Espero estar junto de Alckmin em 2022, diz vice-governador de SP

Candidato de Doria ao governo de SP, Rodrigo Garcia fala sobre o desafio de alcançar visibilidade e as disputas internas no PSDB

atualizado 24/10/2021 16:06

Fábio Vieira/Metrópoles

São Paulo – A um ano da eleição, Rodrigo Garcia, vice-governador de São Paulo e pré-candidato ao governo paulista, evita falar do futuro, e prefere se voltar a seus feitos como secretário de Governo. “Meu foco é muita entrega até o fim do mandato. É o que as pessoas estão esperando. Nos meses perto da eleição, aí se fala em campanha.”

Ele deixou o DEM e foi para o PSDB, em maio, com o apoio do governador João Doria e da cúpula do tucanato paulista, escanteando de vez as chances de Geraldo Alckmin concorrer ao Palácio dos Bandeirantes pela legenda. Garcia evita criticar o ex-governador, com quem já trabalhou por três vezes, e espera receber seu apoio em 2022. “Fato é que ele não saiu do PSDB. Então, eu espero que possamos estar juntos na eleição de 2022”, afirma.

Alckmin deve deixar o partido neste ano, mas ainda conversa com outras siglas para definir seu destino. Entre os cotados, aparecem o PSD, de Gilberto Kassab, e o União Brasil, resultado da fusão do DEM com o PSL.

De seu gabinete no Palácio dos Bandeirantes, Garcia falou com o Metrópoles sobre a confiança na vitória de Doria nas prévias do PSDB, que definirão o candidato tucano à Presidência da República, a respeito das conversas que tem com outros partidos para compor sua chapa no ano que vem e destacou as obras e o crescimento econômico de São Paulo.

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Para o vice-governador, o sucesso econômico de São Paulo, mesmo em ano de crise, é fruto de “uma gestão fiscal muito responsável, um governo pró-mercado e liberal, e que lidou bem com as quarentenas da pandemia”. Ainda destacou que sua gestão não deixa nenhuma obra parada no estado. 

Os investimentos bilionários em obras de infraestrutura, inauguradas por Garcia, porém, não impactam em popularidade eleitoral. Pesquisa do Datafolha de setembro mostrou o político com apenas 5% das intenções de voto.

Mas ele minimiza: “Os números só serão refletidos em campanha. A sociedade hoje está com muitos problemas, a pobreza cresceu demais e a última coisa que as pessoas querem saber hoje é de eleição. Então, qualquer pesquisa que apareça aí é mero nível de conhecimento. O nível de popularidade de um político se apresenta na candidatura, e não antes”, acredita.

Caso os planos de Doria de concorrer ao Planalto se concretizem, ele deixará o cargo em abril e Garcia assumirá como governador de São Paulo. Ele garante uma transição “sem sobressaltos”.  

“Cada um tem seu estilo. O que garanto é que existe uma integração de gestão muito grande. O meu papel na Secretaria de Governo vai mostrar aos paulistas que não há sobressaltos na eventual transição. Há um planejamento de mandato que vamos cumprir até 31 de dezembro do ano que vem”. Leia a entrevista abaixo:

O senhor, além de vice-governador, é secretário de Governo, responsável por coordenar grandes obras e projetos no estado e por cuidar do orçamento. A proposta orçamentária enviada à Alesp para 2022 é 17% maior do que a do ano passado, em um ano de grave crise econômica no país. Como esse orçamento foi possível?

Ele vem sendo construído desde o primeiro ano da nossa gestão. Quando assumimos, em 2019, tínhamos 6% da receita corrente líquida livre para investimento. Deste orçamento de 2022, saltamos para 13,3%. Isso foi fruto de muitas reformas que o governo fez, a primeira delas em 2019, a da Previdência. Ao lado dela, o enxugamento robusto da máquina pública, com o fechamento de estatais, com incorporação de empresas públicas, com redução de autarquias e fundações. Então o orçamento de 2022 tem um recorde histórico de investimento. A gente fez a lição de casa e o estado está colhendo esses frutos agora.

