Crítica: A Divisão lembra onda de sequestros no Rio dos anos 1990
Após primeira temporada de série do Globoplay, filme de Vicente Amorim acompanha policiais controversos em operações de desfechos sangrentos

A Divisão, novo filme do diretor Vicente Amorim (Corações Sujos, Motorrad), volta aos anos 1990 para mostrar o surto de sequestros no Rio de Janeiro. Apesar de dividir o título com série do Globoplay que deve ganhar segunda temporada ainda em 2020, o longa funciona como produto independente.
O chefe de polícia Paulo Gaspar (Bruce Gomlevsky), personagem usado principalmente para expor as principais contradições da segurança pública no estado ao longo da trama, dá a letra.
Solucionar o problema dos sequestros envolve desmontar toda uma indústria por trás dos crimes. O envolvimento vai dos bandidos propriamente ditos a autoridades políticas e policiais interessadíssimas nos altos valores de resgate.
O caldo engrossa quando é sequestrada a filha do deputado Venâncio (Dalton Vigh), candidato a governador do Rio com planos de chegar à Presidência da República. Entra em cena a Divisão Antissequestro (DAS), com um time de policiais no mínimo questionável.
Roberta (Natália Lage), Santiago (Erom Cordeiro) e Ramos (Thelmo Fernandes) nutrem má fama na corporação. Costumam aproveitar-se da proximidade de traficantes para praticar extorsão, entre outros abusos.
Mendonça (Silvio Guindane) não poderia lembrar mais o infame Capitão Nascimento, da franquia Tropa de Elite. Para ele, bandido bom é bandido morto. Não hesita em torturar ou mesmo exterminar à queima-roupa um oponente. Nos bastidores, atua o malandro delegado Benício (Marcos Palmeira), acostumado a quase nunca sujar as mãos.
A Divisão, como vários outros thrillers urbanos (brasileiros ou estrangeiros), assume o ponto de vista dos policiais como maneira tanto de tentar expor a podridão corporativa e política em torno das operações quanto problematizar as consequências destrutivas dessas ações. Até aí, tudo bem. Só que essa intenção fica no discurso.
O principal problema é mesmo o como. Excesso de câmera subjetiva e tiques publicitários – música eletrônica pesada em cenas tensas, fotografia “suja” saturada e desbotada ao mesmo tempo, luzes estouradas – dão um incômodo ar genérico a quase tudo que se vê na tela. Nem a mais simples cena de diálogo se salva desse olhar “desestabilizante” da lente tremida, por exemplo.
A falta de sutilezas atrapalha até o que o filme poderia ter de distinto, como o caprichado gore nas sequências de violência. A maioria delas exalam um ar “malvadinho” à la Rambo: Até o Fim (2019): a brutalidade cinematográfica querendo se sobrepor à truculência do mundo aqui fora, num jogo de espelhos calcado num ideal ingênuo de “realismo”.
Também não ajuda A Divisão a tentativa de reflexão a fórceps nos 45 minutos finais, com reviravoltas chegando de última hora. Sim, é um filme sobre como o Rio só consegue remediar uma chaga da segurança pública quando há interesse de poderosos. Uma pena que essa reflexão fique tão soterrada por entulhos narrativos e visuais quando alcançamos os créditos finais.




















