Pele falsa protege os animais, mas prejudica o meio ambiente

As alternativas sintéticas se tornam poluentes se não forem descartadas corretamente

Getty ImagesGetty Images

atualizado 26/11/2018 18:13

Usar casaco de pele é uma das grandes gafes na moda e, desde as últimas temporadas, grandes marcas de luxo se juntaram ao movimento faux fur, ou fake fur (pele falsa, em tradução livre). A ideia consiste em abandonar o uso de pele animal nas coleções. O anúncio mais recente do fim da prática foi feito por Jean-Paul Gaultier, durante entrevista a uma emissora francesa. Em 2006, a grife chegou a sofrer intervenções de ativistas da organização PETA (People for Ethical Treatment of Animals).

Recentemente, Diante von Furstenberg e Coach também entraram para o time. Burberry, Ralph Lauren, Gucci e Versace já contribuem com o movimento há algum tempo.

Por um lado, a notícia é boa, pois poupa a vida animal. Mas, a pele falsa pode não ser a resposta mais sustentável. O material sintético é feito de derivados do plástico, que leva centenas de anos para se decompor. Associações internacionais pró-pele entraram em embates com a PETA com esse argumento, alegando que a matéria-prima animal é biodegradável.

Vem comigo!

Os fios sintéticos da pele falsa são fibras que levam compostos plásticos. Para fazer o teste, basta usar fogo: os pelos de origem animal queimam, enquanto os falsos derretem. Segundo a professora do curso de moda no Centro Universitário IESB, Rafaella Lacerda, especialista em têxtil, o fake fur não minimiza o impacto na natureza, dependendo do tipo de material.

As imitações de origem química [de pele e couro] são obtidas por meio de polímeros químicos providos do petróleo e do carvão. São os famosos poliéster, poliuretano, polipropileno e a lã acrílica. Esses tecidos, em seu ciclo de vida, e conforme são lavados, vão liberando microplásticos nas nossas águas e solos”, explica a educadora.

Getty Images
Os fios da pele falsa levam plástico na composição

 

Getty Images
Os fios de origem animal queimam, enquanto os sintéticos derretem

 

Getty Images
Em fevereiro deste ano, ativistas protestaram do lado de fora de um desfile da Burberry pelo fim do uso de pele

 

Getty Images
A grife anunciou recentemente que aderiu ao faux fur

 

O couro também é prejudicial tanto à natureza quanto às pessoas. “A indústria do couro é uma das mais poluentes do mundo. Muitos gastos com água, desperdício de couro na extração e produtos nocivos ao planeta para amaciá-lo. Além de toda a mão de obra explorada em países subdesenvolvidos na Ásia. Pessoas ficam doentes por conta do contato diário com bromo e químicos similares”, alerta a professora.

Getty Images
As imitações sintéticas soltam microplásticos à medida que são utilizadas

 

iStock
Restos de couro que vão para o lixo

 

Getty Images
A indústria do couro é uma das mais poluentes, segundo a especialista

 

iStock
Jaqueta com desgaste

 

Alternativas
Vale destacar: o chamado “couro ecológico” é de origem animal, assim como o convencional, mas gasta menos água e leva produtos mais leves no processo de curtimento. A Lei nº 4.888/65 proíbe o uso da palavra “couro” em artigos que não venham de origem animal.

No entanto, já existem imitações de origem vegetal para se manter aquecido de forma eco-friendly. Uma opção comercial e mais viável é o Piñatex, produzido com fibras de folhas de abacaxi por meio dos processos de tecelagem e fusão. É um dos chamados TNT, ou “tecido-não-tecido”.

Além desse, até testes de bioplásticos com cogumelos (Muskin), vinho (Vegea), água de coco e bactérias estão sendo estudados. Fibras biodegradáveis, como as de algodão, podem ser compostadas.

