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O presidente da República, Michel Temer (PMDB), disse à revista britânica The Economist que prefere ser um presidente impopular a um populista. “Apesar de Temer ficar como presidente menos de três anos no momento em que deve deixar o cargo, no início de 2019, ele diz que vai entregar ao seu sucessor um país que está ‘de volta aos trilhos'”, traz publicação que chega às bancas e assinantes no próximo final de semana. Esta é a primeira entrevista de Temer ao semanário especializado em economia e que já dedicou capas sobre o boom econômico brasileiro, em 2009, e, seis anos depois, à crise que assolou o País.

A abertura da reportagem traz que a situação de Temer poderia ser classificada como a de alguém que está pronto para “combate”. E traça um panorama do cenário político e econômico do País, dizendo que o Brasil precisa se recuperar da pior recessão já registrada em sua história, que aliados próximos ao presidente enfrentam acusações no maior escândalo de corrupção do País, que seu índice de aprovação é inferior a 30% e que muitos brasileiros consideram sua presidência como ilegítima.

“No entanto, durante entrevista com a The Economist, num sábado, num palácio presidencial quase deserto, Temer parecia qualquer coisa, menos estar em combate”, comentou o jornalista. A entrevista foi concedida no último sábado, 4, no Palácio do Planalto. O repórter descreve que o presidente o recebeu com o colarinho desabotoado, mangas puxadas até os cotovelos e relata que o ‘energético’ senhor de 76 anos não se perturba com o desprezo com que alguns brasileiros o tratam. Questionado sobre a frase “Fora, Temer!” pintada com spray em um viaduto sob o qual passa no caminho de sua residência oficial para o escritório, respondeu que se tratava de uma “prova da vitalidade da democracia”. “Ele poderia providenciar para que fosse pintado, mas não se importou com isso.”

A revista, então, descreve as circunstâncias que o levaram a ser presidente, cargo que não esperava ocupar. Até maio passado, ele era o vice-presidente, em grande parte impotente, de Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT), de esquerda. Temer assumiu quando ela foi acusada de manipular as contas governamentais e, para os aliados dela, é golpista. “Para muitos outros brasileiros, ele é um típico membro da classe política corrupta responsável por um vasto esquema de suborno centrado na Petrobrás, a empresa estatal de petróleo”, explicou a publicação. Dilma foi expulsa do cargo por causa desses escândalos de corrupção, embora ela não estivesse diretamente envolvida, e não pela questão técnica da qual foi acusada, diz a revista. Alguns pensam que a Presidência de Temer, segundo o semanário, também chegará a um fim prematuro.

Temer acredita que a história lhe dará razão. A The Economist conta aos britânicos que, membro do partido centrista do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), ele está conduzindo reformas no Congresso Nacional para eliminar os obstáculos que bloquearam o progresso do Brasil há décadas. “Como que para persuadir seu público de que o que parece fantástico é real, Temer enfatiza seus pontos com os gestos de um mágico de palco”, relata o jornalista. Seu governo aprovou uma emenda constitucional para congelar gastos federais em termos reais por 20 anos e, em breve, pretende reformar o sistema previdenciário. Essas medidas, conforme a publicação, ajudarão a conter o aumento da enorme dívida pública brasileira, uma das principais ameaças à sua prosperidade no longo prazo.

A oposição, explica a revista, é feroz, especialmente do PT e dos sindicatos, que afirmam que o governo está equilibrando suas contas nas costas dos pobres. Temer responde que, sem essa ação, o Governo Federal sofrerá o destino de Estados como Rio de Janeiro e Minas Gerais, “que estão praticamente falidos por causa de pensões públicas”. Ao semanário, o presidente aponta para si mesmo como um “exemplo claro de aposentadoria prematura”: ele tem recebido uma generosa pensão desde que parou de atuar como promotor em São Paulo há mais de duas décadas. Longe de ferir os pobres, as reformas protegerão “o futuro de todos os nossos programas sociais”, insiste. Foi nesse momento que disse preferir ser impopular a populista.

Até agora, o Congresso seguiu seus planos. O governo tem “uma base parlamentar extremamente sólida”, diz Temer. Encorajado por esse apoio, ele pretende começar um ataque às leis trabalhistas da era Mussolini. Ele está preparando um projeto de lei que pretende afrouxar as regras do mercado de trabalho. Em 7 de março, apresentou um plano para simplificar a legislação tributária. “Advogado constitucional por formação, Temer sonha em reformar o sistema político disfuncional do Brasil”, traz a The Economist. Apesar de seu sucesso no Congresso, ele, como outros presidentes, teve dificuldade em administrar uma assembleia composta de 28 partidos, muitos deles máquinas de extrair recursos. “O Brasil não tem partidos, só acrônimos”, reclamou.

Muitos brasileiros zombam da ideia de que Temer poderia ser parte da solução para os problemas do País. O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, apresentará em breve uma lista de políticos que pretende investigar como parte do processo do escândalo da Petrobras, no âmbito da Operação Lava Jato. Espera-se que eles incluam pessoas próximas a Temer, bem como figuras de partidos rivais, incluindo o PT. Separadamente, o Tribunal Eleitoral investiga se Temer e Dilma Rousseff se beneficiaram de doações desonestas na campanha de reeleição de 2014.

Um executivo preso na investigação Lava Jato testemunhou que ele e Temer tinham discutido sobre o tema. Os eleitores suspeitam que o presidente gostaria de frustrar as investigações que poderiam ameaçá-lo. “Talvez, mas ele dá uma boa impressão de ser seu maior fã. Lava Jato, diz ele, é o ‘melhor exemplo’ de um processo que está fortalecendo as instituições nacionais”, relata o repórter. Quanto ao caso da campanha à reeleição, ele diz ter “plena paz de espírito” e que todas as doações foram registradas legalmente.

 

 

 

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