Servidora se propõe a dar nova chance a dependentes químicos

Gianni Puglisi começou escrevendo um blog para entender os próprios sentimentos, criou um projeto público e hoje distribui seus livros

atualizado 22/09/2018 16:18

Filipe Cardoso/Especial para o Metrópoles

Quando se fala em dependentes químicos, a primeira imagem que vem à cabeça são viciados em crack, em situação de rua, abandonados pela sociedade. Poucos se lembram das pessoas que não conseguem se livrar de substâncias entorpecentes e seguem dentro de casa, desempenhando o papel de maridos, esposas, pais, filhos. Consomem drogas como cocaína, desaparecem durante a madrugada, mas às 8h estão de banho tomado, prontos para começar o dia.

E se os holofotes do governo e dos órgãos de saúde mal iluminam os dependentes, as famílias ficam cada vez mais negligenciadas. Muitas vezes responsáveis absolutas por uma situação que precisa de auxílio especializado, elas absorvem os problemas e deixam de viver para tentar ajudar o ente querido.

É o caso da servidora pública Gianni Puglisi, 40 anos. Dentro de quatro paredes, ela conviveu com alguns dependentes químicos e aprendeu, na marra, que é preciso se amar antes de ajudar ao próximo. Confusa com os próprios sentimentos, em 18 de maio de 2011, fez a primeira postagem no blog Amando um Dependente Químico, sob o pseudônimo Pollyana, para conversar consigo mesma sobre a recaída de um familiar.

“Foi o nome que me veio à cabeça por causa do livro Pollyana, em que ela fazia o ‘jogo do contente’. Era tanta coisa ruim acontecendo, mas muita coisa boa também. Conviver com a dependência química é algo doloroso, mas não apaga os momentos felizes. Às vezes, preferia mudar um pouquinho o foco e viver como a personagem”, explica.

Em apenas 15 dias, o espaço criado para desabafar recebeu 1 mil acessos. Foi quando Gianni percebeu fazer parte de um grupo enorme de pessoas que amavam dependentes químicos e precisavam de apoio e orientação. Encontraram em suas postagens um espelho da rotina exaustiva, da culpa, tristeza e tentativas de ajuda. Recebeu mensagens de todo o Brasil.

Já chorei, já corri atrás do carro, já gritei, já conversei, já abracei… Já fui até a ‘boca’ com ele para evitar que ele usasse muito. Já fiquei sem comer. Já passei noites em claro, olhando pela janela. Já rodei a cidade de madrugada, com meu bebê ainda pequeno, procurando por ele. Já registrei ocorrência em delegacia por desaparecimento dele. Já fiz busca em hospitais e IML, quando ele sumiu. Já menti para os outros. Já cobri dívidas sem poder e acabei me endividando. Adoeci. Um dia percebi que nada disso estava adiantando, simplesmente porque o segredo para se curar da dependência química não está nas minhas mãos e atitudes, e sim na vontade dele. Está no quanto ele quer isso. Sei que ele quer ficar bem, mas, até o momento, a vontade de se drogar tem sido maior, e eu devo respeitar isso. Não sou obrigada a conviver com isso, mas devo respeitar a escolha dele. Sou sim responsável pelas minhas escolhas. Hoje vejo isso: não está nas minhas mãos!

Gianni Puglisi

Empenhada em descobrir como se ajudar, a servidora pública procurou grupos de apoio. Lá encontrou acolhimento, pessoas que passavam pelos mesmos problemas e livros essenciais para entender a situação. Aprendeu com as histórias dos outros e também teve vários momentos para contar a sua. Descobriu ser possível sorrir mesmo amando um dependente químico.

Gianni fez também cursos on-line voltados à família e à dependência química. Depois sentiu a necessidade de passar o conhecimento adquirido a quem não tinha disponibilidade para estudar.

Logo as postagens do blog viraram livro. A história de Gianni seguia. Mais uma obra em seguida. A coletânea ganhou nome: Amando um Dependente Químico – Dias de Dor, Dias de Recuperação. “Muita gente não tem acesso à internet e achei que a publicação seria mais acessível. O começo é Dias de Dor, porque fala de cinco meses de recaídas constantes. Falei das experiências vividas, a dor envolvida e como superar o momento. E depois, nos Dias de Recuperação, eu já transmitia informação para as famílias em questão de tratamento, orientações de como se comportar diante de algumas situações. Sempre narrando a minha história”, lembra.

 

O livro e o blog foram ganhando seguidores e fãs – há muitas visualizações nos Estados Unidos e Rússia, por exemplo –, provando que falta informação para quem vive com dependentes químicos. Fazendo tanto sucesso, Pollyana foi abordada pelo governo em 2013 para criar uma projeto e atender a uma demanda.

Foi assim que surgiu o Ame, Mas Não Sofra. Até 2017, com a ajuda de voluntários, o Ame atendeu mais de 3 mil famílias com conforto, abraços, ouvidos, dados e informações. “Tivemos os melhores psicólogos e psiquiatras, mães que compartilhavam seus relatos, dependentes químicos em recuperação. Foi incrível”, conta a servidora. Apesar de a iniciativa não funcionar mais como projeto físico, Gianni continua ajudando quem a procura.

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“De tudo o que eu aprendi com essa jornada, considero que o mais importante é amar a si mesmo, cuidar de você, buscar ajuda pessoal. Se não nos fortalecermos, dificilmente poderemos ser úteis para estar ao lado de quem amamos. Quando a pessoa sai de casa, você não sabe se vai vê-la novamente, se vai ter recaída. É uma adrenalina constante, uma explosão de sentimentos, conviver com um dependente”, conta a servidora pública.

Ela explica ainda que a culpa é muito presente nas famílias, principalmente nas reincidências. As mães sofrem por acharem que deveriam ter feito algo ou erraram em algum ponto da formação dos filhos, mas a dependência química é uma doença reconhecida pela Organização Mundial de Saúde (OMS). “A gente não se sente culpado quando o outro está gripado ou tem um infarto, por exemplo. Não causamos a doença, não podemos controlá-la ou curá-la e, acima de tudo, não somos culpados. Quando aprendemos isso, não te digo que a dor passa, mas ela deixa de controlar a sua vida, deixa de ser o centro. E você passa a ter espaço para conduzir os próprios sonhos, desenvolver sua própria missão”, completa Gianni.

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