Há críticas ao governo no sentido de que as reformas administrativa e da Previdência retiram direitos dos servidores públicos, e movimentos sociais e a oposição afirmam que o governo João Doria é contra o funcionalismo público. O senhor concorda?

Eu diria que o estado de São Paulo tinha uma série de privilégios dentro de determinadas carreiras do funcionalismo que nenhum outro estado mais permitia. O que a gente fez foi uma reforma administrativa necessária. Sofremos críticas pela aprovação do fim das faltas abonadas de professores. Não existe nenhuma carreira em que você permita quase 32 faltas abonadas por ano, isso é praticamente um mês a menos de aula. E quem paga a conta disso é o aluno, que tem menos professor disponível, prejudica o ensino. Eu não diria que a gente tirou direitos, fizemos uma atualização dessas reformas nas carreiras do serviço público, necessária pelo momento em que vivemos.

Neste ano, o Governo do Estado de São Paulo projeta um crescimento no PIB de mais de 7%. E recentemente foi anunciado um pacote de obras de R$ 50 milhões entre 2021 e 2022. Quais são as principais obras que o senhor destacaria desse pacote?

Não é um crescimento que acontece por acaso, mas baseado nas decisões tomadas pelo governo. Na década de 1980, quase metade do Brasil era São Paulo em termos de força econômica. Nos últimos 30 anos, o Brasil cresceu bem, e São Paulo perdeu peso relativo no PIB. Mas existiu uma inversão dessa lógica. Em 2019, São Paulo cresceu 2,8% e o Brasil, 1%. Em 2020, o Brasil caiu 4,5% e São Paulo cresceu 0,5%. E em 2021, São Paulo vai crescer 7,5%, e o Brasil, 5%. Ao que eu credito isso? A uma gestão fiscal muito responsável, um governo pró-mercado, liberal, que não teve em nenhum momento medo de olhar os passivos regulatórios das concessões de serviços públicos e fazer entendimentos com transparência.

Foi um estado que lidou bem com as quarentenas da pandemia. Nós criamos o Plano São Paulo, não fechamos tudo ao contrário do que muita gente falava. Mantivemos indústria, construção civil, logística, transporte, agricultura, tudo funcionando. Nós fizemos uma quarentena cirúrgica, heterogênea, ela era diferente na capital e no interior. Então essas decisões, sejam administrativas ou no combate à pandemia, é que nos dão esse resultado. A expectativa de crescimento deste ano é positiva porque lutamos muito pela vacina. Somos o estado que mais está vacinando, então voltam mais rápido as atividades econômicas.

Havia planos de investimentos, projetos de governo, de obras, e aí veio a pandemia e, de repente, começa a atrasar. Como é que foi lidar com essa tensão nos últimos meses?

Não foi fácil. O desafio antes da pandemia era a gente retomar as obras paradas, fruto de uma série de decisões judiciais e de governos anteriores. Fato é que a maior obra pública do Brasil, que era a linha 6 – Laranja do Metrô, estava parada. A linha 17 do monotrilho estava parada, na linha 15 as estações estavam paradas, o Rodoanel estava parado. Começamos um trabalho de olhar as obras, uma a uma, e mesmo com a pandemia, hoje temos uma boa história para contar. Todas as obras foram retomadas. Nós temos ainda um desafio apenas, que é do Rodoanel norte, com muita polêmica. Em outubro do ano passado, soltamos uma licitação de obra pública, ocorreram mais de 700 impugnações, o estado deu um passo atrás, está modelando uma PPP [parceria público-privada] e deve publicar em dezembro deste ano o edital.

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São obras muito impactantes que não eram feitas nesta proporção há bastante tempo. Sua presença nesses locais acaba aumentando sua visibilidade, mas até agora isso não apareceu nas pesquisas. O senhor se preocupa com isso?

Os números só serão refletidos em campanha. A sociedade hoje está com muitos problemas, a pobreza cresceu demais e a última coisa que as pessoas querem saber hoje é de eleição. Então qualquer pesquisa que apareça aí é mero nível de conhecimento. O nível de popularidade de um político se apresenta na candidatura, e não antes. O exercício do mandato não torna ninguém conhecido, o que torna conhecido é a campanha. 

