimo

“Você e os Seus” ainda não tem data de estreia no Brasil

 

 

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