João Beto, a carne mais barata do mercado

O que houve no Carrefour está acontecendo em muitos outros lugares neste momento. Há um extermínio de pessoas negras no Brasil, há 500 anos

atualizado 20/11/2020 14:25

Ilustração para coluna do Anderson França A carne mais barata do mercado Gui Prímola/Metrópoles

Você deve estar acompanhando tudo.

Neste momento, no Carrefour, o jurídico deve estar fazendo duas coisas: o que eles chamam de “gestão de crise” e o “clipping”, acompanhamento de absolutamente tudo que está sendo dito sobre eles, no mundo.

Inclusive, na Europa já apareceu em noticiário.
É um péssimo dia pra ser do jurídico do Carrefour.
É um péssimo dia pra ser empregado do Carrefour.
É um péssimo dia pro Carrefour. É um péssimo dia.

Não conheço, mas ponho minhas duas mãos no fogo que não tem gente negra no jurídico do Carrefour.

E se o jurídico conta com o cinismo negacionista do racismo dos franceses, então o cenário tá montado. É um péssimo dia pra matar homens negros.
Era um péssimo dia ontem, será amanhã.

Mas HOJE é o subsolo do inferno.
Porque hoje é o Dia da Consciência Negra.

Dia combatido por muita gente que não aceita. Acha que tinha que ter um “dia da consciência humana”, não negra. Mas ninguém se mete nos dias dos judeus, japoneses e italianos. Dos negros, todo mundo se acha no direito de se meter.

Não é a primeira vez que o Carrefour passa por episódios relacionados à violação de direitos. Em agosto, numa das lojas da rede no Recife, um trabalhador morreu dentro do supermercado, e o gerente cobriu o cadáver com três guarda-sóis, e manteve o funcionamento da loja, durante todo o expediente.

Foram pessoas aleatórias que fotografaram, filmaram e espalharam a notícia nas redes sociais.
Assim como o caso de João Alberto Silveira Freitas, o Beto. Assim como George Floyd.

Nesse caso, um entregador do Uber, que foi ameaçado por uma mulher no vídeo que assiste ao assassinato, filmando a vítima, e não faz nada. Beto era um homem amado por seus amigos e comunidade. Isso não se faz. Mas o Carrefour diz que não tem culpa.

Eu fico pensando, se você entrasse no Carrefour e quebrasse uma lâmpada.
Eles encontrariam em um minuto o responsável legal pelo crime. Mas quando eles matam uma pessoa, eles jogam na conta dos terceirizados.

O que aconteceu no Carrefour está acontecendo em dezenas de outros lugares neste momento.
Há um extermínio de pessoas negras no Brasil, em curso há 500 anos.

Agora, com governantes apoiando, juristas, tribunais e leis, que arrastam essas pessoas pelas ruas como cães sem dono, e as matam para sua alegria e prazer íntimo. Ou passam suas vidas oprimindo e matando a alma delas, como o caso da primeira vereadora negra em Joinville, Ana Lúcia Martins, do PT, que foi ameaçada de morte.

Ou o caso de Valter Nagelstein (PSD), derrotado nas urnas em Porto Alegre, que disse que os vereadores eleitos são “negros sem nenhuma experiência política”, o que pra mim, POR ESTES MESMOS MOTIVOS, eles são gigantes.

O Dia da Consciência Negra era pra ser um dia de celebração de culturas. Da formação do povo brasileiro, numa perspectiva racial, resiliente e de chamamento para uma constante melhoria e mudanças. Mas não dá. Enquanto tentamos falar sobre esse dia, precisamos enterrar mais uma pessoa negra.

É uma mão lutando, e outra na sepultura, enterrando alguém.
Eu só peço uma coisa:
Lembrem deste nome:

Carrefour.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

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