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Aos 17 anos, o peso da vida adulta caiu sobre os ombros de Giulianny Barros. Ela se tornou mãe e, por conta de uma má-formação pulmonar no bebê, precisou ficar bastante tempo acompanhando a internação do filho. Nesse período, o pai do recém-nascido não cooperava com os cuidados, além de trair e agredir a jovem. Giulianny assumiu todas as responsabilidades sozinha e não deixava transparecer que precisava de ajuda psicológica. Foi aí que recebeu um diagnóstico surpreendente: ela estava com depressão sorridente.

Trata-se de uma variação da depressão na qual o paciente costuma se sentir sozinho, triste, sem ânimo para realizar pequenas tarefas do dia a dia ou até socializar, mas ainda assim mantém aquele sorriso forçado de que tudo está bem.

A condição não chega a ser considerada doença, mas sim um tipo de sofrimento psíquico, que, com o tratamento certo, pode passar. O que difere esse diagnóstico dos demais é a vergonha sentida pelo indivíduo em expor a situação até mesmo para pessoas muito próximas.

Foi o caso de Giulianny. O médico que cuidava do bebê da jovem a diagnosticou após informá-la sobre a deformidade da criança e ver a reação da mãe: ela começou a rir. Por conta da situação estressante com o filho e com o pai do bebê, Giulianny teve alopecia (queda dos cabelos em situação de exaustão), ficando completamente careca. Aceitar o diagnóstico não foi fácil, pois ela não queria ser motivo de pena.

Negação
A psicóloga Lia Clerot explica que é comum alguns pacientes não receberem muito bem a condição depressiva. “A pessoa se sente fraca e insegura, mas é preciso aceitar e driblar o preconceito. Todos temos conflitos na vida, e compartilhar o sofrimento é importante”, diz.

Uma pesquisa realizada pela revista Women’s Health e com a Aliança Nacional de Doenças Mentais, apontou que 89% dos 2 mil entrevistados disseram ter sofrido com os sintomas de depressão, mas os mantiveram escondidos de amigos e familiares.

As pessoas que costumam esconder essa condição geralmente passam por muita cobrança no ambiente de trabalho, na família ou são consideradas tão bem-resolvidas a ponto de não ter permissão de se sentirem para baixo. Assim, ficam inseguras em expor o que vivem de verdade.

Algumas pessoas que sofrem desse distúrbio até tentam conversar com alguém sobre a situação, mas acabam sendo julgadas e cobradas por sempre apresentarem uma vida feliz. Então, o indivíduo passa a ser visto como dramático"
Lia Clerot, psicóloga

Identificando o transtorno
Se aos olhos da sociedade a pessoa for bem-relacionada, considerada alguém que não pode reclamar da vida, pois sempre posta fotos sorrindo e é, em geral, alegre, praticamente lhe é vedado o direito de demonstrar fraqueza. Mas cada um sabe de suas dificuldades, do vazio que sente e da insatisfação em fazer algumas atividades. Se recorrentes, esses sintomas podem indicar que o indivíduo está desenvolvendo um quadro de depressão sorridente.

Segundo especialistas, é preciso se conhecer bem e tentar identificar os sinais do transtorno o quanto antes para buscar o melhor tratamento – pode ser acompanhamento psicológico ou psiquiátrico. De acordo com profissionais consultados pelo Metrópoles, um dos primeiros indícios é a perda da vontade de sair para encontrar pessoas. O segundo consiste em, repentinamente, não ver mais graça na rotina que antes era considerada feliz. Os sintomas costumam se manifestar em pessoas que estão passando por grandes mudanças ou estresse.

Mulheres são maioria entre os pacientes com diagnóstico de depressão sorridente por assumirem muitas atividades ao mesmo tempo. São mães, filhas, amigas, chefes no trabalho que precisam dar conta de filhos, marido, tarefas domésticas e laborais, sem abrir mão dos cuidados pessoais. “Via de regra, as mulheres que desenvolvem o transtorno assumem o protagonismo dessas tarefas e acreditam que serão vistas como fracas, caso não deem conta de tudo”, explica a psicóloga Lia Clerot.

Uma condição conhecida por Giulianny Barros. Após iniciar o usos de medicamentos e fazer terapia, a brasiliense recebeu alta em 12 meses. Hoje, aos 24 anos, ela já não esconde mais as angústias que a cercam. Sempre procura ajuda, mas, em situações que se vê calma demais e rindo muito, questiona se a depressão sorridente voltou.

A reportagem conversou com a jovem para entender melhor como foi o processo de descoberta da depressão e o caminho da cura. Confira o relato de Giulianny:

Se você se identificou com os sintomas, procure ajuda. É necessário acompanhamento profissional e força de vontade para superar essa condição.