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O professor da Universidade de São Francisco e (agora) famoso quadrinista Nick Sousanis tinha em mente, quando escreveu sua tese de doutorado na linguagem dos quadrinhos “Desaplanar”, a possibilidade de que saiamos de um pensamento estanque, retilíneo, plano. O próprio projeto da tese (a primeira, neste formato, da universidade de Columbia, em Nova York) era a execução literal de suas ideias: Sousanis quis demonstrar que a linguagem justaposta dos quadrinhos, com texto e imagem, abria possibilidades diferentes de entendimento em relação às teses convencionais.

“Desaplanar” é isso, um belo experimento. Esta obra (publicada no Brasil pela Editora Veneta) terá lançamento nas 4as Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos da Escola de Comunicação e Artes da USP, que ocorre de 22 a 25 de agosto. Este é o maior evento acadêmico brasileiro para pesquisadores na área de quadrinhos, e Sousanis vem ao Brasil para uma conferência no dia 23.

Gostaria de me deter um pouco sobre “Desaplanar”, pensando mais como uma crítica de uma HQ do que de um trabalho de doutorado. Acho que o mérito acadêmico/teórico do trabalho deve ser discutido com mais profundidade em outro espaço. Porém, nada impede de pensarmos um pouco o impacto que uma obra tão exótica causa em uma primeira leitura.


Sousanis propõe um mergulho sensível na natureza da cognição e percepção humanas. Cada página possui um layout próprio. Seu pensamento é intencionalmente mutável, descentralizado, como num fluxo de associação livre. No começo, ele reflete sobre a estreiteza das dimensões; depois, pensa a natureza errática da visão e dos sentidos em geral. Ele passa pelos quadrinhos enquanto forma de arte capaz de “desaplanar” maneiras aprisionadas (e planas) de se compreender o mundo e passa a pensar em como podemos, por meio da imaginação, promover uma individuação (“despertar”).

A inteligência e erudição da tese é inegável, e a discussão sobre as possibilidades de interação entre palavra e imagem, muito valiosa. A comparação imediata é com o clássico “Desvendando os Quadrinhos”, a cultuada HQ teórica de Scott McCloud que usa de metalinguagem para procurar compreender a natureza comunicacional da nona arte.


Os quadrinhos de McCloud, porém, são muitos mais objetivos e claros em sua proposta teórica, além de ele ser melhor ilustrador. Mesmo não sendo um texto acadêmico (o que deixa sua teoria um tanto quanto “selvagem”), “Desvendando os Quadrinhos” conseguiu romper esta barreira e se tornou uma referência inevitável em estudos de Comunicação. O trabalho de Sousanis parece ir em direção contrária: foi gestado na academia, mas atinge o grande público.

O que parece fazer diferença é que Sousanis não apenas realizou uma tese em quadrinhos, mas também uma tese poética em quadrinhos. Em certo momento, não sabemos exatamente do que ele está falando, ou de como certas coisas se comunicam com as outras. Ao contrário de McCloud, Sousanis usa pouquíssimos exemplos dos quadrinhos, tornando-se difícil compreender as aplicações de suas ideias. Sua metodologia dispensa o rigor tradicional que estabelece um problema de pesquisa muito bem definido. Tudo leva a crer que a modalidade de pensamento que ele propõe para colocar em prática o “desaplanar” seja a poesia. Ele não afirma isso, mas o pratica. Daí o caráter fluido, onipresente e fragmentário da HQ.


Em certos momentos, o autor parece ter dificuldade em expressar ideias muito abstratas utilizando a linguagem dos quadrinhos. O diálogo com outros autores por vezes permanece no nível da ilustração. É irônico – já que ele defende a libertação do universo unívoco das palavras – que em várias páginas os desenhos sirvam apenas para ilustrar o que está escrito nos letreiros. E também que o sentido central da tese não saia da ideia de que a imaginação seria a chave para desbloquear os limites da percepção e da sensibilidade. Ora, Kant já afirmava que a imaginação está em jogo com a inteligência e o entendimento. Neste sentido, não há como deixar de notar a platitude de certas ideias de Sousanis. O final tem um quê de autoajuda.

Talvez, contrariando o que defende a tese, a linguagem dos quadrinhos simplesmente não seja tão adequada para expressar minuciosamente ideias teóricas quanto a linguagem verbal (dada a sua constituição naturalmente abstrata). A beleza da tese de Sousanis é justamente superar seu local de tese, e ir além. Ele defende que sentidos e linguagem participam de um mesmo fenômeno, e isso, sim, é visível em seu texto. A qualidade da linguagem poética, autorreferencial, é poder comunicar, justamente por estar em outra frequência da sensibilidade, algo que escapa às palavras. É o momento em que arte e pensamento devem virar uma coisa só. “Desaplanar”, mais do que uma tese com ideias revolucionárias, é uma história em quadrinhos que visa inspirar a autolibertação, e a beleza deste gesto, deste experimento, é inegável.

Nota:
Não posso deixar de lamentar aqui o falecimento, na última segunda-feira, do grande Álvaro de Moya (87 anos), notoriamente o maior pesquisador de quadrinhos do Brasil. Foi dele, por exemplo, a iniciativa de realizar, em 1951, a primeira exposição mundial de quadrinhos, feito pioneiro, assim como a organização do célebre “Shazam!” (1969), a maior referência acadêmica de pesquisa sobre o tema no Brasil. Álvaro ainda publicou inúmeros outros livros e escreveu para vários jornais e revistas sobre quadrinhos. Em 2011 foi convidado de honra justamente das 1as Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos da ECA-USP.

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