Caso o governador João Doria seja escolhido o candidato do PSDB à Presidência da República, o senhor vai assumir o Governo o Estado de São Paulo em abril. No que seu estilo de governar se difere de Doria?

Doria veio para a política agora, tem uma carreira empresarial, e eu sou da política desde o início da minha atividade profissional. Escolhi ela como um caminho na minha vida. Cada um tem seu estilo. O que garanto é que existe uma integração de gestão muito grande. O meu papel na Secretaria de Governo vai mostrar aos paulistas que não há sobressaltos na eventual transição. Pelo contrário, há um planejamento de mandato que vamos cumprir até 31 de dezembro do ano que vem. 

O senhor é o pré-candidato do PSDB ao governo já que ninguém se inscreveu nas prévias estaduais. O senhor gostaria que o ex-governador Geraldo Alckmin tivesse se inscrito?

Eu fui convidado pelo Bruno [Covas], pelo João Doria, pela bancada estadual, federal, vários prefeitos que entenderam que eu cumpriria um papel de renovação no PSDB do estado. Quando fui convidado, o Bruno falava muito isso, “você vem, não tem prévia, você vai ser governador”. Quando eu entrei, o presidente nacional Bruno Araújo e Doria me ponderaram que talvez o gesto de aceitar as prévias seria importante para harmonizar as aspirações no partido, do Geraldo e de outros. E eu prontamente aceitei. Acredito que se não tiver a capacidade de conquistar o meu partido, muito menos terei a capacidade de conquistar as eleições. Então aceitei as prévias e não houve outro inscrito, e aí mantivemos as prévias homologatórias. Com a pré-candidatura colocada, pretendo dialogar com outros partidos e companheiros do partido. O Alckmin tem muita especulação, mas o fato é que ele não saiu do PSDB. Então, eu espero que possamos estar juntos na eleição de 2022. 

Apesar de o PSDB de São Paulo ter fechado questão de apoio ao governador João Doria para as prévias nacionais, há algumas dissidências nas últimas semanas, e o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, tem visitado o estado com frequência. Há risco de Leite ameaçar Doria em seu próprio território?

Nenhum risco. Todo candidato é bem-vindo, o diretório recebeu o Arthur Virgílio, Doria tem o apoio da ex-governadora do RS, Yeda Crusius. Então, assim como tem alguns tucanos de São Paulo que vão apoiar Eduardo Leite, tem outros do Rio Grande do Sul que vão apoiar João Doria. Estamos numa disputa saudável e natural, importante para o fortalecimento do vigor do PSDB. Ninguém é unanimidade, mas possuo convicção de que o Doria terá uma votação consagradora no diretório de São Paulo.  

O senhor fala sobre Doria ser a terceira via. Hoje há uma força política muito conservadora, os bolsonaristas, e a esquerda, que também faz muita oposição. Como é ficar nesta linha de tiro, na dianteira de uma polarização tão grande?

É natural. São Paulo, por ser um estado espelho do Brasil, reflete um pouco a questão nacional. É o estado onde o petismo tem uma rejeição alta, onde o bolsonarismo tem uma rejeição alta. A eleição de 2022, pela importância dela, será acirrada. Obviamente, deve-se estar preparado para estes embates. A eleição presidencial se mostra muito personalista e para governador também. Esse acirramento vai estar presente em 2022, em São Paulo e em todo o Brasil.

Nesta reta final, qual é o desafio mais complexo que o governo tem hoje?

É fazer este conjunto de ações e, ao mesmo tempo, ter uma rede de proteção social para ajudar os mais vulneráveis, porque a pobreza nunca foi tão grande. O governo que enxugou máquina pública, que tem gestão fiscal responsável, que é mais privado e menos público é o mesmo governo que tem o maior programa social da história de São Paulo. E não há contradição nisso, porque o Estado possui papel relevante, principalmente na vida das pessoas mais vulneráveis. A gestão pública não pode ter ideologia. Quando a gente faz um programa, não pensa se o sujeito votou no Doria, no Bolsonaro, no Lula. Nosso foco ainda é muita entrega até o fim do mandato, é o que as pessoas estão esperando.

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