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Tudo bem que Alisson não defendeu o chute de De Bruyne e Fagner ficou retraído na lateral; que Thiago Silva não marcou um gol ao acertar a trave e Miranda não estava bem posicionado para cortar o escanteio no primeiro gol belga; que Marcelo foi frágil na marcação e Fernandinho fez gol contra e foi facilmente driblado por Lukaku no lance do segundo tento belga…

Tudo bem que Paulinho foi apagado mais uma vez e saiu sem nada produzir; que Philippe Coutinho errou muitos passes e desperdiçou chance após toque de Neymar; que Willian fez um primeiro tempo sem destaque e foi sacado por Tite no intervalo; que Neymar parecia desconfortável e apenas reclamou de um pênalti…

Tudo bem.

E quanto aos que entraram ao longo da partida – Roberto Firmino, Douglas Costa e Renato Augusto – não há muito a se dizer. O primeiro deu mais mobilidade ao ataque; o segundo foi o melhor da Seleção Brasileira no segundo tempo; o terceiro fez o gol de honra, capaz de dar esperanças ao time, de arrancar mais oxigênio dos pulmões… mas perdeu outro, que poderia ser o de empate. Que poderia ser o da salvação, enfim.

Pois é. Agora, enquanto engolimos o choro (tanto na Rússia quanto em todo o Brasil) e tentamos entender o que se passou na Arena Kazan, em Kazan, na derrota por 2 x 1 para a Bélgica, pelas quartas de final da Copa do Mundo da Rússia, pensamos em encontrar culpados para este momento de desilusão.

Vamos a eles:

Teimosia
Se Luiz Felipe Scolari tinha a sua ‘família” e Dunga era turrão, o amigável e professor Tite, claro, tem suas preferências. Insistiu com Fernandinho, mesmo ele sendo marcado pela torcida como um dos responsáveis pelo fatídico 7 x 1. E insistiu com Gabriel Jesus, mesmo o centroavante do Manchester City não ter marcado um único gol na Copa, em cinco jogos. Às favas com função tática, o que a gente quer de um atacante é bola na rede, caramba. E houve, ainda, o fato de Tite ter se precipitado e preferido a volta de um ainda combalido Marcelo no lugar de Filipe Luís, protagonista de dois bons jogos, contra Sérvia e México. Nosso lateral titular não conseguiu fazer bem a recomposição na defesa. Uma pena. Só uma dica: os MELHORES têm que jogar. Os MELHORES.

A falta que Casemiro fez
Suspenso por dois cartões amarelos, o volante do Real Madrid ficou impossibilitado de enfrentar a Bélgica. Perdeu o meio-campo do Brasil que ficou sem o combate intenso desse “cão de guarda”. O “se” não joga, mas “se” Casemiro estivesse em campo naquela jogada em que Lukaku arrancou de sua intermediária como quis…

Contusões
A Seleção foi prejudicada por uma série de infortúnios físicos e musculares antes e durante a competição. Fred nem chegou a entrar em campo, Renato Augusto já chegou contundido e melhorou aos poucos, Danilo acabou sacado da delegação, Neymar ainda recupera-se de contusão no tornozelo direito, Douglas Costa se contundiu no primeiro jogo e só voltou contra a Bélgica, Marcelo ficou fora dois jogos por causa de dores lombares e até Paulinho sentiu, culpa do longo tempo sem férias. O time foi bichado, meia-boca, durante a campanha nas estepes russas.

Ambiente externo
Tem quem acredite, tem quem não. Mas as críticas da imprensa internacional e de ex-jogadores de futebol  – misturadas à inveja e “olho gordo” – ajudaram na tentativa de minar Neymar e a equipe brasileira, criticando o brasileiro de ser um mero “cai-cai” acabaram gerando mídia negativa e energia, idem. Neste sábado (7), a imprensa mundial até apelidou o brasileiro de “Neymal”.

