Suplemento de NAD⁺ alivia fadiga da Covid longa, sugere estudo de Harvard
Pesquisa feita por cientistas da Escola de Medicina de Harvard explora papel do metabolismo celular em sintomas persistentes da Covid
atualizado
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A Covid longa continua a ser um desafio deixado pela pandemia. Mesmo após a fase aguda da infecção, pacientes relatam sintomas persistentes que podem durar meses ou anos, como cansaço extremo, dificuldade de concentração — conhecida como névoa mental —, alterações do sono e queda importante na qualidade de vida. Até hoje, não existe um tratamento específico aprovado para essa condição.
Dentro desse cenário, pesquisadores da Escola de Medicina de Harvard, nos Estados Unidos, passaram a investigar o papel do NAD⁺ (nicotinamida adenina dinucleotídeo), uma molécula fundamental para o funcionamento das células.
O NAD⁺ participa diretamente da produção de energia, do reparo do DNA e da regulação de processos inflamatórios. Evidências científicas sugerem que infecções virais, incluindo a causada pelo Sars-CoV-2, podem reduzir os níveis dessa molécula no organismo, o que levantou a hipótese de que essa queda poderia estar relacionada à fadiga intensa e aos sintomas cognitivos observados na Covid longa.
A partir dessa ideia, cientistas testaram se suplementos capazes de aumentar os níveis de NAD⁺, como a nicotinamida ribosídeo (NR) — uma forma da vitamina B3 —, poderiam ajudar a aliviar parte desses sintomas.
Como o estudo foi conduzido
O novo estudo foi publicado em novembro na revista científica eClinicalMedicine. Trata-se de um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo — considerado um dos desenhos mais robustos em pesquisas médicas.
Os 58 participantes eram adultos diagnosticados com Covid longa, que apresentavam sintomas persistentes, especialmente fadiga e queixas cognitivas, mesmo meses após a infecção inicial.
Durante 10 semanas de estudo, parte dos voluntários recebeu diariamente nicotinamida ribosídeo, enquanto o outro grupo recebeu placebo. Nem os participantes nem os pesquisadores sabiam quem estava em cada grupo durante a fase de acompanhamento, o que reduz o risco de viés nos resultados.
Ao longo das semanas, foram avaliados níveis de NAD⁺ no sangue, segurança do suplemento e mudanças nos sintomas relatados pelos próprios pacientes, como cansaço, clareza mental, sono e bem-estar geral.
O que os pesquisadores observaram
Os resultados mostraram que a suplementação com nicotinamida ribosídeo foi capaz de aumentar os níveis de NAD⁺ no organismo, confirmando que o composto cumpre seu papel biológico esperado. Além disso, os pesquisadores observaram sinais de melhora em sintomas frequentemente relatados por pacientes com Covid longa, como fadiga persistente e sensação de “mente lenta” ou dificuldade de concentração.
Essas melhorias foram percebidas principalmente por meio de escalas clínicas e relatos dos próprios participantes, que indicaram redução do cansaço e impacto positivo na qualidade de vida ao longo do acompanhamento.
No entanto, quando avaliados testes cognitivos objetivos, as diferenças entre o grupo que recebeu o suplemento e o grupo placebo foram mais discretas, o que reforça o caráter preliminar dos achados. Do ponto de vista da segurança, o suplemento foi bem tolerado, sem aumento significativo de eventos adversos em comparação ao placebo, um dado importante para qualquer proposta de tratamento futuro.
Os próprios autores do estudo destacam que os achados devem ser interpretados com cautela. O número de participantes foi limitado e o tempo de acompanhamento relativamente curto, o que impede conclusões definitivas sobre eficácia.
Próximos passos
Os resultados não comprovam que suplementos de NAD⁺ tratam ou curam a Covid longa, mas indicam que essa pode ser uma linha promissora de investigação científica. Os especialistas reforçam que suplementos disponíveis comercialmente não devem ser vistos como solução comprovada para a condição e que qualquer uso deve ser discutido com profissionais de saúde.
Ainda assim, o estudo contribui para um entendimento mais profundo dos mecanismos biológicos envolvidos na Covid longa e aponta que alterações no metabolismo energético das células podem ter papel central nos sintomas persistentes.
A expectativa dos pesquisadores é que esses resultados sirvam de base para ensaios clínicos maiores, com mais participantes e acompanhamento prolongado, capazes de confirmar se o aumento dos níveis de NAD⁺ pode, de fato, ser traduzido em benefícios clínicos consistentes para pessoas com Covid longa.



