Reprodução/Ananas Anam
Produção do Piñatex, alternativa vegetal que se assemelha ao couro

 

Reprodução/Ananas Anam
O Piñatex é feito com fibras de folhas de abacaxi

 

Reprodução/Ananas Anam
Textura do Piñatex

 

Reprodução/Instagram/@pinatex
Bolsa feita com Piñatex

 

Reprodução/Instagram/@pinatex
Sapato de Piñatex

 

Reprodução/Muskin
Muskin, imitação de couro à base de cogumelos

 

Reprodução/Vegea
O arquiteto italiano Gianpiero Tessitori desenvolveu uma imitação de couro por meio do bagaço da uva na produção de vinho

 

Reprodução/Vegea
O resultado do projeto, que se chama Vegea, é bem similar ao couro animal

 

Reprodução/Vegea
O produto foi desenvolvido em 2014 e rendeu o prêmio Global Change Award em 2017

 

Reprodução/Orange Fiber
Na iniciativa Orange Fiber, cascas de laranja se transformam em tecidos sustentáveis

 

Plásticos
De acordo com o professor Marcelo Moreira Santos, do Instituto de Química da Universidade de Brasília (UnB), o plástico é considerado nocivo para o meio ambiente porque demora muito para se decompor. Especialista em degradação e estabilização de compostos, ele alerta: “Qualquer material plástico que perde a vida útil deve ser reciclado e nunca descartado diretamente”.

Segundo ele, o plástico ganha forma por meio de compostos químicos organizados em cadeias longas, os chamados polímeros. Compostos como polietileno (PE), ou propileno e polipropileno (PP), podem “sobreviver” 450 anos na natureza. O problema em torno disso é o tempo que o material leva para se desintegrar em pedaços menores, gerando acúmulo. Dessa forma, o solo não respira e os rios e mares se enchem desses resíduos.

iStock
Tecidos sintéticos podem levar centenas de anos para se decompor

 

iStock
Materiais derivados do plástico demoram e geram acúmulo

 

O mar é um dos maiores afetados pelo plástico na natureza. Partículas minúsculas como o glitter, chamadas microplásticos, absorvem substâncias tóxicas e são confundidas com alimentos por alguns organismos marinhos. O grupo Ocean Conservacy estima que 8 milhões de toneladas métricas de plástico vão para os oceanos anualmente, além das 150 milhões já circulando. Em 2016, especialistas do Fórum Econômico Mundial de Davos alertaram para o perigo: em 2050, os oceanos terão mais plástico do que peixes.

Getty Images
Quando não reciclado, o plástico se torna poluente

 

Getty Images
Alguns compostos plásticos podem levar mais de 450 anos para se decompor

 

Getty Images
O acúmulo de lixo plástico afeta os solos e mares

 

iStock
Tartaruga nadando em meio ao lixo plástico no oceano

 

Solução
O ideal é reaproveitar peças antigas, comprar em brechós e não ter medo de repetir e usar as roupas por muito tempo. Mesmo tomando cuidado com os produtos escolhidos, o consumismo pode ser um grande vilão. “O descarte de qualquer material têxtil é prejudicial ao solo. Os itens feitos com fibras de poliéster são como plástico e demoram muitos anos para se decompor. As peças de fibras naturais, e artificiais, estas, biodegradáveis, se forem descartadas em aterros sanitários a céu aberto também emitem CO2”, frisa Rafaella.

A dificuldade da indústria em desenvolver materiais biodegradáveis é garantir que eles “tenham propriedades semelhantes aos plásticos tradicionais e preços de produção compatíveis”, completa Marcelo. A composição, no entanto, é semelhante. O que os diferencia dos tradicionais é a adição de algum átomo ou molécula, permitindo uma reação mais rápida com o oxigênio, assim, a degradação na natureza acontece, também, de forma veloz.

A professora de moda conclui que a solução para minimizar o impacto é investir em tecnologia e experimentação. “Organizar a produção da matéria-prima para gastar menos água, energia e produtos químicos, os quais podem ser agressivos ao meio ambiente. E remunerar bem a mão de obra da extração dessas fibras”, complementa. Além disso, valorizar a matéria local: “Investir em estudos para extração e conhecimento do comportamento de fibras que podem ser encontradas próximas das centrais de produção”.

Confira algumas marcas que defendem a bandeira ecológica:

Vale lembrar que já mostrei joias feitas com borra de café, um projeto brasileiro bem bacana. Outra novidade vista por aqui foram os chinelos Allbirds, feitos com cana-de-açúcar.

Para outras dicas e novidades sobre o mundo da moda, não deixe de visitar o meu Instagram. Até a próxima!

Colaborou Hebert Madeira

SOBRE O AUTOR
Ilca Maria Estevão

Bacharel em psicologia pela Universidade Georgetown, em Washington D.C. (EUA). É apaixonada por moda e acompanha toda movimentação no universo fashion.

Últimas notícias