Convocação
Tite até convocou jovens emergentes como Lucas Paquetá (Flamengo) e Arthur e Luan (ambos do Grêmio) para sua lista reserva de jogadores para a Copa do Mundo da Rússia, mas de que vale isso? Futebol é momento e o Mundial é uma competição de tiro curto, com, no máximo, sete jogos. Com nomes como Vinícius Jr. e Roger Guedes, além dos já citados, a Seleção poderia ter mais opções táticas na tentativa de virar o jogo e partir para o “abafa”. Tite preferiu apostar em Fred e Taison, que fizeram turismo na Rússia. Assim, abrimos mãos de dois nomes na convocação…

Excesso de confiança
A Seleção chegou com excesso de confiança – do time, comissão técnica, torcida – na Rússia, afinal em dois anos, Tite perdera apenas um jogo, um amistoso. Mas o empate com a Suíça e o jogo duro contra a Costa Rica foram suficientes para colocar os pés do grupo no chão. As vitórias sobre a Sérvia e o México, ambas por 2 x 0, reacenderam essa confiança, encheram a bola de Neymar, que adotou postura mais profissional e capacitaram a equipe a sonhar com o hexacampeonato. Mas havia uma Bélgica no meio do caminho.

Falhas táticas
Falta de cobertura dos laterais, problemas no jogo aéreo (gols de escanteio sofridos contra Suíça e Bélgica), problemas de combatividade no meio-campo, excesso de tentativas de jogo aéreo contra defesas mais altas. Um monte de ajustes a serem feitos. Não tivemos tempo de fazê-los, porém.

Nervosismo
Dificuldade em colocar a bola no chão quando ficou atrás no placar. Ok que essa situação só ocorreu nesse jogo das quartas de final contra os belgas, mas o que se viu foi um Brasil desesperado no primeiro tempo, sem opções de jogo e se abrindo, perigosamente, para ter sua defesa vazada novamente. O que aconteceu, infelizmente.

(Falta de) liderança
O tão decantado revezamento de capitães feito por Tite pode ter saído pela culatra. Thiago Silva é escolhido capitão em um jogo, Miranda no outro, Casemiro em mais outro. Em vez de vários líderes, a Seleção acaba perdendo a referência. E não sabe a quem recorrer em campo. Muitos líderes, líderes nenhum.

Neymar
Para muitos, Neymar é Neymito. Para outros, Neymídia. Para a Seleção, o craque do time. Para o mundo, um menino mimado, adepto do cai-cai, antiesportista. A verdade é que, ainda se recuperando de contusão, o nosso melhor jogo não apresentou tudo o que se espera dele na competição. Fez dois gols, sofreu quase 30 faltas, cavou outras, mas, contra a Bélgica, parecia “amarrado”. Deu um bom passe para Philippe Coutinho, pediu um pênalti e só. Pouco produziu. Faltou Neymar na Copa.

De qualquer forma, somos humanos, passionais e, claro, passíveis de erros. Assim, pensamos em caçar bruxas, em crucificar pessoas, em queimar o filme de um time que sambou nas Eliminatórias da Copa, classificou-se com folga em primeiro lugar, encantou o mundo nos últimos dois anos, tem muitos talentos e estava invicto nos gramados russos.

E agora? Agora é tentar recolher os cacos, manter o trabalho feito pelo professor Tite desde que herdou uma terra arrasada, esquecer esse negócio primitivo de caça às bruxas e olhar para frente. Nada de decisões impulsivas, caros colegas da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Nada de ofender os atletas brasileiros, torcida querida.

Vejam bem, eles tentaram fazer o melhor e sucumbiram diante das próprias limitações e, claro, diante dos belgas. É bom lembrar que, do outro lado do gramado, havia um time forte, capaz, talentoso e com o melhor ataque da Copa (14 gols). E o qual, sinceramente, foi merecedor da vitória. Ah, também foi, digamos, um “dia ruim” para os brasileiros que tiveram maior posse de bola (57%) e arriscaram mais (26 tentativas de gol contra oito dos belgas). Ah, Alisson fez uma única defesa enquanto o goleiro Courtois fez oito. Pois é, né, os números ajudam a explicar que não era o dia (mas bem que poderia ter sido)…

Bola pra frente!