Passo o ponto. Obras sem fim causam crise no comércio de Vicente Pires

Empresários da região fecharam lojas e demitiram funcionários. Enquanto isso, administração regional busca soluções

atualizado 19/01/2019 22:11

Em Vicente Pires, carros, tratores e carroças dividem espaço pelas ruas inacabadas. As obras na região trazem a esperança do fim do caos provocado pelas chuvas nas vias da cidade, mas o prolongamento das ações geram um outro alerta: o enfraquecimento do comércio local. Estimativa da Associação Comercial e Industrial de Vicente Pires (Acivip) aponta que, em 120 dias, cerca de 100 empresas fecharam as portas, 1.500 funcionários foram demitidos e 40% das vendas se perderam.

Segundo dados da entidade, são 3 mil companhias e 25 mil empregos diretos ou indiretos na região. Celso Silva, 39 anos, é um exemplo dos números apresentados. Ele gerencia uma padaria no cruzamento entre as ruas 3 e 4 – as mais afetadas pelas obras de ritmo inconstante. Nos últimos dois meses, precisou vender dois carros para tentar segurar as contas.

De acordo com Celso, as vendas na padaria caíram 70% devido à atividade de drenagem e pavimentação. Ele conta que os problemas nas ruas são grandes. Durante as chuvas, além dos buracos, a falta de asfalto faz com que veículos atolem ao tentar passar pelo local; durante a seca, a poeira se espalha. Agora, com as máquinas fazendo os trabalhos nas vias, o caos só aumentou.

Se eu tiver que fechar o negócio, não tenho planos. Estou perdido

Celso Silva, comerciante

Uma creche e escola na Rua 10 passa por esse e outros transtornos. Em 2018, 110 crianças entre 0 e 7 anos estavam matriculadas. Neste ano, o número caiu para 64. “Muitos pais reclamaram das ruas, pois não conseguem entrar com carro, e preferiram tirar os filhos daqui”, explica a coordenadora Maria de Fátima Caixeta.

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A educadora conta ainda que as aulas ocorrem simultaneamente aos ruídos e tremores causados pelas máquinas pesadas. O movimento de tratores e trabalhadores acontece em frente à creche. “É muito barulho. As crianças ficam distraídas e tossem por causa da poeira. Todos os dias, às 6h30, precisamos limpar a escola. Ao final do dia, fica parecendo que ninguém limpou”, completa.

“Como abrir uma porta que está repleta de poeira?”, questiona Adilson Braga, 50. Ele recentemente encerrou um negócio que durou quatro anos em Vicente Pires. “É desestimulante e fora de cogitação.” A distribuidora de pescados dele tinha seis funcionários, todos agora com dificuldades de encontrar novos empregos.

Não foram só seis pessoas, mas seis famílias afetadas com as demissões. O que está acontecendo por aqui é um descaso

Adilson Braga, comerciante

Os clientes sentem a falta do comércio vivo nas ruas mais afetadas, mas têm dificuldade até em se locomoverem pela região. “Dá um desânimo sair para as lojas”, expõe a professora Mirna Lima, 66. “O trânsito é péssimo e tem muita poeira. Com uma caminhada, minhas roupas já ficam sujas.”

Para outros moradores, atividades simples como sentar e comer com tranquilidade na cidade foram interrompidas. “Está caótico. Não dá para lanchar com tanta poeira ou lama”, diz Genuína Rodrigues, 25 anos, desempregada. “Chegar também é complicado. Poucos motoristas de aplicativo aceitam vir aqui quando está chovendo. Já ofereci até um valor maior na corrida, mas não teve como.”

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Ações emergenciais
O novo administrador regional da cidade, Daniel de Castro Sousa, afirma que a cidade ficou destruída e o setor produtivo está “agonizando”. Segundo ele, a situação de Vicente Pires é emergencial: “A comunidade cobra porque precisa”. “Uma coisa é certa: não tem faltado empenho dos órgãos do governo nos poucos dias de gestão. Todos os problemas em Vicente Pires têm urgência, e estamos buscando soluções.”

Ele explica que todos os contratos necessários para a continuação das obras estão estabelecidos e o pagamento já está acertado. O único impedimento no momento, de acordo com Castro, são as condições climáticas. As obras não podem acontecer no período chuvoso e devem retornar definitivamente apenas em março.

“Não podemos mais perder empresas e empregos para a cidade, pois isso afetaria a saúde e a segurança”, afirma o administrador. “Queremos um serviço de qualidade. As mudanças no planejamento são para ajudar os comerciantes”, alega.

A Secretaria de Obras e Infraestrutura afirmou ao Metrópoles que a previsão é as obras de pavimentação, drenagem e terraplanagem serem entregues em 2020. Neste ano, serão feitas entregas parciais. “O atual governo garante a continuidade e assegura que tomará providências para dar mais celeridade aos serviços”, disse a pasta por meio de nota.

Enquanto isso, o Governo do Distrito Federal (GDF) diz que foram adotadas algumas medidas emergenciais. A Agência de Desenvolvimento do DF (Terracap) possui um projeto de adequação do fluxo e otimização do comércio. Algumas pistas serão duplicadas e estacionamentos, ampliados.

Por sua vez, a Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap) informou que estão sendo realizados diversos reparos pontuais em diferentes trechos das vias do Distrito Federal. “Visam melhorar as condições de trafegabilidade durante o período chuvoso. Além de trechos de Vicente Pires, todas as demais regiões do DF serão atendidas.”

A empresa também colocou à disposição um telefone para a população informar locais que necessitam de reparos. O número da Ouvidoria da Novacap é (61) 3403-2626.

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