Cientistas descobrem como parasita da doença do sono se esconde
Estudo identifica proteína que permite ao parasita escapar do sistema imune e pode ajudar no desenvolvimento de novos tratamentos
atualizado
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Pesquisadores identificaram como o parasita responsável pela doença do sono, o Trypanosoma brucei, consegue permanecer invisível ao sistema imunológico humano por longos períodos.
A pesquisa, publicada nesta segunda-feira (30/3) na revista científica Nature Microbiology, descreve o papel de uma proteína essencial nesse processo, chamada ESB2.
O estudo mostra que o microrganismo usa um mecanismo preciso para controlar quais proteínas produz dentro do organismo, o que permite que ele se disfarce continuamente e escape das defesas do corpo.
Como o parasita consegue se esconder
O parasita da doença do sono vive na corrente sanguínea e depende de uma espécie de “capa” formada por proteínas para escapar do sistema imunológico. Essa capa muda constantemente, o que dificulta o reconhecimento pelo organismo infectado.
O que chamou a atenção dos pesquisadores foi a forma como ele produz grandes quantidades dessas proteínas de defesa, ao mesmo tempo em que mantém níveis muito baixos de outras proteínas que fazem parte do mesmo conjunto de instruções genéticas.
A explicação está no papel da proteína ESB2, que atua diretamente nesse processo e funciona como um filtro altamente seletivo.
“Descobrimos que o segredo do parasita para permanecer invisível não é apenas o que ele produz, mas o que ele elimina. Ao atuar dentro da própria ‘fábrica’ de proteínas, ele consegue editar suas instruções genéticas em tempo real”, explica a pesquisadora Joana Faria, da Universidade de York, em comunicado.
Na prática, isso significa que o parasita destrói partes específicas do seu próprio material genético enquanto produz proteínas. Assim, garante que apenas as estruturas responsáveis pela camuflagem sejam geradas em grande quantidade.
Uma pista para novos tratamentos
A descoberta ajuda a resolver uma dúvida antiga da ciência sobre o funcionamento desse parasita. Até agora, não estava claro como ele conseguia controlar com tanta precisão a produção desigual de proteínas a partir de um mesmo conjunto de genes.
Com a identificação desse mecanismo, os pesquisadores passam a ter um novo alvo para o desenvolvimento de tratamentos. Interferir no funcionamento da proteína ESB2 pode tornar o parasita mais vulnerável ao sistema imunológico.
A doença do sono é transmitida pela picada da mosca tsé-tsé e, se não for tratada, pode atingir o sistema nervoso central. Entre os sintomas estão alterações neurológicas, distúrbios do sono, confusão mental e, em casos mais graves, coma.
Para os cientistas, entender como o parasita manipula seu próprio material genético pode mudar a forma como a infecção é estudada. “A sobrevivência de muitos organismos pode depender não só de como produzem proteínas, mas de como controlam e eliminam essas instruções”, afirma Joana.
Embora ainda sejam necessários novos estudos, os resultados ajudam a esclarecer um dos mecanismos mais sofisticados usados por esse parasita e indicam caminhos para futuras abordagens terapêuticas.
