Putin ameaça cortar envio de gás natural à Europa nesta sexta. Entenda

Presidente russo anunciou que, caso países que sancionaram a Rússia não paguem pelo gás em rublos, contratos serão interrompidos

atualizado 31/03/2022 22:37

Instalações da estação de compressor de gás natural Mallnow da Gascade Gastransport GmbH. A estação de compressão em Mallnow, perto da fronteira germano-polonesa conflito ucraniaPatrick Pleul/picture alliance via Getty Images

O presidente russo Vladimir Putin anunciou nesta quinta-feira (31/3) que países “hostis” devem começar a pagar pelo gás natural com rublos, em vez de dólares americanos ou euros, a partir desta sexta-feira (1º/4). Aqueles que não cumprirem a determinação terão seus contratos interrompidos, segundo Putin.

“Para comprar gás natural russo, eles devem abrir contas em rublos em bancos russos. É a partir dessas contas que os pagamentos serão feitos para o gás entregue a partir de amanhã”, disse em uma transmissão de televisão.

Os países “hostis” a que Putin se refere são nações que aplicaram sanções contra a Rússia, como França e Alemanha. O gás russo responde por cerca de 40% do abastecimento da Europa.

“Se tais pagamentos não forem feitos, consideraremos isso uma inadimplência por parte dos compradores, com todas as consequências decorrentes. Ninguém nos vende nada de graça, e também não vamos fazer caridade – ou seja, os contratos existentes irão parar”, afirmou Putin.

Por que a Rússia quer receber em rublos?

A nova determinação de Putin é uma resposta às sanções aplicadas contra a Rússia desde o início da invasão da Ucrânia, em 24 de fevereiro. Em pouco mais de 30 dias, as sanções contra a nação cresceram 91%.

Ainda em fevereiro, o país foi excluído do principal sistema bancário global, conhecido pela sigla Swift, e experimentou desvalorização imensa de sua moeda. Nos últimos dias, o rublo reagiu, mas ainda segue com cotação mais baixa do que antes da invasão. Segundo o banco central russo, suas reservas – incluindo US$ 300 bilhões congelados no exterior – diminuíram de US$ 643,2 bilhões para US$ 604,4 bilhões entre 18 de fevereiro e 25 de março.

Para controlar a economia, o governo russo tem se esforçado para impedir que investidores e empresas vendam o rublo, enquanto tentam aumentar a demanda pela moeda. Assim, exigir o pagamento em rublos pressiona países ocidentais, apoiando assim o valor da moeda e criando um novo fluxo de dinheiro que possa ser usado pela Rússia facilmente.

Além disso, o país conseguiria financiar a guerra com seus próprios recursos e indústrias.

A ordem assinada por Putin estabelece que compradores devem transferir moeda estrangeira para uma conta especial em um banco russo, que então enviará rublos de volta ao comprador estrangeiro para efetuar o pagamento do gás. 

Europa descarta mudança

O anúncio não foi bem-recebido pelos países afetados, e na Inglaterra e Holanda, houve altas de 4% no preço do recurso desde então.

“Um pagamento com rublos não é aceitável”, disse o ministro da Economia alemão, Robert Habeck, na última segunda-feira (28/3). “Não seremos divididos, e a resposta dos estados do G7 é inequívoca: os contratos serão cumpridos.”

Executivos dos países europeus afirmam que levariam meses para renegociar termos dos contratos de fornecimento de gás com a Rússia. Alguns acordos têm duração até 2035. Entretanto, aceitar a determinação de Putin não está entre as opções, por enquanto.

“É importante que não demos um sinal de que seremos chantageados por Putin”, afirmou Habeck.

O primeiro-ministro italiano, Mario Draghi, também ressaltou que a troca na moeda seria “inaceitável e impossível”. “Todos os contratos estão feitos em cima de uma moeda geral, e não há como mudá-los. As dificuldades técnicas são insuperáveis”, disse.

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Busca por alternativas

A União Europeia pretende diminuir o consumo de gás natural russo em dois terços ainda este ano, enquanto se prepara para uma ruptura completa com a Rússia, o maior fornecedor do recurso. Entretanto, encontrar alternativas tem se mostrado um grande desafio logístico.

A Alemanha, a maior economia da UE e maior consumidora do recurso russo, e a Polônia já assinaram acordos com outros fornecedores de gás natural, que enviam o produto a países europeus vizinhos e depois bombeiam para lá. O objetivo é acabar com o uso do petróleo e do carvão russo este ano e com o uso do gás natural até 2024.

Nesta quinta-feira (30/3), a Alemanha enviou um alerta pedindo que empresas e famílias economizem energia para o caso de a importação russa ser interrompido. A França também anunciou que está “se preparando” para este cenário.

Planos de emergência garantem que, caso haja uma redução grave de gás, a prioridade será fornecer o recurso a hospitais e instituições públicas, seguidos por residências e, por fim, indústrias.

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