Filipina narra rotina com cônsul investigada: “Me sentia prisioneira”
Siham Harati, cônsul honorária do Brasil no Líbano, é investigada por crime análogo à escravidão. Ela nega as acusações
atualizado
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A filipina de 51 anos que afirma ter vivido em condição análoga à escravidão enquanto trabalhava para a cônsul honorária do Brasil no Líbano, Siham Harati, detalhou ao Metrópoles, em entrevista exclusiva, os episódios que diz ter enfrentado ao longo de 12 anos, período em que esteve entre São Paulo e o país do Oriente Médio.
“Desde 2014, eu me sentia como uma prisioneira na casa dela. Sem liberdade para sair, sem férias e sem folgas. Um mês inteiro de trabalho”, contou a mulher, que prefere não ser identificada.
A vítima quase não fala português e trabalhava para Harati em uma residência no Morumbi, bairro de alto padrão na capital paulista.
A decisão de buscar ajuda veio em fevereiro, quando ela afirma ter sido impedida de viajar ao país de origem para o casamento do filho nas Filipinas. Segundo a mulher, Siham Harati teria dito que não poderia liberá-la para a viagem porque estava doente e sugerido que pedisse ao filho o adiamento da cerimônia.
Mesmo assim, a filipina diz que estava decidida a participar do momento importante da vida familiar. Sem conta bancária no Brasil, dinheiro ou documentos, ela relata ter pedido um empréstimo a Harati para comprar a passagem e viajar ao casamento.
A cônsul chegou a prometer que arcaria com o custo, mas depois, segundo a mulher, recusou-se a ajudar, acompanhada de um advogado.
“Eu trabalhei para ela por 12 anos, eu fazia de tudo e me sacrifiquei por ela e pela filha dela. Cuidei da casa das duas. [Trabalhava] como cozinheira e como faxineira, todo santo dia, de domingo a segunda. Eu tinha esse direito, certo? Foi a primeira vez que pedi para voltar”, lamentou.
A trabalhadora doméstica foi resgatada em São Paulo após a representação do Consulado da Filipinas em São Paulo acionar a Polícia Militar, com ajuda do assistente consular Luiz Philipe de Oliveira. Ao Metrópoles, ele disse que a mulher “pedia socorro todos os dias”.
Harati é investigada pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) e pela Polícia Federal por crime análogo à escravidão. Ela nega as acusações.
A vítima ainda está no Brasil. O Metrópoles apurou que a PF ainda está concluindo as diligências do caso.
Acúmulo de funções em 4 casas
No depoimento à Polícia Federal e que o Metrópoles teve acesso, a vítima contou que cumpria jornadas exaustivas de trabalho, que se iniciavam às 6h30, e só encerrava as funções domésticas às 19h30. Embora tivesse um salário de US$ 550, a vítima relatou não tinha acesso ao valor, que era enviado integralmente à sua família, nas Filipinas.
Além de se dividir entre seis meses no Brasil e seis no Líbano, a trabalhadora doméstica relatou que também cuidava de outras duas casas, que seriam de uma filha de Siham. Ainda segundo a denúncia, a vítima não visita a família nas Filipinas e tinha contato restrito com os familiares.
A funcionária também conta que a cônsul é proprietária de “uma casa muito grande” e que ficava responsável pelo cuidado das residências sozinha. “Eu não podia sair sozinha. Eu só fazia o que ela falava para eu fazer e, muitas vezes, ela me ameaçava quando a questionava”, conta a funcionária.
Desejo de voltar para Filipinas
Sem ver o filhos há 12 anos, a vítima conta que deseja voltar para seu país de origem e reencontrar seus filhos. Neste momento, contudo, ela esperar reaver seus direitos e conseguir se estabelecer financeiramente antes de tentar voltar.
“Eu fiz tudo que eu fiz pelos meus filhos e pelo futuro deles. Eu trabalhei muito esses anos todos, todos os dias, sem folgas e sem férias. Eu estava sofrendo, mas agora chega”, declara.
Cônsul nega acusações
Ao Metrópoles, a defesa de Siham Harati enviou uma nota em que contesta, ponto a ponto, todas as acusações feitas pela funcionária. A cônsul afirma que a vítima tinha liberdade para sair da residência e acompanhava a patroa no Brasil a pedido próprio.
“As acusações são injustas e não refletem a realidade dos fatos, os quais já estão sendo devidamente apresentados às autoridades e à imprensa por meio de documentos e registros comprobatórios”, declarou Siham em nota enviada.
A cônsul afirmou que está no Brasil de maneira “temporária” para realizar uma cirurgia no quadril. A permanência, contudo, foi estendida em decorrência de complicações no procedimento. Siham declarou ainda que os valores salariais pagos à funcionária eram enviados à sua família por um pedido dela.
“Por solicitação da própria trabalhadora, os valores eram enviados diretamente à sua filha, residente nas Filipinas, responsável por sua família. Todos os comprovantes dessas remessas foram apresentados. Ao longo de toda a relação profissional nunca houve registros de reclamações formais ou qualquer apontamento de irregularidade”, declarou a cônsul.
A cônsul declarou também que tem “prestado todos os esclarecimentos às autoridades e também aos jornalistas” que a procuraram, e afirmou que “os fatos serão devidamente esclarecidos pelas autoridades”.
O Itamaraty declarou ter conhecimento do caso em questão, mas afirmou que Siham Harati não tem relação profissional direta com a pasta.
“Os Cônsules honorários são indivíduos selecionados localmente entre residentes do Estado receptor para exercer funções consulares limitadas em caráter voluntário, não recebendo, portanto, salário ou ajuda de custo. Os cônsules honorários não têm as imunidades previstas para agentes consulares de carreira”, declarou o Itamaraty.






