Cratera em Vicente Pires: moradores reagem e dizem que culpa é do GDF

Guerra de versões: ao contrário do informado pelo governo, presidente da Amovipe garantiu que rede de águas pluviais não é clandestina

Michael Melo/MetrópolesMichael Melo/Metrópoles

atualizado 01/08/2019 17:18

O susto após cratera engolir carro com dois idosos na Rua 3 de Vicente Pires, nessa terça-feira (23/10), veio seguido de uma guerra de versões e jogo de empurra entre gestores e moradores. De acordo com o governo, o problema foi causado por uma rede de drenagem clandestina, afirmação contestada pela associação que representa a população da cidade e pelo ex-administrador.

“Moro aqui há 25 anos e acompanho a rotina da cidade. Todas as redes de águas pluviais foram feitas pela Novacap e a administração regional”, disparou o presidente da Associação de Moradores de Vicente Pires (Amovipe), Gilberto Camargos. Para ele, o problema são as obras que as empresas executam no local.

“Elas [as empresas] estão detectando essas redes [de águas pluviais] quando fazem a escavação e as fecham, mesmo sem saber de onde vêm”, explicou. Com isso, diz Gilberto, a água fica sem saída, o que vem causando danos, como o ocorrido na terça em uma das entradas principais de Vicente Pires.

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O dirigente da Amovipe ainda classificou as obras na região administrativa como eleitoreiras. “Deveriam ter sido iniciadas em 2015, mas foram deixadas para mostrar serviço aos eleitores. Fizeram um cronograma ineficaz. Abriram frentes além da capacidade e não conseguiram terminar antes do período chuvoso”, disparou, por meio de nota.

Como medida paliativa, a Secretaria de Infraestrutura e Serviços Públicos informou (Sinesp) que foram colocadas pedras no buraco e a área foi isolada. Gilberto alega que isso não é suficiente. “Caso chova forte outra vez, vai arrebentar de novo”, alerta. “Fosse um carro menor naquele buraco, alguém teria morrido”, acrescenta.

Alberto Meireles administrou a cidade entre 2007 e 2010, período em que a obra de drenagem foi feita. O ex-gestor diz que a rede foi instalada pelo governo. Conforme pontuou, a Estrada Parque Taguatinga (EPTG), durante a construção da Rua Israel Pinheiro, ficava inundada após chuvas, e que a medida paliativa resolveu a situação.

“No entanto, fecharam a manilha. É como tapar a boca de uma mangueira por onde passa muita água. Uma hora vai estourar, e foi o que aconteceu nessa terça, quando quase perdemos duas vidas”, destacou.

 

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Já o atual dirigente, Charles Guerreiro, garante que todas as obras oficiais da região têm registros, o que não seria o caso da rede de águas pluviais que passa por baixo da cratera. De qualquer forma, o caso está sendo apurado e a administração já solicitou informações à Novacap.

Guerreiro classificou como “especulação e politicagem” a afirmação de que a rede não é clandestina. “Vicente Pires é uma cidade que cresceu sem nenhuma infraestrutura. O governo está fazendo as obras – fundamentais para a melhora da vida dos moradores da região – de forma responsável e trabalhando com base em dados oficiais. Se existe a rede e ela não foi registrada, então alguém terá de responder por isso. Estamos investigando a situação”, ressaltou.

Charles Guerreiro também afirma que o cronograma das obras está sendo cumprido, com previsão de término para 2019. No entanto, nem sempre é possível prosseguir com o trabalho durante o período de chuva, por questões de segurança. “Nestes casos, avançamos na medida do possível”.

“Quem veio para Vicente Pires sabia dos problemas daqui. Somos uma cidade que nasceu de trás para frente. As coisas que acontecem agora – barro, lama, água – aconteciam antes. A diferença é que, agora, com as obras, temos a chance de mudar isso”, ponderou.

A Sinesp informou que as empresas contratadas estão à disposição para intervir emergencialmente, caso necessário, em Vicente Pires. “Essas intervenções têm o intuito de garantir a circulação de pessoas e reduzir transtornos causados por obras e chuvas”, frisou, por meio de nota.

Conforme comunicado da secretaria, “o fato não está relacionado às obras de urbanização na cidade, que visam, justamente, dotar a região administrativa, que nasceu como ocupação irregular, de infraestrutura adequada (rede de drenagem, pavimentação e calçamento)”.

A pasta esclareceu também que as obras de infraestrutura são fundamentais para solucionar os problemas de enxurradas e buracos na região.

Vítimas
No começo da tarde dessa terça (23), Oswaldo José, 76 anos, e a mulher dele, Maria Marlúcia, 53 anos, levaram um grande susto. Eles passavam pela Rua 3 quando a caminhonete onde estavam foi engolida pela cratera. “Havia um engarrafamento e, de repente, o carro foi sugado. Precisei ficar calmo”, disse o aposentado.

Oswaldo afirmou conhecer os problemas da região administrativa, mas “não esperava que fosse virar a vítima”. “A gente nunca imagina que isso possa nos acontecer. Minha esposa me avisou que a caminhonete estava caindo e não soube o que fazer. Foi um susto muito grande”.

Conforme relatou Maria Marlúcia, o casal, que foi salvo por populares, pouco se lembra dos “momentos de terror”. “Me recordo que a chuva estava grossa e não vimos sinal de buraco no chão. Lembro que duas pessoas me puxaram e me tiraram do carro”, disse a mulher. Uma escavadeira da empresa que faz obra no local içou o veículo do buraco.

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