Temos um passarinho nosso, com nome e sobrenome: tapaculo-de-brasília

Foi descoberto e identificado em 1958 no canteiro de obras da nova capital do Brasil. O nome científico é Scytalopus novacapitalis

Jonatas Rocha/DivulgaçãoJonatas Rocha/Divulgação

atualizado 25/03/2019 20:54

O nome é quase um dialeto de criança: tapaculo. O sobrenome nos diz muito: Brasília. Tapaculo-de-brasília leva o nome científico de Scytalopus novacapitalis. Foi descoberto e identificado em 1958 no canteiro de obras da nova capital do Brasil.

Não é apenas um pássaro, é um passarinho. Mede 11 cm em média. O pardal, esse que está em todo lugar, até dentro dos supermercados, é um pouco maior, de 14 cm a 18 cm. O beija-flor, de 6 cm a 12 cm.

Quer passar despercebido o passarinho candango: as pelagens superiores são em tom cinza-escuro, e as inferiores, cinza-claro. As pernas, de cor marrom-amarelada, são curtas e fortes. O bico também é curto e a cauda aponta para o céu a qualquer excitação, como descreve Helmut Sick, no clássico Ornitologia Brasileira.

É arredio o tapaculo-de-brasília, que também é chamado de macuquinho-de-brasília, denominação mais afetuosa e fácil de gravar. É um passarinho, mas quase não voa. A qualquer sinal de perigo, corre velozmente e, em segundos, se esconde do alcance do que pode ser uma ameaça.

Busca proteção no emaranhado das matas de galeria, sempre perto da água, e dele só se ouve o canto, que mais parece um piado intermitente, quase metálico, atento (as fêmeas têm um canto mais veemente). Fica próximo ao solo, no meio da vegetação densa. Só sobe nas árvores para fugir de algum perigo.

Arquiteto por profissão, passarinheiro por encanto, Tancredo Maia Filho atravessa os dias procurando bichos de asas que voam (nem sempre quem tem asa voa). Faz fotos e as reúne em livros. É dele as Aves do Parque Olhos d’Água, esgotado. Tancredo já esteve perto de um tapaculo-de-brasília, na Flona, a Floresta Nacional de Brasília. “Tive o privilégio de ser apresentado a esse bichinho, arredio que só…” Foi coisa de segundos, logo o passarinho ensimesmado desapareceu.

Cláudio Dias Timm/Divulgação
Tapaculo-de-brasília leva o nome científico de Scytalopus novacapitalis

Eu pensava que todo passarinho era arredio, mas Tancredo me disse que não é nada disso. Tem deles que vivem pulando de galho em galho, que descem ao chão e se deixam ver e fotografar. E não significa que tenham sido domesticados pela vida urbana. Mesmo na mata há passarinho tímido e passarinho intrépido.

O tapaculo-de-brasília gosta mais de ser ouvido e faz de tudo para não ser visto. Talvez por isso seja todo acinzentado, para fingir que não existe. O máximo que os observadores de pássaros conseguem, e festejam, é ouvir o canto compassado – tóc-tóc-tóc, chet-chet-chet. No YouTube, há vídeos com o canto tapaculo-brasiliense.

Já foi uma espécie endêmica, o macuquinho-de-brasília, mas, com a devastação do Cerrado e o sumiço das matas de galeria, entrou para a triste categoria das espécies quase ameaçadas.

Há dois anos, o fotógrafo de aves Jonatas Rocha conseguiu fazer 67 registros de tapaculo-de-brasília em Brasília. No município de São Roque de Minas, no Triângulo Mineiro, ele capturou 240 imagens do Scytalopus novacapitalis.

Barto/Divilgação
Tapaculo-de-brasília, por Bartô

A delicadeza miúda do passarinho brasiliense encantou Bartolomeu Rodrigues, jornalista, editor, escritor, ilustrador, e o fez desenhar o tapaculo-de-brasília. Para tanto, usou lápis Staedtler 2B, lapiseira 0.5 mm, pastel seco e papel Canson 200 g. E cedeu a imagem para esta crônica passarinheira, mais pra tímida do que pra intrépida.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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