Mel, gêmea siamesa separada por cirurgia inédita, recebe alta da UTI

A irmã, Lis, permanece na unidade intensiva, mas apresenta boa evolução. Nesta terça, as duas se encontraram pela 1ª vez desde a cirurgia

Maria Clara Oliveira/Divulgação/Hospital da Criança de BrasíliaMaria Clara Oliveira/Divulgação/Hospital da Criança de Brasília

atualizado 21/05/2019 21:47

Mel, uma das gêmeas siamesas separadas por cirurgia inédita no Distrito Federal, recebeu alta nesta terça-feira (21/05/2019) da unidade de terapia intensiva (UTI), onde passou os últimos 24 dias. Antes de ser transferida para a enfermaria, a bebê, de 11 meses, visitou a irmã pela primeira vez desde a cirurgia. Lis continua sob cuidados intensivos, mas segue o cronograma esperado pelos médicos.

Segundo a mãe das meninas, Camilla Vieira, o momento foi emocionante. “Elas ficaram se olhando como se estivessem se reconhecendo. Colocamos elas sentadas mais perto, pegaram na mão uma da outra e tentaram pegar a roupa da outra”, disse.

Acho que foi um momento de paz entre elas. Foi a coisa mais linda. Finalmente, estavam ali, juntinhas

Camilla Vieira, mãe das gêmeas Mel e Lis

O procedimento de extrema complexidade realizado nas gêmeas foi dividida em 36 etapas, entre as 6h30 do dia 27 e as 2h30 de 28 de abril. O sucesso foi intensamente comemorado pelos pais das crianças e pela equipe do Hospital da Criança de Brasília. As gêmeas, que completam 1 ano em 1º de junho, estão em tratamento no centro especializado desde que tinham apenas 2 meses.

“A gente ainda tem uma longa batalha. São dois bebezinhos de novo. O apoio que elas tinham para ficar em pé, para engatinhar, hoje precisam fazer sozinhas. Então, é uma longa batalha de fisioterapia, mas elas são duas guerreiras”, garante a mãe.

O procedimento de separação começou a ser planejado quando as meninas brasilienses ainda tinham 2 meses e o médico Benício Oton de Lima confirmou, por meio de exames, que a operação seria viável. Elas compartilhavam apenas uma pequena parte do cérebro, que poderia ser retirada sem danos. “O dia em que ele disse que poderíamos separá-las foi de muita felicidade para mim”, lembrou a mãe das meninas, Camilla Vieira Neves, 25 anos, logo após a operação.

A equipe médica considera que a ligação das meninas, no lóbulo frontal direito dos crânios, facilitou o trabalho de separação, visto que permitiu às crianças se desenvolverem normalmente. “Não são pacientes acamadas. São pacientes saudáveis, que tiveram o crescimento e o desenvolvimento motor perfeitamente normal”, destacou a anestesiologista Liliana Teixeira.

“Virão outras batalhas, mas esta a gente venceu”, disse a mãe das bebês, no dia seguinte à separação. Os pais descreveram a cirurgia como um maravilhoso milagre. Segundo Camilla, durante a gravidez, chegaram a aconselhá-la a fazer um aborto, mas ela afirmou que jamais cogitou isso e apenas pediu a Deus que lhe enviasse anjos na caminhada. “Os médicos foram esses anjos”, afirmou.

A família mora em Ceilândia. Rodrigo Martins Aragão, 30, é supervisor comercial, e a mãe trabalha como prestadora de serviços no Ministério da Saúde. Os pais contaram que a gravidez não foi planejada, mas significou o presente mais maravilhoso que já receberam. “A chegada delas tem um propósito claro em nossas vidas”, disse Camilla.

Cirurgia
Os casos de gêmeos siameses são bastante raros e, entre eles, os unidos pelas cabeças são ainda mais incomuns. Na literatura médica internacional, a situação das brasilienses é a 10ª em que houve indicação para a realização da operação. “Será a primeira e a última vez que farei uma cirurgia destas”, afirmou o neurocirurgião Benicio Oton de Lima, que chefiou a equipe médica. Apenas um em cada 2,5 milhões de nascimentos é de craniópagos.

Prestes a completar 1 ano, Mel e Lis vêm sendo acompanhadas pelo Hospital da Criança de Brasília desde agosto do ano passado. Doutor Benício conheceu as duas quando ainda estavam na barriga da mãe, que era atendida pelo Hospital Materno Infantil de Brasília. A mulher estava, então, com 12 semanas de gestação.

Foi necessária uma série de exames para verificar se, de fato, elas teriam chances de serem separadas. Em fevereiro, as duas passaram por uma primeira cirurgia, para que fossem instalados extensores de silicone e os corpos delas produzissem pele.

Os cirurgiões treinaram em moldes 3D e bonecas. Tudo foi ensaiado milimetricamente para diminuir os riscos de um procedimento tão complicado. “Imensa satisfação de ter participado desse procedimento tão especial. É um trabalho em equipe”, afirmou o cirurgião plástico Ricardo de Lauro Machado Homem.

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