
Mirelle PinheiroColunas

CDC: advogado liderou rede de intimidações para garantir impunidade
Marcos Gerson do Nascimento virou réu na Justiça no último dia 12. A coluna traz detalhes da atuação supostamente criminosa do advogado
atualizado
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Investigações do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), revelam a atuação criminosa do advogado Marcos Gerson do Nascimento, acusado de liderar um esquema de coação de testemunhas ligado à facção Comboio do Cão (CDC).
Segundo o MPDFT, além de defender simultaneamente um delator e o delatado, Marcos Gerson teria atuado ativamente para garantir a impunidade de membros da facção, inclusive ameaçando testemunhas em nome do grupo.
O ciclo criminoso teria se desdobrado em dois atos interligados: a primeira coação teria sido praticada pelo advogado com o intuito de absolver o delatado Rogério Rodrigues do Nascimento, conhecido como “Peste”.
Como consequência, uma segunda movimentação foi estabelecida para intimidar testemunhas e criar falsos álibis, com o objetivo de livrar o advogado da acusação decorrente de sua primeira empreitada ilícita.
O júri de “Peste”
A primeira fase de perseguição a testemunhas ocorreu no contexto da ação penal que apurava um homicídio e uma tentativa de homicídio praticados contra Eudes Ancelmo da Silva e Francisco Franklin Fernandes, respectivamente.
Os crimes foram imputados a “Peste”, e o júri foi marcado para 10 de junho de 2021, com Marcos Gerson atuando na defesa. Diante disso, a organização criminosa se mobilizou para garantir a absolvição.
Segundo o Gaeco, em 30 de maio de 2021, dias antes do julgamento, o advogado passou a agir como um verdadeiro integrante do CDC.
Ele teria ameaçado pessoalmente Francisco Franklin, a vítima sobrevivente, e seus familiares. Na ocasião, o advogado transmitiu o recado da facção, afirmando que “caso o seu cliente fosse condenado, Francisco e seus familiares seriam mortos pelo CDC”.
A estratégia de intimidação foi bem-sucedida: as testemunhas, atemorizadas, alteraram seus depoimentos em plenário, o que culminou na absolvição de “Peste”.
A manobra, contudo, não passou despercebida pelo MPDFT. O promotor de Justiça César Nardelli, que oficiou no julgamento, requisitou a instauração de inquérito policial para apurar a coação, o que resultou no oferecimento de denúncia contra o advogado.
Na mira da Justiça
Ao se ver na condição de réu, Marcos Gerson desencadeou, sob o comando direto de “Peste” e com o auxílio fundamental de familiares dele, uma segunda e intensa onda de intimidação contra as mesmas testemunhas.
O objetivo, agora, era forjar um falso álibi e manipular a instrução processual para garantir a absolvição do próprio advogado.
Em novembro de 2023, o grupo iniciou os esforços para localizar e constranger Francisco Franklin. A estratégia incluiu abordar também a irmã dele, conhecida como “Teia”.
Cumprindo a determinação de “Peste”, Martha Gorete, irmã dele, e Nathalia Vieira, sua então namorada, passaram a agir como o braço de execução do grupo criminoso. A efetivação da ordem foi confirmada em 12 de dezembro de 2023, por meio de mensagens trocadas em aplicativo de conversas.
Na data, o advogado encaminhou mensagem via WhatsApp para Nathalia, questionando se o líder teria “mandado algum recado para uma pessoa chamada Teia”. Em resposta, ela confirmou a abordagem: “Nós conversamos com ela”.
Nathalia ainda complementou que “Teia” “disse que ia falar com o irmão”.
Não satisfeitos com a primeira abordagem, os denunciados — sobretudo o advogado — seguiram ativos no monitoramento e no planejamento de uma nova investida contra “Teia”.
Em 16 de dezembro de 2023, Marcos informou à irmã de “Peste” que teria colocado alguém de sua confiança para localizar a testemunha, reforçando a necessidade de uma conversa presencial e urgente.
A trama tornou-se mais explícita em 25 de janeiro de 2024, quando o advogado ordenou a Nathalia o que deveria ser feito: “Alguém precisa chegar nessa mulher e falar que ela tem que ir na audiência e falar que a família dela está mentindo”, disse Marcos.
Até agosto de 2024, o advogado contou com a parceria dos familiares de “Peste” para intensificar as intimidações e alcançar novos alvos.
Além de coagir e intimidar testemunhas, Marcos também atuava na corrupção ativa, mediante o pagamento por depoimentos fraudulentos que favorecessem os interesses da organização criminosa.
Todas as provas foram obtidas a partir da extração de dados do aparelho celular do advogado, apreendido em operação deflagrada em agosto de 2024.
Diante dos indícios, o MPDFT denunciou o advogado. Ele tornou-se réu no último dia 12 de agosto por suposto conluio com a organização criminosa Comboio do Cão (CDC)






