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Miguel Simão, mineiro de Araguari, se considera um artista brasiliense. Aqui na cidade, vem desenvolvendo carreira há exatos 25 anos. Formado na Universidade de Brasília (UnB) e atualmente professor de escultura da instituição, ele apresenta no Museu Nacional Honestino Guimarães uma antologia que ajuda a entender essa trajetória. “Aquários, Escafandros e Outros Dispositivos de Imersão” segue em cartaz até 29/4.

Os trabalhos recentes foram desenvolvidos em duas disciplinas da UnB: a regular Escultura 2 do Departamento de Artes Visuais, ao longo do segundo semestre de 2016, e um curso especial de férias durante os meses que se seguiram.

Uma verba oficial de R$ 150 mil, garantida via Fundo de Apoio à Cultura, possibilitou que o professor e seus alunos se dedicassem ao trabalho sem atropelos — e permitiu ainda que Miguel Simão estabelecesse para si novos horizontes no que se refere a materiais e escalas.

Nesse clima, o artista aceitou convite da coluna Plástica e nos recebeu para uma visita guiada à exposição na manhã de quarta-feira (12/4). Assim…


Bigorna sobre a água
Miguel Simão já começa a trabalhar do lado de fora do prédio, na praça do Museu Nacional, onde levantou um par de bigornas vermelhas. Uma está afixada dentro do espelho d’água, dando a falsa impressão de pairar sobre a mesma água que atrai eventuais garças perdidas na imensidão do Eixo Monumental.

A segunda bigorna está bem no alto da rampa que leva à sala principal do Museu Nacional. Também parece mínima perto da imensidão da arquitetura de Oscar Niemeyer, mas, à medida que vamos subindo a rampa, podemos entender melhor o gesto do artista.

Simão: “Este trabalho, quem assina é o Simon Coast. Ele é um personagem, o meu duplo, ou sei lá o quê. Ele tem uma pegada bem mais performática. Ele atinge os espaços públicos. Chama a atenção pela cor, como se fosse um marco na cidade. No alto da rampa, funciona como um portal para o museu. E as pessoas gostam para fazer fotos. Faz sucesso no Instagram.”


Catálogo de procedimentos
Entrando no Museu Nacional e chegando à primeira sala da exibição de Miguel Simão, o visitante é acolhido por um par de sapatos femininos. Sapatos de saltos impossíveis em seus 2m de altura. As esculturas híbridas, feitas em fibras de vidro, como as bigornas, têm um ar monstruoso com suas patas de bode.

Esse caráter fantástico segue firme um bocadinho mais adiante, numa vitrine iluminada, chamada “Repositório Infinito”, quando mudamos radicalmente de tamanho. Chegamos a objetos miúdos, esculpidos em materiais como cera ou madeira, numa escala de intimidade táctil muito cara a seu autor.

Simão: “Esta vitrine funciona como um catálogo de procedimentos, investigações de diversos materiais, poéticas acumuladas ao longo de meu trabalho. Dá uma ideia de como cheguei ao que faço hoje. Há inclusive projetos futuros aqui. Porque fabrico as coisas, estou no mundo da representação. Então estas peças estão aqui como obras e como a história daquelas obras que estão mais adiante.”


Estado mental da humanidade
Ali mais adiante. Entrando, na segunda sala da exposição, os objetos ganham luz própria. Quase literalmente. As peças em resina de poliéster são iluminadas por dentro, graças a pequenas lâmpadas led. As luzes reforçam as cores do material. Remetem a escafandros, dando título à mostra de Miguel Simão.

Remetem também a uma tradição milenar da escultura surgida ao mesmo tempo de forma independente em diferentes povos distantes pelo globo terrestre, da Oceania aos Andes, da África à Europa. A tradição de criar máscaras escultóricas para rituais.

Simão: “Meu trabalho concilia a tradição da escultura com a minha psiquê. Portanto, a condição humana está sempre presente. Cada peça representa um estado mental da humanidade. Como estas cabeças são todas ocas, como escafandros atmosféricos, a ideia é que você possa vestir essas peças para enxergar o mundo de forma alucinada através dos olhos desses personagens”.


“O começo e o fim”
Como se o nobre visitante vestisse um escafandro e saísse a percorrer o Museu Nacional com os olhos de Miguel Simão, atingimos a terceira sala de exposição. Uma sala escura, uterina, semelhante a uma caverna. Focos de luz individualizam e dramatizam cada objeto.

Assim encontramos materiais clássicos da escultura: madeira e pedra. Uma série recente de peças em mogno convive em caráter de antologia com formas criadas pelas mãos de Simão nas décadas de 1990 e 2000. No centro da sala, como a pulsar, uma peça em pedra de aluvião: “O Começo e o Fim” (2006).

Simão: “Esta é a minha gênese. É a minha base. É a chamada talha direta, um processo sem transferência mecânica. É a talha sobre um objeto inerte, seja pedra, madeira, chifre. E a isto que sempre volto para me reencontrar, recuperar minhas energias e entender o que faço, para poder depois sair novamente para o mundo”.


Estado presente
Saindo da sala escura e voltando ao corredor iluminado, dobramos à esquerda para encontrar o artista em seu estado presente. “O Ponto, a Linha e o Plano” (2017) é uma instalação que o mais assíduo frequentador do Museu Nacional já viu antes.

Embora talvez não a reconheça de imediato. Até há pouco ela fazia parte da mostra coletiva de arte brasiliense “Ondeandaaonda”. Mas ali estava no chão, espalhada sobre o carpete. Agora está refeita, de pé, encurralada num canto da passagem.

Simão: “Tenho sentido a necessidade de ocupar o espaço como um todo, de maneira poética e não apenas de maneira funcional. Como esta peça é feita de pequenos ímãs, arames de ferro e chapas de aço, ela não tem uma forma própria. Ela se adequa ao espaço que a recebe. Se eu a montar uma terceira vez, terá de ser de uma terceira maneira. Não poderá ser a mesma nem se eu quiser. Só de montar aqui neste espaço ela caiu umas quatro vezes. Ela traz uma instabilidade a meu trabalho, uma impermanência que é justamente o contrário do entalhe numa madeira”.


Porta entreaberta
E a quarta sala, por fim, se revela ao fim do corredor como um ambiente de pé direito mais alentado. Miguel Simão então pôde se espalhar — e erguer sete estruturas modulares verticais. Funcionam narrativa e simbolicamente como tótens. Em cada um dos patamares, pequenos objetos ecoam materiais, formas e temas já vistos nas salas anteriores.

Reiterando um imaginário que remonta a dois dos autores mais caros a Simão (a francesa Louise Bourgeois e o romeno Constantin Brancûsi), ao mesmo tempo em que amarram tudo o que já foi visto até ali, fechando a visitação como quem fecha um círculo. Mas ainda deixando a porta entreaberta.

Simão: “Sinto que tudo me conduzia a este momento. Aqui me aproprio de alguns objetos que eu tinha, que tirei do ateliê e recoloquei num novo arranjo, uma nova narrativa. Também criei objetos específicos para estes trabalhos. Eles formam narrativas dependendo da posição em que olharmos para o conjunto, narrativas que podem também ser mudadas a cada intervenção. Agora mesmo, durante o decorrer desta exposição, posso vir aqui e acrescentar ou tirar elementos. Já aconteceu. Nunca estará pronto.”

Museu Nacionalartes plásticasmiguel simão
 


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