Crítica: A Divisão lembra onda de sequestros no Rio dos anos 1990

Após primeira temporada de série do Globoplay, filme de Vicente Amorim acompanha policiais controversos em operações de desfechos sangrentos

Downtown Filmes/DivulgaçãoDowntown Filmes/Divulgação

atualizado 23/01/2020 16:09

A Divisão, novo filme do diretor Vicente Amorim (Corações Sujos, Motorrad), volta aos anos 1990 para mostrar o surto de sequestros no Rio de Janeiro. Apesar de dividir o título com série do Globoplay que deve ganhar segunda temporada ainda em 2020, o longa funciona como produto independente.

O chefe de polícia Paulo Gaspar (Bruce Gomlevsky), personagem usado principalmente para expor as principais contradições da segurança pública no estado ao longo da trama, dá a letra.

Solucionar o problema dos sequestros envolve desmontar toda uma indústria por trás dos crimes. O envolvimento vai dos bandidos propriamente ditos a autoridades políticas e policiais interessadíssimas nos altos valores de resgate.

O caldo engrossa quando é sequestrada a filha do deputado Venâncio (Dalton Vigh), candidato a governador do Rio com planos de chegar à Presidência da República. Entra em cena a Divisão Antissequestro (DAS), com um time de policiais no mínimo questionável.

Roberta (Natália Lage), Santiago (Erom Cordeiro) e Ramos (Thelmo Fernandes) nutrem má fama na corporação. Costumam aproveitar-se da proximidade de traficantes para praticar extorsão, entre outros abusos.

Mendonça (Silvio Guindane) não poderia lembrar mais o infame Capitão Nascimento, da franquia Tropa de Elite. Para ele, bandido bom é bandido morto. Não hesita em torturar ou mesmo exterminar à queima-roupa um oponente. Nos bastidores, atua o malandro delegado Benício (Marcos Palmeira), acostumado a quase nunca sujar as mãos.

A Divisão, como vários outros thrillers urbanos (brasileiros ou estrangeiros), assume o ponto de vista dos policiais como maneira tanto de tentar expor a podridão corporativa e política em torno das operações quanto problematizar as consequências destrutivas dessas ações. Até aí, tudo bem. Só que essa intenção fica no discurso.

O principal problema é mesmo o como. Excesso de câmera subjetiva e tiques publicitários – música eletrônica pesada em cenas tensas, fotografia “suja” saturada e desbotada ao mesmo tempo, luzes estouradas – dão um incômodo ar genérico a quase tudo que se vê na tela. Nem a mais simples cena de diálogo se salva desse olhar “desestabilizante” da lente tremida, por exemplo.

A falta de sutilezas atrapalha até o que o filme poderia ter de distinto, como o caprichado gore nas sequências de violência. A maioria delas exalam um ar “malvadinho” à la Rambo: Até o Fim (2019): a brutalidade cinematográfica querendo se sobrepor à truculência do mundo aqui fora, num jogo de espelhos calcado num ideal ingênuo de “realismo”.

Também não ajuda A Divisão a tentativa de reflexão a fórceps nos 45 minutos finais, com reviravoltas chegando de última hora. Sim, é um filme sobre como o Rio só consegue remediar uma chaga da segurança pública quando há interesse de poderosos. Uma pena que essa reflexão fique tão soterrada por entulhos narrativos e visuais quando alcançamos os créditos finais.

Avaliação: Ruim

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